MC Tuto é preso por atropelar jovem durante gravação de clipe em Barueri
O cantor MC Tuto, 25, é preso em flagrante na madrugada de 24 de janeiro de 2026 após atropelar Gabriel Luiz Berrelhas Alves, 20, no centro de Barueri. O atropelamento ocorre durante a gravação de um clipe musical, em uma área destinada apenas a pedestres.
Gravação improvisada termina em violência
A madrugada de sábado no centro de Barueri, na Região Metropolitana de São Paulo, vira cenário de um acidente grave que envolve celebridade, carro de luxo e espaço público usado de forma irregular. Emerson Teixeira Muniz, conhecido como MC Tuto, dirige um Porsche em alta velocidade durante a filmagem de um videoclipe, quando atinge Gabriel, de 20 anos.
O trecho onde o atropelamento acontece é reservado a pedestres. Segundo a polícia, não há autorização oficial para a interdição da via nem para a realização das filmagens. A produção ocupa o espaço como se fosse um set privado, sem bloqueio formal, equipe de trânsito ou sinalização que informe o risco a quem circula pelo local.
O impacto lança o jovem ao chão e interrompe a gravação. Gabriel é socorrido em estado grave e levado ao Hospital Municipal Francisco Moran, em Barueri, onde permanece internado. A família acompanha a evolução do quadro com pouca informação e muita revolta.
Imagens que circulam nas redes sociais mostram o Porsche danificado e a mãe de Gabriel em prantos, diante do carro. Ela grava um vídeo em que responsabiliza diretamente o cantor pelo atropelamento. “O carro do MC Tuto, que acabou com a vida do meu filho. Meu filho tem família. Você podia ser o papa, você acabou com meu filho. Eu vou acabar é com você”, diz, em tom de desespero.
Dolo eventual, trânsito e o uso indevido do espaço público
O caso não fica restrito a um acidente de trânsito comum. No boletim de ocorrência, a polícia enquadra MC Tuto por tentativa de homicídio com dolo eventual, quando o motorista assume o risco de matar ao adotar uma conduta considerada perigosa. Para os investigadores, dirigir um carro esportivo em alta velocidade em área de pedestres durante uma gravação é mais que imprudência.
A ausência de qualquer autorização oficial para transformar o centro de Barueri em cenário de clipe expõe uma brecha na rotina de produções audiovisuais nas cidades. Em geral, filmagens em vias públicas exigem pedido formal, avaliação de risco, apoio da guarda municipal ou da polícia e, em alguns casos, esquema de bloqueio de tráfego. Nada disso ocorre naquela madrugada de 24 de janeiro.
MC Tuto, que ganha projeção nacional com o hit “Barbie”, troca o palco pelo banco do motorista e passa a ser personagem de um inquérito criminal. A notoriedade do funkeiro amplia o alcance do caso e empurra o debate sobre segurança no trânsito para além das estatísticas diárias de atropelamentos em grandes centros urbanos.
Especialistas em mobilidade ouvidos ao longo do dia lembram que, em áreas destinadas a pedestres, a regra é clara: carros não devem circular, e, quando têm autorização, precisam trafegar em velocidade mínima. A condução de um Porsche, veículo esportivo de alta potência, em contexto de gravação sem controle do entorno, reforça o entendimento de que o risco é previsível.
A investigação apreende o automóvel e equipamentos eletrônicos usados na filmagem, como celulares e câmeras, para reconstruir a dinâmica do atropelamento. Os vídeos podem indicar a velocidade do carro, a distância de Gabriel em relação ao veículo e se alguém da equipe alerta para o perigo antes do impacto.
Prisão preventiva, comoção e possíveis mudanças nas regras
Após ser detido em flagrante, MC Tuto passa por audiência de custódia ainda no sábado. A Justiça decide converter a prisão inicial em prisão preventiva, sem prazo determinado. O argumento central é o risco que o cantor representa à ordem pública e a necessidade de garantir a continuidade das investigações sem interferência.
O enquadramento por tentativa de homicídio com dolo eventual coloca o caso em patamar mais grave do que um crime de trânsito culposo, em que não há intenção nem aceitação de risco. A defesa do artista ainda não apresenta publicamente sua versão detalhada, mas deve questionar o dolo eventual e tentar desclassificar a acusação para um crime de menor gravidade.
Enquanto o processo avança, a situação de Gabriel concentra a atenção da família e da comunidade local. O jovem segue internado em estado grave no Hospital Municipal Francisco Moran. A mãe, que viraliza com o vídeo de protesto, se transforma em símbolo da indignação de parentes de vítimas de acidentes causados por excesso de velocidade e desrespeito às regras de circulação.
O impacto do caso vai além de Barueri. Prefeituras da Região Metropolitana de São Paulo acompanham a repercussão e avaliam endurecer exigências para gravações em praças, calçadões e centros comerciais. A adoção de regras mais claras, com exigência de seguro, plano de segurança e presença obrigatória de agentes públicos, entra no radar de gestores municipais.
As imagens do Porsche amassado em pleno calçadão, somadas à voz da mãe em desespero, sintetizam uma discussão que o país adia há anos: até onde produções artísticas e o culto a carros de luxo podem avançar sobre a segurança coletiva. A resposta agora passa pela recuperação de Gabriel, pela responsabilização de MC Tuto e por eventuais mudanças legais que definam quem decide, e com quais limites, transformar o espaço público em cenário.
