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Médico é preso em BH suspeito de abuso sexual durante exame

Um médico de 32 anos é preso em flagrante nesta quarta-feira (11) em uma clínica no bairro Santa Efigênia, região Centro-Sul de Belo Horizonte. Ele é suspeito de abusar sexualmente de uma paciente de 18 anos durante um exame endovaginal, após uma consulta que começa com a indicação de um ultrassom abdominal.

Atendimento termina em denúncia e prisão em flagrante

A jovem procura a clínica para um exame de rotina e, durante a avaliação, ouve do profissional que será necessário um exame endovaginal, procedimento interno usado para avaliar o aparelho reprodutor. O que seria um atendimento médico comum termina em denúncia de violência sexual, corrida para fora do consultório e chamada imediata à polícia.

Segundo o relato da paciente à Polícia Militar, o abuso começa depois do início do exame interno. Ela afirma que o médico enfia a mão em suas partes íntimas, expõe o próprio órgão genital e tenta penetrá-la. Assustada, a jovem se levanta, sai correndo da sala e procura ajuda de uma amiga que a acompanha até a clínica.

A amiga aciona a PM, que chega ao endereço ainda durante o expediente. O médico permanece na unidade e é detido no local por suspeita de estupro. Ele é levado para a delegacia de plantão especializada em atendimento à mulher, no Barro Preto, onde a prisão em flagrante é ratificada pela autoridade policial após ouvir vítima, suspeito e testemunhas.

O caso passa a tramitar no sistema de plantão da Polícia Civil de Minas Gerais, que pode representar pela prisão preventiva, medida que mantém o suspeito preso por tempo maior enquanto o inquérito avança. A audiência de custódia, prevista para as próximas horas, vai definir se o médico segue detido, se obtém liberdade provisória ou se responde em regime de medidas cautelares.

Disputa de versões e temor de novas vítimas

Enquanto a investigação começa, defesa e família da vítima expõem versões opostas do que ocorre na sala de exame. Em entrevista à rádio Itatiaia, o advogado do médico nega o abuso e tenta reforçar a rotina profissional do cliente. “Ele mesmo atendeu mais de 10 pacientes com o mesmo tipo de exame endovaginal, sem problema. Tem várias, ele já é um médico antigo nessa área. Ele aguardou, se ele tivesse alguma coisa de errado, ele não teria aguardado a polícia, ele teria ido embora”, afirma.

O defensor confirma que dois procedimentos são feitos na jovem, o ultrassom abdominal e o exame interno. Para ele, a prisão é precipitada e baseada apenas na palavra da paciente. “Ele vai ser taxado como molestador, estuprador, alguma coisa, vai para audiência de custódia e vamos ver se a gente consegue relaxar a prisão, alguma coisa, porque daqui o médico vai para prisão, simplesmente porque ela falou”, diz o advogado.

Do outro lado, a mãe da jovem descreve revolta e medo de que outros casos permaneçam ocultos. “Espero que ele fique preso. Se não, ele vai fazer mais vítimas, se já não tiver feito, e as pessoas ficaram com medo de relatar por ele ser médico, tem um dinheirinho a mais… mas eu não tive medo”, afirma. Ela destaca a sensação de quebra de confiança em um espaço que deveria ser de cuidado. “A gente confia nas pessoas, a pessoa vai e faz isso. Nunca imaginei isso num hospital. Hoje em dia não tá dando para confiar em ninguém, nem nos médicos”, completa.

O episódio volta a expor a vulnerabilidade de pacientes, sobretudo mulheres jovens, em exames de caráter íntimo, em que o desnível de informação e autoridade entre médico e paciente é grande. A prática recomendada por entidades médicas prevê a presença de acompanhante durante procedimentos genitais, explicação clara de cada etapa e consentimento informado, o que reduz o risco de abusos e também de conflitos de versão.

Até o fechamento desta reportagem, o Conselho Regional de Medicina de Minas Gerais (CRM-MG), a Polícia Civil e a clínica onde o caso ocorre não respondem aos questionamentos sobre eventual abertura de procedimento ético, afastamento preventivo do médico ou revisão de protocolos internos de atendimento. A ausência de posicionamento oficial mantém em aberto o grau de responsabilização administrativa da unidade privada envolvida.

Pressão por protocolos mais rígidos e proteção às vítimas

A prisão em flagrante em uma clínica particular de Belo Horizonte reforça um debate que se intensifica nos últimos anos em diferentes estados: como garantir segurança em atendimentos íntimos sem inviabilizar o dia a dia de consultórios e hospitais. Entidades de direitos humanos e coletivos feministas defendem a adoção de regras mais rígidas para exames ginecológicos, urológicos e de imagem interna, como o endovaginal, que envolve a introdução de sonda na vagina.

O caso em Santa Efigênia se soma a outras denúncias recentes no país contra profissionais de saúde, investigados por toques indevidos, manipulação não autorizada do corpo da paciente e exposição do órgão genital sem justificativa técnica. Quando há suspeita de estupro, o Código Penal prevê pena de 6 a 10 anos de reclusão, que pode aumentar em situações específicas, como quando o crime é cometido por alguém em posição de autoridade ou confiança.

Especialistas em saúde da mulher apontam que os relatos de abuso em contexto médico são subnotificados. Muitas vítimas sentem vergonha, temem não ser acreditadas ou dependem do atendimento contínuo daquele mesmo serviço. A fala da mãe da jovem de 18 anos ecoa esse cenário, ao sugerir que outras mulheres podem ter passado por situações semelhantes, mas optaram pelo silêncio diante da hierarquia médica e da condição econômica do profissional.

O impacto imediato recai sobre a rotina da própria clínica, que fica sob escrutínio de pacientes, autoridades e conselhos profissionais. Em casos assim, é comum ocorrer queda na procura por consultas, pedidos de reembolso, cancelamento de agendas e pressão por demissão ou afastamento de funcionários envolvidos. Planos de saúde e seguradoras também acompanham esse tipo de caso, que pode resultar em ações cíveis de indenização por danos morais e materiais.

Na esfera pública, denúncias desse tipo costumam impulsionar campanhas de orientação em serviços de saúde, com incentivo para que pacientes exijam acompanhantes, façam perguntas e registrem queixas sempre que se sentirem desconfortáveis. Organizações que atuam no enfrentamento à violência sexual reforçam canais como o 180, de atendimento à mulher, além dos registros em delegacias especializadas e nas ouvidorias de conselhos de medicina.

Investigação, audiência de custódia e possíveis desdobramentos

O próximo passo no caso é a audiência de custódia, em que um juiz analisa a legalidade e a necessidade de manter o médico preso. A defesa espera reverter o flagrante e tentar a liberdade com medidas alternativas, como monitoramento, proibição de contato com a vítima e afastamento temporário do exercício profissional. A Polícia Civil pode pedir a conversão do flagrante em prisão preventiva, alegando risco à ordem pública ou possibilidade de interferência na coleta de provas.

O inquérito ainda deve reunir laudos periciais, exames médicos, depoimentos de funcionários da clínica e de outras pacientes atendidas no mesmo dia, além de eventuais registros de câmeras de segurança. Dependendo dos elementos, promotores podem oferecer denúncia por estupro, arquivar o caso por falta de provas ou propor outro enquadramento penal, como importunação sexual.

No campo ético, o CRM-MG pode abrir procedimento próprio, que corre em paralelo à esfera criminal e pode resultar em advertência, suspensão temporária e até cassação do registro profissional, em casos considerados graves. A ausência de resposta do conselho até agora não significa inércia, mas reforça a pressão por transparência em episódios que envolvem a relação de confiança entre médicos e pacientes.

Enquanto isso, a família da jovem de 18 anos espera que a manutenção da prisão impeça novas vítimas e sirva de alerta para outras mulheres que hesitam em denunciar. A forma como a Justiça trata o caso, da audiência de custódia ao eventual julgamento, tende a se tornar um termômetro de até que ponto o sistema está disposto a proteger pacientes em situações de extrema vulnerabilidade.

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