Mendonça libera dono do Master de depor em CPI do INSS no Senado
O empresário Vorcaro, dono do grupo Master, é dispensado de comparecer obrigatoriamente à CPI do INSS e à Comissão de Assuntos Econômicos do Senado, marcadas para 23 e 24 de fevereiro de 2026. A mudança atende a um pedido do senador Mendonça e transforma em opcional um depoimento considerado estratégico por integrantes das comissões.
Mendonça intervém e altera rotina das comissões
A decisão nasce de uma articulação silenciosa em Brasília. A poucos dias das audiências, Mendonça atua para rever os termos da convocação de Vorcaro. O empresário deixa de ser obrigado a sentar-se diante dos senadores, em sessões que prometiam estender-se por várias horas, e passa a ter liberdade para decidir se fala ou não ao Congresso.
No planejamento original, Vorcaro prestaria esclarecimentos na CPI do INSS em 23 de fevereiro e, no dia seguinte, enfrentaria nova bateria de perguntas na Comissão de Assuntos Econômicos. As duas frentes miram suspeitas e dúvidas sobre a atuação de grupos privados em operações ligadas ao sistema previdenciário e ao impacto financeiro sobre o INSS, que administra benefícios para mais de 39 milhões de segurados. A expectativa era de um depoimento longo, com apresentação de documentos e detalhamento de contratos.
Investigação perde poder de pressão
Com a presença tornada opcional, o equilíbrio de forças muda. Senadores da CPI e da CAE veem a dispensa como um recuo na capacidade de pressionar por respostas objetivas. O instrumento da convocação obrigatória é uma das principais armas das comissões parlamentares de inquérito desde a Constituição de 1988, porque coloca investigados diante do risco político de se calar ou de faltar.
A reversão alimenta um debate conhecido no Congresso: até onde vai o poder das comissões de obrigar empresários e dirigentes a colaborar com apurações? Parlamentares que defendem a linha dura afirmam, em conversas reservadas, que a mudança reduz a transparência e pode atrasar a reconstrução da trilha de decisões que afetam o INSS e o caixa da União. Para esses senadores, sem a fala direta de Vorcaro, o processo passa a depender de ofícios, quebras de sigilo e relatórios técnicos mais lentos.
A percepção entre integrantes das comissões é que o depoimento de um empresário central no setor ajuda a montar o painel de interesses privados em torno da Previdência. “Quando um personagem-chave escolhe se fala ou não, a investigação perde densidade”, resume um senador da base governista, sob condição de anonimato. A avaliação é compartilhada por oposicionistas, que veem na decisão de Mendonça um gesto de proteção a um convidado sensível.
Reação no Congresso e pressão por transparência
A dispensa provoca reação imediata nos corredores do Senado. Integrantes da CPI do INSS e da CAE cobram explicações internas sobre os critérios usados para flexibilizar a convocação. Alguns senadores discutem a possibilidade de reapresentar requerimentos, desta vez com redação mais rígida, para restabelecer algum grau de obrigatoriedade ou ao menos aumentar o custo político de uma eventual ausência do empresário.
Assessores técnicos das comissões alertam para o risco de efeito cascata. Se um personagem de peso consegue transformar uma convocação em convite, outros empresários e gestores podem buscar tratamento semelhante nos próximos meses. O temor é que CPIs e comissões temáticas percam capacidade de reação justamente em temas com impacto bilionário sobre as contas públicas.
O caso também reabre uma discussão de fundo sobre o compromisso de agentes privados com as investigações legislativas. A legislação garante o direito ao silêncio para evitar autoincriminação, mas não impede o comparecimento físico. Ao tornar a presença opcional, Mendonça desloca o foco da proteção jurídica para o campo político. Se Vorcaro optar por não ir, enfrentará cobrança pública. Se comparecer, passa a ser a figura central de dois dias de sabatina, sob a atenção da base de beneficiários do INSS e de investidores do setor financeiro.
Próximos passos e cenário em aberto
Nas próximas semanas, a CPI do INSS e a CAE devem redefinir a estratégia. Senadores discutem incluir novos nomes nas listas de convocados, reforçar pedidos de documentos a órgãos de controle e estabelecer prazos rígidos, de 10 a 30 dias, para respostas formais. Técnicos calculam que qualquer atraso na obtenção de informações pode empurrar para o segundo semestre de 2026 a conclusão de relatórios e propostas de mudança nas regras que regulam contratos com o INSS.
A postura de Vorcaro será decisiva para o rumo das investigações. A presença voluntária pode reduzir a tensão política e abrir espaço para um acordo mínimo em torno de medidas de transparência. A ausência tende a fortalecer a ala que defende endurecer as regras de convocação e revisar, por lei, os poderes das comissões de inquérito. O episódio expõe uma pergunta que o Congresso ainda não responde com clareza: até que ponto o Legislativo está disposto a enfrentar interesses econômicos quando a Previdência e o dinheiro público estão em jogo?
