Megaerupção solar atinge a Terra e gera tempestade geomagnética
Uma megaerupção solar de classe X8.1, registrada entre 1º e 5 de fevereiro, provoca uma tempestade geomagnética que atinge a Terra e acende o alerta de agências espaciais. O fenômeno, monitorado pela Administração Oceânica e Atmosférica Nacional (NOAA) dos Estados Unidos e pela Nasa, é resultado de uma sequência rara de explosões intensas na mesma região ativa do Sol.
Sol no auge do ciclo e mancha maior que a Terra
A tempestade atual nasce na mancha solar AR4366, uma região com cerca de dez vezes o tamanho da Terra, que domina a face do Sol voltada ao planeta desde o início de fevereiro. Entre domingo (1º) e quarta-feira (4), essa área concentra seis erupções classificadas na faixa X, a mais energética da escala usada pelos astrônomos. A maior delas chega a X8.1, nível considerado extremo.
A NOAA confirma que uma dessas explosões lança uma ejeção de massa coronal, uma nuvem de partículas carregadas, em direção à Terra. Esse plasma cruza o espaço em alta velocidade e alcança o campo magnético terrestre em poucos dias, comprimindo a chamada magnetosfera e disparando a tempestade geomagnética que agora se espalha pelo planeta.
O astrônomo Thiago Gonçalves, diretor do Observatório do Valongo da UFRJ, acompanha a atividade da AR4366 com atenção. “Estamos vendo uma região extremamente ativa, com sucessivas erupções fortes em um intervalo muito curto”, afirma. “Esse tipo de comportamento é típico de fases de máximo do ciclo solar, mas a quantidade de eventos intensos em poucos dias chama a atenção.”
O Sol atravessa um ciclo de cerca de 11 anos, em que seu campo magnético se embaralha e se inverte. Nesses períodos, as manchas solares se multiplicam e a chance de grandes erupções aumenta. A atual temporada coincide com a fase mais agitada do ciclo, quando explosões capazes de interferir no cotidiano tecnológico da Terra se tornam mais frequentes.
Auroras no céu e risco para comunicações
A NOAA classifica a tempestade geomagnética como de nível G1, o primeiro degrau de uma escala que vai até G5. Na prática, significa impacto considerado menor, mas suficiente para alterar medições em redes elétricas de alta tensão em regiões de alta latitude e provocar pequenas oscilações na estabilidade de alguns sistemas. Em contrapartida, cria o cenário ideal para a formação de auroras boreais e austrais em faixas mais amplas do hemisfério norte.
A Nasa alerta que as erupções associadas à AR4366 podem afetar comunicações de rádio de alta frequência, prejudicando principalmente rotas de aviação polar e operações que dependem de contato constante com aeronaves e navios. Sinais de navegação, como GPS, também podem sofrer degradação temporária de precisão, com impacto em setores que usam geolocalização em tempo real, de operações agrícolas a logística urbana.
As redes elétricas de grande porte, especialmente em países do norte, entram em modo de atenção. Correntes induzidas pela tempestade solar podem circular por cabos de transmissão e subestações, exigindo ajustes preventivos de carga. “Mesmo em tempestades classificadas como menores, as concessionárias precisam acompanhar de perto os índices, porque picos inesperados podem danificar equipamentos sensíveis”, explica Gonçalves.
Satélites em órbita baixa, usados para comunicação, observação da Terra e monitoramento climático, enfrentam aumento de arrasto atmosférico e exposição maior à radiação. A Nasa e outras agências ajustam órbitas e modos de operação para reduzir o risco de falhas em sistemas eletrônicos. Astronautas em missões fora da proteção direta da magnetosfera recebem protocolos adicionais de segurança, como limitação de atividades extraveiculares durante os picos de radiação.
Monitoramento reforçado e o que esperar dos próximos dias
O comportamento da AR4366 se torna um teste de estresse para sistemas de monitoramento espacial. A cada nova erupção, observatórios solares em solo e em órbita disparam alertas que chegam em minutos a agências, operadoras de satélites e concessionárias de energia. A diferença entre uma tempestade moderada e um evento grave depende não só da intensidade da explosão, mas também da direção e da orientação magnética da nuvem de partículas que deixa o Sol.
Thiago Gonçalves destaca que a série de seis erupções de classe X em quatro dias reforça a expectativa de um ciclo solar mais ativo do que o previsto inicialmente. “Quando vemos uma região com dez vezes o tamanho da Terra produzindo sucessivos eventos X, sabemos que o jogo ainda não acabou”, diz. “Há uma chance real de novas explosões nos próximos dias.”
Para o público em geral, o efeito mais visível são as auroras ampliadas e, em alguns casos, pequenas instabilidades em serviços eletrônicos. Oscilações momentâneas em sinais de GPS, falhas pontuais em comunicações de rádio e ajustes em voos de alta latitude podem se repetir enquanto a tempestade durar. O setor espacial, porém, trabalha com cenários de pior caso, preparando respostas rápidas para proteger satélites avaliados em bilhões de dólares.
A AR4366 deve permanecer visível da Terra por alguns dias antes de rotacionar para a face oposta do Sol. Enquanto isso, NOAA, Nasa e observatórios ao redor do mundo mantêm vigilância constante sobre a região ativa. O que hoje aparece para o público como espetáculo de luzes no céu, e pequenos soluços tecnológicos, funciona para cientistas como um lembrete de que a infraestrutura do século 21 continua ligada, minuto a minuto, ao humor de uma estrela a 150 milhões de quilômetros.
