Medalha Iracema abre tricentenário de Fortaleza e consagra GEQ e ícones da cidade
O Grupo Edson Queiroz e três personalidades que marcaram a história da Capital recebem, na noite de 10 de abril de 2026, a Medalha Iracema, maior honraria do Executivo de Fortaleza. A cerimônia no Cineteatro São Luiz abre oficialmente as celebrações dos 300 anos da cidade e reúne empreendedorismo, memória, fé e política em torno de um mesmo tributo.
Tricentenário põe legado de Fortaleza sob os holofotes
No centro do palco do Cineteatro São Luiz, um símbolo concentra a expectativa pelo tricentenário de Fortaleza: a medalha criada para reconhecer quem ajuda a moldar a cidade. A edição especial de 2026 é pensada para marcar o início das comemorações dos 300 anos e para reposicionar, perante a população, quem sustenta a Capital em áreas estratégicas, da economia à solidariedade.
O Grupo Edson Queiroz, com 75 anos de atuação, é apresentado como pilar desse percurso. A história do conglomerado acompanha a transformação de Fortaleza em polo de serviços, indústria e comunicação no Nordeste, com impacto direto na geração de milhares de empregos formais e na modernização da estrutura produtiva local. Ao receber a comenda, o grupo passa a figurar, de forma oficial, no panteão de instituições ligadas ao desenvolvimento econômico da cidade.
Na plateia e nos camarotes, autoridades municipais e estaduais, empresários, lideranças sociais e familiares dos homenageados assistem a uma cerimônia que mistura protocolo e memória afetiva. A Prefeitura usa o palco histórico do Centro, restaurado e reaberto como equipamento cultural de referência, para enviar um recado político em ano de eleições gerais: a construção da Fortaleza contemporânea é coletiva e atravessa governos, empresas e iniciativas comunitárias.
Responsável por representar o grupo, o empresário Igor Queiroz Barroso, membro do Conselho de Administração do GEQ, associa o prêmio à própria trajetória familiar. “A Medalha de Iracema celebra, nestes 300 anos da nossa cidade de Fortaleza, um momento muito marcante, que vem em conjunto com a data do Grupo Edson Queiroz”, afirma. Ele resgata a figura do fundador. “Esta é uma data em que eu celebro Edson, um empreendedor visionário, e a Yolanda, sua esposa, parceira, que deu continuidade a todo seu legado junto com o chanceler Airton Queiroz.”
O discurso também é pessoal. “São 75 anos em que eu vi Fortaleza, diante dos meus olhos, crescer muito. Eu, Igor, me orgulho muito do tanto que nossa Fortaleza cresceu e se desenvolveu”, diz o empresário, ao destacar que o reconhecimento chega no momento em que a Capital consolida posição de destaque nacional em setores como serviços, comércio e educação superior.
Entre a política, a fé e a memória, quatro rostos de uma mesma cidade
Além do GEQ, a Medalha Iracema deste ano homenageia o governador Elmano de Freitas, a religiosa Irmã Conceição e o pesquisador e memorialista Miguel Ângelo de Azevedo, o Nirez. A escolha dos nomes desenha um mosaico da Capital: o poder público que articula políticas e recursos, o cuidado com os mais vulneráveis e a preservação de uma memória que ainda disputa espaço com a pressa da urbanização.
Elmano de Freitas recebe a medalha na condição de chefe do Executivo estadual, mas faz questão de puxar o fio da própria biografia para explicar o peso do gesto. “É o orgulho de alguém que, com 15 anos, chega em Fortaleza, e só essa cidade para dar oportunidade a um jovem filho de uma família muito simples”, afirma. Ele lembra a chegada à Capital na adolescência e o percurso até o Palácio da Abolição. “Só uma cidade como Fortaleza, só um povo como o de Fortaleza que é capaz dessa magia de pegar um jovem de família humilde e fazê-lo governador.”
O reconhecimento ao governador vem ancorado em pelo menos duas frentes: a articulação entre os poderes em torno de obras e programas na Capital e a construção de políticas que dialogam com as demandas urbanas de mobilidade, segurança e inclusão social. Em ano de 2026, quando o eleitorado volta às urnas para escolher presidente, governador, senadores e deputados, a cena também tem leitura política: a imagem de um gestor agraciado no palco municipal reforça a mensagem de alinhamento institucional em torno da agenda de desenvolvimento da cidade.
No extremo oposto do jogo de forças partidárias, mas no mesmo eixo de impacto concreto, está a Irmã Maria da Conceição Dias de Albuquerque, fundadora do Lar Amigos de Jesus. O trabalho da religiosa, voltado a crianças com câncer e seus familiares, ultrapassa os limites de Fortaleza e alcança todos os municípios do Ceará, o que amplia o alcance simbólico da homenagem. “A Medalha Iracema tem uma conexão muito única com o Lar Amigos de Jesus. É o fortalecimento da nossa missão”, define.
Ela associa o prêmio diretamente ao tricentenário da cidade. “Neste ano, tem uma maior importância por causa dos 300 anos de Fortaleza, que é uma cidade solidária, beneficente, social e que traz dentro dela o Lar Amigos de Jesus, que atende também todos os municípios do Ceará com crianças com câncer”, afirma. Segundo a religiosa, o sentimento predominante entre colaboradores e voluntários é de “fortalecimento da missão”, em um momento em que a demanda por atendimento cresce e pressiona a rede de saúde.
Guardião de uma Fortaleza que muitos moradores mais jovens só conhecem por fotografias e gravações, o pesquisador e memorialista Miguel Ângelo de Azevedo encerra a lista de agraciados. Conhecido como Nirez, ele mantém um dos acervos sonoros, visuais e culturais mais importantes do Brasil, dedicado em grande parte à Capital cearense. São registros que atravessam décadas e ajudam a reconstituir o som, o rosto e os hábitos de uma cidade em permanente mutação.
Nirez enxerga na medalha um encaixe natural com a própria obra. “Eu tenho muito orgulho de receber essa medalha e também muita humildade. Acho-a perfeita para mim, porque o trabalho que eu venho fazendo em prol da Fortaleza antiga e atual, receber uma medalha com esse valor, é muito gratificante”, afirma. O pesquisador acrescenta que o reconhecimento também lhe impõe deveres. “Ao mesmo tempo, me dá a responsabilidade de continuar o trabalho”, diz, ao sinalizar que a preservação da memória exige investimento contínuo em catalogação, digitalização e acesso público ao acervo.
Honraria projeta futuro e cobra coerência com a cidade que completa 300 anos
A Medalha Iracema, criada como a maior comenda do Poder Executivo Municipal, ganha em 2026 um peso adicional. Ao abrir as celebrações do tricentenário, a premiação se torna uma espécie de espelho do que Fortaleza escolhe valorizar neste momento: o capital privado que gera riqueza, o gestor que costura políticas, a fé que ampara doentes e a pesquisa que resgata o passado. A seleção dos agraciados funciona, assim, como um recado para a próxima década.
Na prática, o gesto tende a reforçar a visibilidade de projetos e instituições ligados aos homenageados, com potencial para atrair novos investimentos, parcerias e doações. O GEQ, já consolidado como grupo empresarial com atuação em comunicação, educação e indústria, sai da noite com o carimbo público de protagonista do desenvolvimento econômico da cidade. O Lar Amigos de Jesus, que depende de recursos contínuos para manter estrutura de acolhimento e tratamento de crianças em situação de alta vulnerabilidade, ganha um selo de reconhecimento que pode se converter em aumento de repasses e mobilização da sociedade civil.
O governador, por sua vez, acumula capital político em cenário de disputa intensa pelas vagas em jogo nas Eleições Gerais de 2026. A homenagem, embora simbólica, dialoga com uma estratégia mais ampla de manutenção de base aliada e de fortalecimento de sua imagem junto ao eleitorado da Capital, onde conflitos recentes com lideranças locais e mudanças de partido de parlamentares expõem rearranjos em curso. A medalha não altera esse tabuleiro, mas adiciona um novo elemento à narrativa de cooperação institucional.
O acervo de Nirez, que por anos resiste em meio a desafios financeiros e estruturais, entra no debate público com novo fôlego. Em um momento em que Fortaleza discute ocupação do Centro, preservação do patrimônio construído e política cultural, a presença do pesquisador entre os agraciados pressiona, ainda que indiretamente, por políticas mais claras de salvaguarda da memória. A cidade que celebra 300 anos é também a que precisa decidir o que faz com os vestígios de suas primeiras décadas.
Ao fim da solenidade, a sensação predominante entre autoridades e público é de que a medalha deixa de ser apenas uma honraria individual para se tornar uma espécie de contrato moral com o futuro. O Executivo municipal se compromete, em discurso, a manter a premiação como referência de mérito público e a integrar o calendário oficial das comemorações de aniversário da Capital. Os homenageados, por sua vez, assumem a tarefa de seguir entregando resultados em suas áreas.
Às vésperas do aniversário de 300 anos, a pergunta que fica ecoando no Cineteatro São Luiz aponta para fora do palco: que novos nomes, projetos e instituições estarão prontos para merecer a Medalha Iracema quando Fortaleza completar 310 ou 320 anos? A resposta depende, a partir de agora, da forma como a cidade transforma o reconhecimento desta noite em políticas, investimentos e escolhas capazes de manter viva a promessa de um futuro compartilhado.
