MC Tuto é preso após atropelar jovem durante gravação de clipe em SP
O cantor Emerson Teixeira Muniz, o MC Tuto, 25, é preso na madrugada deste sábado (24) em Barueri (SP) após atropelar um jovem de 20 anos durante a gravação de um clipe. A vítima, Gabriel Luiz Berrelhas Alves, sofre múltiplas fraturas e lesões no crânio e segue internada em estado grave.
Gravação termina em atropelamento e prisão
A madrugada na Avenida Guilherme Perereca Guglielmo, em Barueri, começa como cenário de luxo para um videoclipe e termina em cena de socorro de emergência. O Porsche conduzido por MC Tuto atinge Gabriel por volta do fim das filmagens, segundo testemunhas ouvidas pela polícia. As imagens que circulam nas redes sociais, cedidas pela Polícia Militar de São Paulo, mostram o funkeiro olhando para o celular da modelo que está no banco do passageiro segundos antes do impacto.
Uma câmera acoplada ao capô registra o carro avançando em área onde o trânsito estaria restrito, em velocidade que os investigadores consideram incompatível com as condições da via e da madrugada. O jovem atropelado é socorrido primeiro por pessoas da equipe e, em seguida, por uma unidade de resgate, que o leva inconsciente ao Hospital Sameb. O boletim médico aponta fraturas nas pernas, nas costelas e lesões no crânio.
O Boletim de Ocorrência registra que guardas civis municipais são acionados pouco depois do acidente para atender a uma chamada de atropelamento. Quando chegam, encontram o cantor ainda no local, ao lado do veículo, com a via já isolada por curiosos e integrantes da produção. Testemunhas relatam que a gravação “já estava na parte final” quando ouvem um estrondo e veem o corpo do jovem no chão.
Integrantes da equipe afirmam aos policiais que o artista para imediatamente o carro e tenta ajudar a vítima. A conduta posterior, porém, não impede o enquadramento mais duro da Polícia Civil. O delegado de plantão descreve no registro que o motorista, ao dirigir em local proibido, durante a madrugada, distraído pelo celular e em velocidade além do razoável, “assume o risco de produzir o resultado morte”.
Dolo eventual, repercussão e risco à imagem
O enquadramento jurídico muda o patamar do caso e pressiona ainda mais a carreira de MC Tuto, indicado ao Grammy e em ascensão no funk paulista. A autoridade policial decide lavrar prisão em flagrante por homicídio qualificado na modalidade tentada, com duas qualificadoras: perigo comum e dificuldade de defesa da vítima. Em termos práticos, significa que o atropelamento deixa de ser tratado como simples imprudência e passa a ser visto, na esfera penal, como crime cometido com aceitação do risco.
O delegado sustenta que o uso da via como set de gravação, com deslocamento em alta velocidade, presença de equipe, câmera externa e distração ao volante, cria um cenário de risco para qualquer pessoa que circule pelo local. No boletim, ele registra que a vítima é surpreendida e não tem qualquer chance de reação. A descrição se encaixa na tese de que a conduta dificulta a defesa de Gabriel, o que agrava a pena em caso de condenação.
O impacto do episódio vai além do inquérito. O vídeo da colisão passa a ser compartilhado em massa em perfis de notícia, páginas de entretenimento e contas de fãs do cantor. Em poucas horas, o nome de MC Tuto aparece entre os mais comentados nas principais redes sociais. Internautas cobram punição, questionam a naturalização de cenas de direção de risco em clipes de luxo e apontam o contraste entre o carro de alto valor e a vulnerabilidade da vítima, um jovem de 20 anos, em via pública.
Especialistas em trânsito ouvidos por veículos de imprensa lembram que a combinação de velocidade, distração por celular e filmagens em ambiente urbano repete um padrão já visto em outros acidentes graves. A diferença, agora, recai sobre a visibilidade do protagonista, um artista em rota internacional após indicação ao Grammy, e sobre a existência de imagens claras da dinâmica do atropelamento, gravadas pelo próprio aparato de filmagem da produção.
Investigação, disputa judicial e debate sobre gravações em via pública
O Porsche e os equipamentos eletrônicos usados na gravação são apreendidos pela Polícia Civil, que representa pela prisão preventiva de MC Tuto. A justificativa é a “gravidade concreta” do caso e o entendimento de que a liberdade do artista pode atrapalhar a coleta de provas. O cantor deixa a delegacia já como indiciado e permanece à disposição da Justiça até a audiência de custódia, prevista para ocorrer em até 24 horas, prazo usual nesses casos.
Advogados consultados avaliam que a defesa deve tentar desclassificar a acusação de homicídio qualificado tentado para lesão corporal culposa, argumentando ausência de intenção e colaboração imediata no socorro. A sustentação da tese de dolo eventual, porém, ganha força com o conjunto de elementos: direção em local proibido, uso da rua como cenário, velocidade incompatível, distração por celular e registro em vídeo. O desenrolar dessa disputa jurídica pode definir se o cantor responderá em liberdade ou seguirá preso preventivamente.
A prefeitura de Barueri e o governo paulista são pressionados a explicar quais autorizações existem para filmagens em vias públicas com carros em movimento e se houve fiscalização no local naquela madrugada. Produtores do ramo relatam, sob reserva, que gravações em ruas urbanas muitas vezes ocorrem com acordos informais, sem interdição total das vias e com pouca presença de agentes de trânsito.
O caso reacende a discussão sobre responsabilidade de artistas e equipes na busca por imagens espetaculares. A fronteira entre ficção e risco real, quando um carro de alta performance circula em cenário urbano para fins de entretenimento, entra no centro do debate. A condição de saúde de Gabriel, ainda em estado grave, e a decisão da Justiça sobre a prisão preventiva de MC Tuto serão os próximos marcos dessa história. A partir deles, ficará mais claro se o episódio será tratado como tragédia isolada ou como ponto de virada na forma como o mercado audiovisual ocupa o espaço público.
