Médicos suspeitos de desviar verba do SUS são afastados em MG
Quatro médicos anestesistas são afastados do atendimento pelo SUS após denúncia de desvio de recursos da saúde em Leopoldina e Além Paraíba. A terceira fase da Operação Onipresença é deflagrada nesta segunda-feira (9/3/2026) pelo Ministério Público de Minas Gerais, que aponta a existência de uma organização criminosa dentro da rede pública de urgência e emergência na Zona da Mata.
Esquema atinge hospitais de referência da Zona da Mata
O caso atinge diretamente a Casa de Caridade Leopoldinense e o Hospital São Salvador, em Além Paraíba, dois pilares do atendimento hospitalar para dezenas de municípios da região. Segundo o Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco), os quatro anestesistas manipulam escalas, acumulam plantões e realizam cirurgias simultâneas ou em sequência durante o horário destinado ao SUS, prática que pode comprometer a segurança dos pacientes e inflar ilegalmente a remuneração dos profissionais.
A denúncia apresentada pelo Ministério Público de Minas Gerais sustenta que o grupo atua de forma articulada para desviar dinheiro público destinado à saúde e para esconder falhas graves em procedimentos médicos. A motivação central, dizem os promotores, é o enriquecimento ilícito por meio da apropriação de recursos que deveriam financiar leitos, insumos e equipes da rede de urgência e emergência. O esquema, ainda segundo o Gaeco, funciona ao menos desde 2025 e se apoia em um núcleo de comando liderado por uma médica anestesista.
As investigações indicam que os acusados combinam versões entre si, falsificam e manipulam documentos, lançam procedimentos de forma irregular em prontuários e tentam atribuir condutas de risco a colegas e subordinados que não participam do esquema. Em um dos episódios relatados pelos investigadores, uma integrante chega a se autodenominar “Rainha dos Atestados”, numa referência à emissão sistemática de documentos falsos para justificar ausências em plantões.
Desvio de recursos e afronta à ética médica
O Ministério Público afirma que o grupo utiliza atestados falsos, escalas montadas sob medida e cirurgias eletivas encaixadas em meio a plantões do SUS para justificar pagamentos e benefícios indevidos. Esses mecanismos, aponta a investigação, drenam recursos que deveriam custear procedimentos de urgência, exames e medicamentos. O impacto se traduz em filas maiores, cirurgias adiadas e pressão extra sobre equipes que atuam dentro da legalidade.
Relatos colhidos pelo Gaeco revelam ainda um ambiente de desrespeito à dignidade dos pacientes. Em mensagem apreendida, um dos médicos teria sugerido ao próprio filho, aparentemente estudante de medicina, que “treinasse” o procedimento de intubação em “velhos sem dentes”, em tom de chacota. Outro profissional é apontado por expor imagens íntimas de uma paciente, violando o sigilo e a confiança essenciais na relação entre médico e doente.
As apurações também descrevem tentativas de intimidação de testemunhas, inclusive por uma das médicas investigadas, com o objetivo de impedir denúncias e manter o esquema em funcionamento. Para os promotores, a combinação de fraude, violência moral e ocultação de erros médicos revela não só corrupção administrativa, mas uma ruptura profunda com o código de ética da profissão. Em nota, o MPMG afirma que o caso “compromete a confiança da população na rede pública e fere de forma grave o dever de cuidado com o paciente”.
A Justiça recebe a denúncia criminal e determina o afastamento imediato dos quatro médicos de qualquer hospital conveniado ao SUS. A decisão inclui a decretação de constrição e indisponibilidade de bens ligados ao grupo, medida que busca garantir o eventual ressarcimento dos cofres públicos. Quatro mandados de bloqueio patrimonial são cumpridos nesta segunda-feira, segundo o Gaeco.
Investigações seguem e podem atingir novos nomes
A decisão judicial prevê o compartilhamento das provas com o Conselho Federal de Medicina, o Conselho Regional de Medicina de Minas Gerais, a Gerência Regional de Saúde e todas as vítimas diretas ou indiretas. A partir desse material, os conselhos podem abrir processos ético-disciplinares que, em casos extremos, levam à cassação do registro profissional. No campo criminal, os médicos respondem por organização criminosa, peculato, falsidade ideológica e outros delitos correlatos.
O Ministério Público mantém a apuração em curso e não descarta o envolvimento de outros profissionais de saúde ou servidores da administração municipal. Para ampliar o alcance da investigação, o órgão orienta que pacientes, familiares e funcionários dos hospitais apresentem informações, denúncias e relatos às Promotorias de Justiça da região ou pelos canais oficiais do MPMG. A Justiça, por sua vez, disponibiliza a íntegra da denúncia do processo nº 5007321-05.2025.8.13.0384, mediante requerimento por e-mail ao Tribunal de Justiça ou diretamente à Promotoria.
Prefeituras de Leopoldina e Além Paraíba são questionadas sobre eventuais falhas de fiscalização, mas não respondem até o fechamento desta reportagem. A ausência de posicionamento alimenta o debate sobre a fragilidade dos mecanismos de controle na contratação de serviços médicos e na gestão do dinheiro do SUS em cidades de médio porte. Especialistas ouvidos reservadamente apontam que contratos complexos, baixa transparência e dependência da rede conveniada criam terreno fértil para abusos.
O caso Onipresença tende a se tornar um teste para a capacidade do sistema de responsabilizar médicos que atuam na rede pública sem comprometer a oferta de serviços à população. As próximas decisões judiciais, os processos nos conselhos de classe e a reação dos gestores municipais vão indicar se o episódio será um ponto fora da curva ou o início de uma mudança mais profunda na forma como o país controla o uso do dinheiro da saúde.
