Melania Trump nega laços com Epstein e cobra audiências no Congresso
Melania Trump faz nesta quinta-feira (11) um pronunciamento inesperado na Casa Branca para negar qualquer vínculo com Jeffrey Epstein e cobrar audiências públicas no Congresso. A primeira-dama pede transparência total sobre os arquivos do criminoso sexual condenado e reivindica justiça para as vítimas. A intervenção recoloca o escândalo no centro da crise política que cerca o governo Trump.
Pronunciamento raro expõe fissuras na Casa Branca
O aviso à imprensa não indicava nada fora do padrão. Quando Melania cruza o Salão Leste em direção ao púlpito onde, nove dias antes, Donald Trump falara sobre o Irã, a expectativa é modesta. Em poucos segundos, o clima muda. “As mentiras que me ligam ao vergonhoso Jeffrey Epstein precisam acabar hoje”, dispara ela, diante de bandeiras alinhadas e assessores atônitos.
Redes de TV a cabo interrompem a cobertura internacional e entram ao vivo da Casa Branca. A primeira-dama, normalmente discreta e avessa a gestos teatrais, lê um texto preparado em tom firme. Diz que nunca teve qualquer relacionamento com Epstein ou com Ghislaine Maxwell, que não foi apresentada ao marido pelo financista e que desconhecia os crimes atribuídos a ele. Em seguida, vira o eixo do discurso: em vez de falar só de si, exige que o Congresso convoque audiências públicas para ouvir sobreviventes.
O apelo mira diretamente um dos pontos mais sensíveis do caso. O Departamento de Justiça reconhece a existência de cerca de 6 milhões de documentos ligados a Epstein, mas até agora divulga apenas 3,5 milhões, alegando barreiras legais para a liberação do restante. Democratas acusam o governo de reter material sem justificativa adequada. Melania, ao pedir transparência, se afasta da linha do presidente, que insiste em chamar a comoção em torno dos arquivos de “farsa politicamente motivada”.
A repentina aparição pega até aliados de surpresa. Donald Trump afirma depois que não sabia do conteúdo da fala da mulher, embora um porta-voz da primeira-dama sustente, inicialmente, que o presidente fora informado. O desencontro de versões alimenta a leitura de racha interno. Para estudiosos da Casa Branca, o gesto não é trivial. “Ela está promovendo uma agenda que, por todas as aparências externas, ele não quer promover”, avalia Tammy Vigil, autora de um livro sobre o papel de Melania e Michelle Obama.
Sobreviventes dividem-se e pressão política aumenta
A fala dura menos de dez minutos, mas sua reverberação é imediata entre sobreviventes de Epstein, políticos e analistas. Treze vítimas, ao lado da família de Virginia Roberts Giuffre, divulgam um comunicado conjunto para contestar a sugestão de que novas audiências sejam o principal caminho para a verdade. “A primeira-dama Melania Trump agora está transferindo o ônus para os sobreviventes em condições politizadas que protegem aqueles que detêm poder”, escrevem, citando o Departamento de Justiça, promotores e o próprio governo Trump, acusado de não cumprir plenamente a Lei de Transparência dos Arquivos Epstein.
Algumas sobreviventes vão além. Marina Lacerda, abusada aos 14 anos segundo a acusação federal de 2019, grava um vídeo nas redes sociais. Ela questiona o timing da primeira-dama. “Parece que você está apenas tentando desviar a atenção de uma coisa para outra. Então, como isso beneficia a família Trump, é a minha pergunta”, afirma. A jornalista investigativa Vicky Ward, que acompanha o caso há décadas, ecoa a estranheza. Para ela, faria mais sentido se a declaração viesse no início da nova onda de denúncias, cerca de um ano atrás.
Nem todas as reações são negativas. A sobrevivente Lisa Phillips chama o apelo de Melania de “movimento ousado” ao ser entrevistada pela BBC Radio 4. Agradece o reconhecimento das vítimas, mas aponta o que considera um limite. “Agora que você disse isso, o que pode fazer para nos ajudar? E o que pode fazer para nos fazer avançar?”, questiona, pedindo ações concretas além do discurso.
No Congresso, o impacto é imediato. O republicano James Comer, presidente do Comitê de Supervisão da Câmara, que já investiga os arquivos Epstein, afirma à Fox News que “concorda” com a primeira-dama e promete audiências com sobreviventes assim que a fase atual da apuração terminar. Do outro lado, o democrata Robert Garcia, principal voz da oposição no mesmo comitê, vê na fala um constrangimento direto ao governo. Diz que o presidente deveria seguir o exemplo da esposa: “Se Melania Trump quer justiça de verdade, ela deveria pedir ao marido que divulgue o restante dos arquivos Epstein e garanta que Pam Bondi testemunhe”.
Pesquisadores do escândalo tratam a fala como inflexão política relevante. Barry Levine, autor de um livro sobre a teia em torno de Epstein e Ghislaine Maxwell, considera significativo que Melania cite e reconheça as vítimas. Para ele, a primeira-dama toma uma posição oposta à que o presidente adota há anos: “Ele teve muitas oportunidades de dizer algo em apoio aos sobreviventes, no sentido de buscar responsabilização, e continuamente disse que os arquivos não passam de uma farsa”.
Crise se prolonga e redefine o papel da primeira-dama
O pronunciamento desta quinta não ocorre no vazio. Epstein, acusado de abusar de dezenas de meninas e jovens mulheres ao longo de anos, se torna símbolo de como homens ricos e influentes escapam de punição. Sua morte em uma cela federal em 2019, classificada oficialmente como suicídio, não encerra a controvérsia. Ao contrário, alimenta teorias e mantém o nome do financista no debate público. A cada nova liberação de documentos, surgem conexões com figuras do mundo político, empresarial e do entretenimento, inclusive fotos antigas de Trump com Epstein em festas nos anos 1990.
Para o governo, a crise tem efeito corrosivo de longo prazo. A Casa Branca tenta encerrar o assunto ao argumentar que o Departamento de Justiça já fez o possível. O discurso de Melania, porém, reabre a ferida em horário nobre e com um elemento novo: a primeira-dama se declara alvo de “mentiras” e, ao mesmo tempo, exige mais transparência do próprio governo. Na prática, ela se coloca entre sobreviventes e instituições, e injeta peso político em uma cobrança que vinha sobretudo da oposição democrata e de grupos de direitos humanos.
O gesto também redesenha sua própria imagem. Até aqui, Melania constrói um perfil de presença controlada, focada em temas como bullying on-line e saúde infantil, com poucas intervenções diretas em debates explosivos. A decisão de abordar um dos escândalos mais tóxicos da política americana a empurra para o centro de uma disputa que envolve o marido, o Departamento de Justiça, o Congresso e sobreviventes em busca de justiça. Pesquisadores de comunicação política veem aí a afirmação de uma autonomia rara em primeiras-damas recentes.
Os próximos meses devem mostrar se o impacto será duradouro. Se o Comitê de Supervisão cumprir a promessa e marcar ainda neste ano audiências com sobreviventes, será difícil dissociar esse movimento da pressão pública vinda da Casa Branca. A reação do presidente também será decisiva: se insistir que o caso é uma “farsa”, corre o risco de colidir em público com o apelo da própria esposa.
No curto prazo, uma certeza se impõe em Washington: o caso Epstein volta oficialmente ao centro da agenda, agora por iniciativa de quem, até ontem, parecia se esforçar para ficar fora dela. A pergunta que permanece, dentro e fora da Casa Branca, é se o gesto de Melania Trump inaugura uma nova fase de transparência ou apenas acrescenta mais um capítulo à longa lista de crises que o governo ainda não consegue encerrar.
