Matéria orgânica em Marte desafia explicações não biológicas, diz estudo
Um novo estudo divulgado nesta quarta-feira (4) sugere que parte da matéria orgânica detectada na cratera Gale, em Marte, não pode ser totalmente explicada por processos não biológicos conhecidos. A análise reacende a hipótese de que formas de vida microscópicas possam ter habitado o planeta vermelho no passado. Os autores evitam falar em descoberta de vida, mas afirmam que a alternativa biológica se torna “razoável” diante dos dados.
Moléculas antigas em rocha marciana
O trabalho, publicado na revista científica Astrobiology em fevereiro de 2026, examina moléculas orgânicas encontradas em uma rocha sedimentar antiga na cratera Gale, região explorada pelo robô Curiosity desde 2012. As estruturas analisadas podem ser fragmentos de ácidos graxos preservados por até 80 milhões de anos, segundo as estimativas da equipe. Na Terra, esse tipo de molécula está intimamente ligado a membranas celulares e é produzido sobretudo por organismos vivos.
Os cientistas partem de um problema claro: os instrumentos do Curiosity detectam cadeias de carbono relativamente longas, como decano, undecano e dodecano, na amostra de rocha chamada Cumberland. Esses compostos podem se formar por processos puramente geológicos ou pela queda constante de meteoritos ricos em carbono. A questão central do estudo é medir se essas fontes conhecidas explicam, sozinhas, a quantidade encontrada pelo robô da Nasa.
Quando a geologia não fecha a conta
A equipe combina três frentes de investigação. Em laboratório, simula o bombardeio de radiação que atinge a superfície marciana por milhões de anos. Em modelos matemáticos, calcula quanto material orgânico se acumula no solo com a chegada de meteoritos e com reações químicas sem participação de organismos. Em seguida, cruza essas projeções com as medições reais feitas pelo Curiosity no interior da cratera.
O objetivo é “voltar no tempo” cerca de 80 milhões de anos, período em que a rocha de Cumberland teria ficado exposta à radiação cósmica após ser desenterrada por processos geológicos. A partir dessa reconstrução, os pesquisadores estimam quanta matéria orgânica existia antes de ser degradada. Os números chamam atenção: mesmo considerando cenários generosos para fontes não biológicas, a quantidade inicial necessária para chegar ao que o Curiosity mede hoje supera de forma consistente o que processos geológicos conhecidos costumam produzir.
Em nota divulgada junto ao artigo, os autores afirmam que “as fontes abióticas avaliadas não dão conta de explicar completamente a abundância de compostos orgânicos detectada na cratera Gale”. O texto ressalta que o estudo não prova a existência de microrganismos marcianos, mas abre espaço para uma contribuição biológica. “Diante das incertezas, é razoável considerar que formas de vida passadas possam ter participado da formação dessas moléculas”, diz um trecho do artigo.
Astrobiologia ganha novo impulso
A hipótese de uma origem biológica parcial para as moléculas surge em um campo que avança com cautela desde a década de 1970, quando a missão Viking também levantou suspeitas de atividade orgânica em Marte. A diferença agora é o acesso a dados mais refinados, coletados in loco pelo Curiosity em um antigo leito de lago, a chamada Baía de Yellowknife, onde sedimentos se acumulam em camadas ao longo de milhões de anos. Esse tipo de ambiente favorece a preservação de sinais químicos associados à vida.
Pesquisadores ouvidos por agências internacionais afirmam que o novo trabalho não autoriza manchetes sobre “vida em Marte”, mas representa um passo importante. Ao mostrar que as contas não fecham apenas com geologia e meteoritos, o estudo pressiona a comunidade científica a testar explicações alternativas. “Quando todas as fontes abióticas conhecidas parecem insuficientes, a biologia volta à mesa como hipótese séria”, resume um astrobiólogo que acompanha o debate.
O impacto vai além de Marte. Modelos que estimam a produção e a degradação de matéria orgânica em ambientes hostis ajudam a interpretar sinais vindos de luas geladas e exoplanetas. A forma como ácidos graxos e outros compostos resistem à radiação intensa orienta o desenho de sensores, espectrômetros e técnicas de perfuração em missões futuras. A própria Nasa já discute como adaptar essas conclusões à análise de amostras que devem retornar de Marte na próxima década.
Futuras missões e perguntas em aberto
A descoberta deve influenciar o planejamento de novas sondas e robôs para o planeta vermelho. Missões focadas na coleta e no retorno de rochas sedimentares passam a ganhar ainda mais peso, já que somente análises em laboratórios terrestres permitem separar com clareza assinaturas biológicas de processos químicos complexos. Agências espaciais também estudam instrumentos capazes de distinguir com maior precisão cadeias orgânicas ligadas à vida das produzidas sem organismos.
O debate ocorre em paralelo ao cronograma de grandes projetos, como o programa Artemis, que pretende levar humanos de volta à Lua antes de um pouso tripulado em Marte. O avanço da astrobiologia tende a orientar quais regiões do planeta vermelho merecem prioridade na exploração humana e robótica, tanto por razões científicas quanto de proteção planetária, que busca evitar contaminações cruzadas.
Para o público, a mensagem principal é menos espetacular do que a ideia de “achamos vida”, mas talvez mais profunda. Os dados indicam que Marte pode ter abrigado condições químicas próximas às da Terra em seus primórdios, incluindo moléculas associadas a membranas celulares. A pergunta que permanece em aberto é se essas peças chegaram a se organizar em organismos vivos ou se ficaram presas, para sempre, no limite entre geologia e biologia.
