Ultimas

MEC admite falhas em dados do Enamed e põe sob suspeita notas de medicina

O Ministério da Educação admite nesta segunda-feira (19) inconsistências nos dados do Exame Nacional de Desempenho dos Estudantes de Medicina (Enamed), usado para calcular as notas dos cursos do país. A correção ocorre após reação de faculdades que identificam diferenças entre as pontuações preliminares e os resultados finais divulgados pelo governo. A credibilidade da avaliação, que orienta credenciamento e reputação das escolas médicas, entra em xeque.

MEC recua após pressão das faculdades

A confissão de erro vem depois de quase uma semana de queixas formais e informais de instituições privadas e públicas. Coordenadores de cursos relatam variações de até 15% entre as notas enviadas em planilhas preliminares, em dezembro de 2025, e os índices oficiais publicados em janeiro. Em alguns casos, um curso que recebe conceito equivalente a 4,2 em uma escala de 0 a 5 aparece dias depois com 3,5, queda suficiente para acender alerta em conselhos universitários e mantenedoras.

Reitores afirmam que só percebem as discrepâncias quando começam a comparar relatórios internos com o painel público do Enamed, hospedado em um sistema do MEC. Diretores de duas faculdades particulares do Sudeste, que pedem anonimato para evitar retaliações, relatam que tentam contato com a pasta desde 10 de janeiro, sem resposta clara sobre a origem das mudanças. A confirmação de inconsistências, segundo esses gestores, vem em uma reunião virtual com representantes do ministério na manhã desta segunda-feira.

Nesse encontro, técnicos do MEC admitem que há “problemas de consolidação de dados” entre as bases usadas para corrigir as provas e o sistema que calcula as médias dos cursos. O governo não divulga, até o fim da tarde, o número exato de instituições afetadas, mas sinaliza que a revisão atinge resultados de 2025 e pode alcançar avaliações de anos anteriores. “Houve falhas na integração das bases e estamos realizando uma auditoria completa para garantir a fidedignidade das notas”, afirma, em nota, a Secretaria de Educação Superior.

O Enamed passa a ser aplicado de forma nacional em meados da década passada, na esteira da expansão acelerada de vagas em medicina. Em 2010, o país registra pouco mais de 150 cursos em atividade. Quinze anos depois, o número passa de 350 faculdades autorizadas, com mais de 40 mil novas vagas abertas no período. A prova surge como resposta a críticas de especialistas e conselhos profissionais diante da abertura de escolas sem estrutura adequada de ensino e internato.

Notas influenciam credenciamento e reputação

O peso das notas do Enamed no cotidiano das faculdades explica o alcance da crise. Os indicadores entram em processos de renovação de reconhecimento dos cursos, influenciam visitas in loco do MEC e servem como argumento de marketing em campanhas de vestibular. Um conceito acima de 4 costuma aparecer em outdoors e anúncios digitais. Um índice abaixo de 3, em contrapartida, vira risco concreto de supervisão e, em casos extremos, de fechamento.

Diretores calculam que uma queda de um ponto na média geral pode reduzir em até 20% a procura nos vestibulares seguintes, com impacto direto em receitas anuais de dezenas de milhões de reais nas grandes instituições. Nas universidades públicas, a preocupação recai sobre a imagem acadêmica e a disputa por recursos adicionais. Programas federais de investimento em hospitais universitários e projetos de residência médica consideram o desempenho dos cursos em avaliações externas, entre elas o Enamed.

As inconsistências também atingem estudantes que se formam neste ciclo. Recém-egressos relatam insegurança ao usar o nome da instituição em processos seletivos de residência e em concursos públicos. A dúvida é simples: como explicar a um avaliador por que o curso aparece com notas diferentes em documentos oficiais do próprio governo em intervalo de poucas semanas. “Eu entro na graduação com a promessa de que o curso é nota máxima e descubro, ao me formar, que a avaliação está sob suspeita”, diz uma médica formada em 2025 em uma faculdade privada de São Paulo.

Entidades representativas do setor cobram transparência. A Associação Brasileira de Mantenedoras de Ensino Superior (ABMES) defende, em comunicado, a divulgação detalhada dos critérios de cálculo e dos ajustes feitos pelo MEC. “Não se trata de contestar a avaliação em si, mas de garantir previsibilidade e segurança jurídica. Mudanças abruptas nas notas, sem explicação, fragilizam o planejamento das instituições e confundem o aluno”, afirma o texto.

Auditoria, revisões e incerteza para alunos

O ministério promete concluir uma auditoria técnica em até 30 dias e publicar, até 20 de fevereiro, uma versão revisada das notas do Enamed referentes ao ciclo de 2025. A pasta indica que faculdades poderão pedir reanálise individualizada dos resultados em um prazo adicional de 15 dias, a contar da nova divulgação. A reabertura do processo, porém, deve atrasar decisões de credenciamento e renovação de cursos previstas para o primeiro semestre, prolongando a incerteza no setor.

Especialistas em políticas públicas de educação avaliam que o episódio deve forçar uma revisão mais ampla da metodologia de avaliação da formação médica. Há pressão de conselhos profissionais, como o Conselho Federal de Medicina, por mecanismos que meçam com mais precisão a prática clínica e o desempenho em estágios. Hoje, o Enamed se concentra em provas objetivas e, em alguns ciclos, em testes de habilidades padronizados, formato que já sofre críticas por não captar diferenças estruturais entre escolas.

A Controladoria-Geral da União avalia a abertura de um procedimento de fiscalização específica sobre os sistemas usados pelo MEC para armazenar e processar os dados do exame. Integrantes do Tribunal de Contas da União acompanham o caso e não descartam uma auditoria paralela, diante do impacto orçamentário da política de expansão de vagas em medicina, que mobiliza bilhões de reais em investimentos públicos e privados ao longo da última década.

Faculdades, por sua vez, preparam dossiês com históricos de desempenho, listas de concluintes e registros das provas para sustentar eventuais recursos. A disputa deixa alunos e famílias em compasso de espera, às vésperas de novos vestibulares e da escolha de residências médicas para quem termina o curso. A correção do erro técnico, anunciada em poucas linhas pelo MEC, abre um debate mais amplo: quem controla, de fato, a qualidade da formação de médicos no Brasil e como garantir que essa medição seja, ao mesmo tempo, rigorosa e confiável.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *