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Marcos Pereira reage à PEC do fim da jornada 6×1 e critica “lazer demais”

O presidente nacional do Republicanos, Marcos Pereira (SP), se opõe à PEC que acaba com a escala 6×1 e pressiona contra sua votação em 2026. Em entrevista publicada nesta quinta-feira (26), o deputado diz que a proposta encarece o custo do trabalho, reduz a competitividade e pode expor a população pobre a mais ócio, drogas e jogos de azar.

Disputa sobre jornada de trabalho em ano eleitoral

O embate se dá em pleno ano eleitoral, com a Câmara dos Deputados sob comando de Hugo Motta (Republicanos-PB). Pereira relata ter levado pessoalmente ao presidente da Casa suas reservas à Proposta de Emenda à Constituição que altera a jornada de trabalho, hoje frequentemente organizada na escala de seis dias de trabalho por um de descanso.

O deputado defende que o tema não avance antes das urnas. “Eu já demonstrei ao Hugo Motta a minha contrariedade ao tema. Não é o momento para se debater”, afirma. Para ele, uma votação agora pressiona deputados a aprovarem o texto por receio de desgaste com o eleitorado. “Em ano eleitoral é muito sensível, porque expõe a Casa. Às vezes até tem que votar favorável porque o eleitor pode não entender bem se você votar contra.”

Pereira diz que ouviu de Motta a intenção de manter o protagonismo do Legislativo diante da possibilidade de o governo Luiz Inácio Lula da Silva (PT) enviar um projeto de lei sobre o tema. “No momento que ele despachou para a CCJ, ele me disse: ‘Eu estou fazendo isso porque se eu não fizer, o governo vai fazer, então é melhor que a Casa tome o protagonismo’”, relata.

O presidente da Câmara tem comparado a PEC a mudanças históricas como a Consolidação das Leis do Trabalho, de 1943, e o fim da escravidão em 1888. Pereira reage com cautela. “Me surpreendeu um pouco. A CLT, com todos os méritos, tem muitos problemas. É só você comparar com os países com pleno emprego e economia mais pujante. A gente tem um abismo”, afirma.

Medo de perda de competitividade e “lazer demais”

O argumento central do líder do Republicanos é econômico. Ele cita notas técnicas de entidades do setor produtivo, que alertam para aumento de custos trabalhistas e perda de competitividade internacional. “Pelas notas técnicas do setor produtivo, vai encarecer mais ainda. Pode ficar ruim para todos, porque vai tirar mais ainda a competitividade do setor produtivo brasileiro”, diz.

Na avaliação de Pereira, o Brasil já opera em desvantagem frente a economias europeias e à China, com carga tributária elevada e custos trabalhistas mais altos. Alterar a jornada, na direção de mais descanso e menos horas trabalhadas, poderia, segundo ele, afastar investimentos e reduzir capacidade de geração de emprego formal em 2026 e nos anos seguintes.

O deputado também leva o debate para o campo social. Ao comentar a demanda crescente por mais tempo livre, ele vincula prosperidade à ampliação de jornadas. “Eu acho que quanto mais trabalho, mais prosperidade. Claro, a pessoa tem que ter lazer, mas lazer demais também, o ócio demais faz mal”, afirma. Na sequência, associa a redução da jornada ao risco de aumento de vulnerabilidades em áreas pobres. “O povo não tem dinheiro, infelizmente. Vai ficar mais exposto a drogas, a jogos de azar. Pode ser o contrário. Ao invés de lazer, pode ser o mal. Qual é o lazer de um pobre numa comunidade? Ou num sertão lá do Nordeste?”

A fala reforça uma visão liberal de economia, que ele próprio reivindica. Aos 53 anos, advogado e bispo licenciado da Igreja Universal do Reino de Deus, Pereira defende um Estado menor e diz apoiar privatizações amplas, com exceção de Banco do Brasil, BNDES, Caixa Econômica Federal e Petrobras. Ele já foi ministro da Indústria, Comércio Exterior e Serviços no governo Michel Temer (MDB), entre 2016 e 2018, período marcado por ajustes fiscais e reformas pró-mercado.

O posicionamento contra a PEC se soma a um racha discreto entre legendas da direita sobre o rumo da agenda econômica. Enquanto parte dos partidos busca sinalizar proteção ao trabalhador em meio à inflação de alimentos e ao desemprego ainda elevado, líderes como Pereira priorizam a redução de custos empresariais e a preservação da margem de lucro, vista por eles como motor da geração de vagas.

Cenário político, Banco Master e disputa na direita

A entrevista também percorre outros temas sensíveis no Congresso. Sobre o caso Banco Master, que envolve suspeitas de irregularidades com recursos públicos, o deputado insiste em investigação profunda. “Isso é um negócio que você vê como ele começa, mas não sabe como termina. Está a cargo da Polícia Federal, do Ministério Público e do Judiciário”, diz. “É dinheiro público. Tem que ser investigado e, se comprovadas fraudes e crimes, serão penalizados, não tenho dúvidas.”

Pereira lembra que o Fundo Garantidor de Crédito é formado por recursos privados de bancos e defende que o sistema financeiro siga sob forte supervisão do Banco Central, para evitar novos episódios de risco sistêmico e prejuízos a correntistas e investidores.

No tabuleiro da direita, ele avalia que o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) ocupa o espaço deixado pelo pai, após a prisão do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL). “Não tem vácuo. Acho que foi ocupado por ele. Se o Bolsonaro apoiar você, você já sai com 20%. E tem 15% de antipetismo, aí já vai a 35%. Ele já está no segundo turno”, afirma, citando números que circulam em pesquisas internas.

O dirigente critica decisões unilaterais do PL, maior partido de oposição, sem diálogo com outras legendas de direita e centro-direita. “Não é uma coisa que ajuda no debate, na aproximação. Isso distancia”, resume. Sobre eventual apoio da sigla em 2026, diz que o Republicanos só deve discutir alianças depois da janela partidária, prevista em lei para o primeiro semestre do ano eleitoral, quando deputados podem trocar de partido sem perder o mandato.

Questionado se considera que Jair Bolsonaro tentou um golpe de Estado, Pereira evita confronto direto. “Eu acho que golpe de Estado você só dá se você tiver o apoio das Forças Armadas. Se tentou, não teve o apoio. Mas eu não sei. Não participei, não conheço, não me debrucei nos autos do processo que o julgou, então prefiro não dar essa opinião”, afirma.

Tramitação da PEC e disputa por narrativa

A PEC que mira o fim da escala 6×1 ainda percorre as primeiras etapas na Câmara. O texto está na Comissão de Constituição e Justiça, que avalia se a proposta fere cláusulas pétreas da Constituição ou princípios como a separação de Poderes. Se avançar, seguirá para uma comissão especial e, depois, para dois turnos no plenário, onde precisa do apoio de pelo menos 308 dos 513 deputados em cada votação.

A resistência de líderes como Marcos Pereira indica que o governo Lula terá dificuldade para construir maioria sólida em torno de qualquer mudança estrutural na jornada de trabalho. Centrais sindicais defendem mais descanso e equilíbrio entre vida pessoal e profissional, com base em experiências de países que testam semanas de quatro dias e carga horária reduzida. O empresariado industrial e de serviços reage com preocupação semelhante à expressa por Pereira, temendo perda de competitividade em um cenário de juros ainda altos e crescimento modesto.

O debate expõe um conflito clássico da política trabalhista brasileira: como conciliar proteção ao trabalhador, produtividade e expansão da economia. A resposta pode definir não apenas o destino da PEC do fim da jornada 6×1, mas também o tom das campanhas de 2026, que já se desenham em torno de emprego, renda e papel do Estado na regulação do mercado de trabalho.

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