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Memphis Depay é denunciado ao STJD por uso de celular no banco

Memphis Depay, atacante do Corinthians, é denunciado pela procuradoria do STJD por usar o celular no banco de reservas no jogo contra o Flamengo, pelo Brasileirão. O lance ocorre na partida realizada em 26 de março de 2026 e pode render suspensão de até seis jogos. O caso reacende o debate sobre limites para tecnologia e conduta de jogadores durante as partidas.

Celular no banco vira caso de tribunal

O episódio começa ainda no primeiro tempo, quando Memphis deixa o campo após sentir dores e se senta no banco de reservas. Minutos depois, as câmeras de transmissão flagram o atacante com um celular nas mãos, em plena área técnica, em um dos estádios mais vigiados do país.

As imagens correm as redes sociais ainda durante o jogo. No dia seguinte, chegam oficialmente à procuradoria do Superior Tribunal de Justiça Desportiva, que decide abrir procedimento e enquadrar o jogador no artigo 258 do Código Brasileiro de Justiça Desportiva. O dispositivo pune quem age de forma contrária à ética desportiva, com pena prevista de um a seis jogos de suspensão.

Na denúncia, à qual o UOL tem acesso, a procuradoria afirma que o uso de celular por Memphis está “em desacordo com as normas de competição e com a regulamentação da arbitragem (IFAB/CBF), que restringem o uso de equipamentos eletrônicos no banco a finalidades estritamente táticas e médicas, por membros autorizados da comissão técnica”. O texto destaca que o atacante não tem essa autorização formal.

Memphis tenta explicar o gesto ainda no fim de semana. Diz que falava com o departamento médico da seleção holandesa, que poderia defender na data Fifa caso não tivesse se machucado. Afirma que buscava apenas atualizar o quadro físico para a comissão de seu país. A versão, porém, não basta para a procuradoria.

Os procuradores registram na peça que, mesmo que a justificativa seja verdadeira, “a alegação não afasta a necessidade de prévia autorização formal e ciência da organização/entidade responsável pela competição, justamente por se tratar de situação atípica, que extrapola o uso ordinário admitido pelo protocolo da área técnica”. O entendimento é que o protocolo vale para todos, independentemente do status do atleta ou da urgência do contato.

Ética, exemplo e impacto no Corinthians

A denúncia não mira apenas a cena isolada de um jogador ao celular. O texto da procuradoria tenta enquadrar o episódio em um debate mais amplo sobre disciplina, influência de atletas de elite e controle das regras em campo. Para o órgão, a conduta de Memphis “viola deveres de lealdade e disciplina do atleta; afronta a autoridade da arbitragem e da organização da competição e estimula comportamento indevido em ambiente de substitutos e comissão técnica”.

Os procuradores argumentam que a atitude de um atacante conhecido internacionalmente tem peso simbólico. “A conduta de um atleta de alto perfil tem forte capacidade de influenciar comportamentos, podendo normalizar o uso de dispositivos eletrônicos no banco de reservas, o que fragilizaria o controle disciplinar, abriria espaço para comunicações indevidas e criaria dificuldades adicionais à arbitragem e aos organizadores na fiscalização das regras”, afirma um trecho da denúncia.

O regulamento permite aparelhos eletrônicos na área técnica, mas de forma limitada. As regras da IFAB, adotadas pela CBF, autorizam o uso de tablets, fones e sistemas de comunicação para análise tática e controle de carga física, desde que operados por membros credenciados da comissão técnica ou do departamento médico. O celular pessoal na mão de um jogador, em meio ao jogo, foge desse desenho e abre uma zona cinzenta que o STJD agora precisa iluminar.

No Corinthians, o caso surge em um momento de cobrança por resultados e estabilidade. Uma eventual suspensão de Memphis, ainda no primeiro turno do Brasileirão, pode obrigar a comissão técnica a redesenhar o ataque em sequência de rodadas importantes. O clube já lida com calendário congestionado, viagens e convocações para seleções, cenário em que perder um atacante de peso por motivo disciplinar pesa na conta esportiva.

O impacto, porém, ultrapassa o vestiário alvinegro. A decisão do STJD tende a servir de referência para outros clubes da Série A e das divisões inferiores. Se a corte aplicar pena pesada, envia recado claro sobre o limite do que é tolerado no banco de reservas. Caso opte por uma interpretação mais branda, pode abrir brecha para discussões futuras sobre exceções médicas, comunicação com seleções e uso de tecnologia à margem do protocolo atual.

Outras denúncias e o que vem a seguir

O Corinthians x Flamengo que leva Memphis ao banco dos réus esportivos também produz outras consequências disciplinares. O volante rubro-negro Evertton Araújo é denunciado de forma automática após receber cartão vermelho direto, em uma expulsão considerada controversa por parte da torcida. Ele é enquadrado no artigo 254 do CBJD, que trata de jogada violenta, com possibilidade de suspensão entre uma e seis partidas.

Além dos jogadores, a súmula do árbitro Rodrigo José Pereira atinge dirigentes e membros da estrutura corintiana. O gerente de marcas e novos negócios do clube, Leonardo Carnevale, e o observador técnico Mauro da Silva, conhecido como Van Basten, aparecem como autores de ofensas ao trio de arbitragem na área dos vestiários. “Após o final do jogo, em frente à porta do vestiário da arbitragem, fomos abordados por pessoas identificadas com a camiseta do SC Corinthians, onde dois deles se destacaram gritando e falando palavras de ofensa a este árbitro: ‘Sempre contra a gente, safado, tá de sacanagem’”, registra o juiz.

Os dois são denunciados no artigo 243-F, que prevê punição para quem ofende a honra de alguém por fato relacionado ao esporte. Em caso de condenação, podem receber multa e suspensão, o que afeta diretamente o dia a dia de campo e a interlocução do clube com a organização dos jogos. A soma de episódios desenha um retrato de tensão em torno daquela noite de Brasileirão.

O STJD ainda não marca a data do julgamento de Memphis, Evertton e dos membros da estrutura corintiana, mas a tendência é que o caso entre em pauta nas próximas semanas, antes da virada para o segundo turno. O tribunal costuma julgar episódios de grande repercussão com certa celeridade para evitar que a disputa esportiva fique contaminada por incertezas disciplinares prolongadas.

O desfecho vai além da tabela de classificação. A corte terá de dizer até onde a tecnologia pode entrar no banco de reservas, em um futebol cada vez mais conectado e monitorado por dados. A decisão pode forçar clubes a rever protocolos internos, orientar jogadores com mais rigor e negociar, junto à CBF, ajustes nas normas para cenários específicos, como contato com seleções estrangeiras em data Fifa. Enquanto isso, Memphis e o Corinthians aguardam a definição que pode redesenhar não só os próximos jogos, mas também a fronteira entre rotina médica e infração disciplinar nos gramados brasileiros.

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