Melania Trump rompe silêncio e pede audiências públicas sobre caso Epstein
Melania Trump rompe o silêncio sobre o caso Jeffrey Epstein e, em discurso surpresa na Casa Branca nesta quinta-feira (11/4), nega qualquer vínculo com o financista e pede audiências públicas no Congresso para ouvir vítimas. A primeira-dama dos Estados Unidos confronta, assim, tanto os rumores sobre seu nome quanto a estratégia de contenção adotada até agora pelo governo Trump.
Discurso inesperado expõe fissura na Casa Branca
O pronunciamento acontece no mesmo salão em que Donald Trump fala ao país, pouco mais de uma semana antes, sobre a crise com o Irã. Desta vez, porém, não há bandeiras de guerra nem anúncio de sanções. Há um ataque direto às “mentiras” que, segundo Melania, a ligam ao “vergonhoso Jeffrey Epstein” e um apelo para que a história não seja encerrada nos gabinetes do Departamento de Justiça.
O texto é lido de um comunicado preparado, em tom contido, mas com frases calculadas. Melania afirma que nunca teve qualquer relacionamento com Epstein ou com Ghislaine Maxwell, que não conheceu o marido por intermédio do financista e que desconhecia os crimes que hoje cercam o nome dele. Em seguida, desloca os holofotes: pede que o Congresso realize audiências públicas para que sobreviventes prestem depoimento oficiais, em sessão aberta, e “ajudem a revelar a verdade”.
A fala pega até integrantes da própria administração de surpresa. Nem assessores próximos do presidente esperam algo dessa dimensão, segundo autoridades ouvidas pela imprensa americana. Canais de TV interrompem a cobertura sobre o Irã para transmitir o discurso ao vivo, sinal de que o caso Epstein, que parecia esfriar, volta ao centro da cena política em Washington.
Melania encerra o texto sem citar o marido ou o Departamento de Justiça, que desde 2019 administra cerca de 6 milhões de documentos ligados a Epstein. Deixa o púlpito sem responder a perguntas. A ausência de explicações abre espaço para um coro imediato de especulações: por que falar agora, quando as alegações que menciona circulam há anos e, até aqui, eram tratadas por seus advogados em silêncio de bastidor?
Sobreviventes reagem e cobram ações concretas
A reação entre sobreviventes de Epstein é rápida e organizada. Em grupos privados e chamadas de vídeo, elas trocam mensagens de incredulidade e começam a articular uma resposta conjunta. Em menos de 24 horas, treze vítimas, ao lado da família de Virginia Roberts Giuffre, divulgam um comunicado duro, em que acusam a primeira-dama de transferir o peso da responsabilização para quem já denunciou abusos.
“A primeira-dama Melania Trump agora está transferindo o ônus para os sobreviventes em condições politizadas que protegem aqueles que detêm poder”, afirmam. No texto, citam o Departamento de Justiça, as forças de segurança, promotores e o próprio governo Trump, que, segundo elas, ainda não cumpre integralmente a Lei de Transparência dos Arquivos Epstein. Dos 6 milhões de documentos sob custódia federal, apenas 3,5 milhões foram divulgados. O restante permanece sob sigilo, amparado em alegações de limites legais.
Marina Lacerda, que tinha 14 anos quando, segundo a acusação federal de 2019, é abusada por Epstein, assina o manifesto e vai além em um vídeo publicado nas redes sociais. “Parece que você está apenas tentando desviar a atenção de uma coisa para outra. Então, como isso beneficia a família Trump, é a minha pergunta”, questiona. A crítica ecoa entre ativistas que veem, no gesto de Melania, mais cálculo político do que solidariedade.
Nem todas, porém, rejeitam o movimento. A sobrevivente Lisa Phillips classifica o apelo por depoimentos públicos como um “movimento ousado” ao falar ao programa Today, da BBC Radio 4. Ela elogia o fato de a primeira-dama confrontar a narrativa de que o país poderia virar a página dos arquivos Epstein, mas faz um desafio direto: “Agora que você disse isso, o que pode fazer? O que pode fazer para nos ajudar? E o que pode fazer para nos fazer avançar?”
Entre especialistas que acompanham o caso há anos, o momento da fala é visto com desconfiança. A jornalista investigativa Vicky Ward, que investiga Epstein há décadas, afirma que o contexto não fecha. “Se Melania tivesse feito isso no início da crise de Epstein, há um ano, e tivesse convocado o Congresso a ouvir as vítimas, nos sentiríamos de forma bem diferente”, diz. Ward lembra que “não há muita coisa sobre Melania” nos arquivos, além de um e-mail cordial endereçado a Ghislaine Maxwell. “Fico perplexa. Não acho que alguém jamais tenha acreditado que ela fosse uma vítima”, afirma.
Pressão sobre Trump, Congresso e Departamento de Justiça
O impacto político é imediato. Ao pedir audiências públicas, Melania pressiona, ainda que indiretamente, o Departamento de Justiça e o próprio governo, que tenta encerrar a controvérsia em torno dos arquivos de Epstein. Democratas já acusam a pasta de reter documentos sem justificativa convincente e veem no gesto da primeira-dama uma oportunidade rara.
Robert Garcia, democrata de mais alto escalão no Comitê de Supervisão da Câmara, diz estar surpreso com o discurso e exige coerência da Casa Branca. “Se Melania Trump quer justiça de verdade, ela deveria pedir ao marido que divulgue o restante dos arquivos Epstein e garanta que Pam Bondi testemunhe”, afirma, citando a ex-procuradora-geral da Flórida, figura central no acordão que, em 2008, suavizou a pena de Epstein.
Republicanos procuram capitalizar o gesto sem comprar toda a briga. O presidente do Comitê de Supervisão, James Comer, declara à Fox News que já planeja ouvir sobreviventes assim que a investigação documental terminar. “Concordo com a primeira-dama e agradeço o que ela disse. Teremos audiências”, promete, sem cravar datas. Na prática, o cronograma ainda depende da análise de milhões de páginas e de negociações internas na Câmara.
Analistas veem na fala de Melania um raro choque público com a postura do presidente. Barry Levine, autor de “The Spider: Inside the Tangled Web of Jeffrey Epstein and Ghislaine Maxwell”, destaca que ela decide reconhecer as vítimas em rede nacional, algo que Donald Trump evita desde o início da crise. “Ele teve muitas oportunidades de dizer algo em apoio aos sobreviventes e continuamente disse que os arquivos não passam de uma farsa”, lembra. Para Levine, a cena reforça a imagem de uma primeira-dama “muito dona de si”, que fala o que pensa.
Tammy Vigil, autora de “Melania and Michelle: First Ladies in a New Era”, também enxerga rachaduras. Para ela, o fato de o comunicado ignorar o presidente explicita uma fissura entre as agendas do casal e entre a Casa Branca e o Partido Republicano. “Ela está promovendo uma agenda que, por todas as aparências externas, ele não quer promover. É uma declaração muito independente, e já a vimos fazer isso antes”, analisa.
Crise se prolonga e recoloca Epstein no centro do debate
O governo Trump tenta minimizar o alcance do episódio. O presidente afirma que não sabia do conteúdo do discurso, embora um porta-voz de Melania tenha dito, antes, que ele fora informado. A contradição alimenta a percepção de desorganização e reforça a leitura de que o caso Epstein continua a escapar do controle do governo, quase cinco anos depois da acusação federal de 2019.
Donald Trump volta a chamar a comoção em torno dos arquivos de “farsa politicamente motivada”. Desta vez, porém, não pode atribuir intenção maliciosa a quem recoloca o caso no noticiário. A responsável é sua própria esposa, que decide se distanciar publicamente das acusações e, ao mesmo tempo, exigir mais transparência do sistema que o presidente tenta blindar.
Para sobreviventes, o risco é que o gesto se transforme em nova vitrine política sem mudança concreta. Para o Congresso, abre-se uma janela para acelerar audiências já prometidas, mas ainda sem data. Para o Departamento de Justiça, a pressão aumenta para explicar por que 2,5 milhões de documentos continuam fora do alcance do público.
O episódio tem potencial para ultrapassar o noticiário de um dia. O caso Epstein volta ao centro da campanha presidencial, reacende debates sobre abuso sexual, poder e impunidade e testa os limites da autonomia da primeira-dama em um governo conhecido pela lealdade absoluta ao presidente. As próximas semanas dirão se as palavras de Melania se convertem em depoimentos sob juramento ou se o pedido de audiências públicas acaba arquivado na mesma gaveta em que ainda repousam milhões de páginas sobre Epstein.
