Marcos pede desculpas após risada em post sobre ataque racista a Hugo Souza
O ex-goleiro Marcos se desculpa nesta segunda-feira (23) após reagir com risada a uma postagem sobre ataques racistas sofridos por Hugo Souza em jogo em São Paulo. A manifestação ocorre nas redes sociais e tenta conter a reação negativa de torcedores e de familiares do goleiro do Corinthians.
Da reação com risada ao pedido público de desculpas
O episódio começa no domingo, após a vitória do Corinthians sobre a Portuguesa pelo Campeonato Paulista, em 23 de fevereiro de 2026. Nas redes sociais, perfis esportivos divulgam o vídeo em que Hugo Souza é alvo de ofensas racistas e de classe partindo da arquibancada do Canindé.
No Instagram, Marcos reage ao conteúdo com um emoji de risada, o “😂”. A resposta, pública e associada a um ídolo de uma das maiores torcidas do país, circula rapidamente. A interpretação majoritária entre torcedores é de deboche diante de um caso de injúria racial, em um contexto em que o futebol brasileiro tenta endurecer o combate ao preconceito.
A reação mais dura vem de dentro da própria família de Hugo. Rauany Barcelos, esposa do goleiro corintiano, decide responder diretamente ao ex-jogador, marcando o perfil oficial dele. A mensagem questiona o riso e expõe o abismo entre quem sofre discriminação cotidiana e quem enxerga o episódio como simples provocação de arquibancada.
“Queria que você me contasse quantas vezes você ouviu torcedores te chamando de piolhento, favelado, sem dente, sujo, pedindo para você cortar o cabelo etc. Ou melhor: quantas vezes seus filhos sofreram preconceito na escola por aparência, cabelo, cor de pele ou classe social? Pois eu queria genuinamente entender o motivo da risada!”, escreve Rauany, em tom de cobrança direta.
Diante da repercussão, Marcos publica um posicionamento oficial nesta segunda-feira, também em suas redes. O ex-goleiro tenta explicar o contexto da reação e reconhece o erro. “Vi o post por cima e achei que tinha sido zoeira da torcida adversária e que vocês levariam na boa, mas se vocês se sentiram ofendidos, peço desculpas a você e ao Hugo Souza pelo meu comentário, não vai se repetir”, afirma.
O pedido de desculpas não encerra o debate. A fala de Marcos entra em uma disputa maior sobre responsabilidade de figuras públicas, especialmente ex-atletas idolatrados, na normalização de ofensas com recorte racial. Para parte da torcida, a retratação é um passo, mas não elimina a crítica à postura inicial.
Racismo nas arquibancadas e pressão sobre clubes
Enquanto a discussão se espalha nas redes, a Portuguesa tenta responder aos fatos ocorridos dentro do estádio. As imagens divulgadas pela Jovem Pan Esportes mostram dois homens xingando Hugo Souza, com termos que vão muito além da provocação esportiva. “Aí, seu sem dente, passa fome do c###, vai cortar esse cabelo, piolhento. Seu piolhento, filho da ###. Seu lixo”, grita um deles, colado ao alambrado.
Em nota enviada ao jornal Lance!, o clube paulista assume postura de repúdio e promete medidas concretas. “Repudiamos o racismo e toda forma de preconceito, e nos solidarizamos com o Hugo Souza. Teremos uma reunião de diretoria daqui a pouco para alinharmos alguns pontos, como identificação de quem fez as ofensas e uma possível punição caso seja sócio”, informa a assessoria.
A direção da Portuguesa deve se reunir ainda nesta segunda-feira para avançar na identificação dos torcedores flagrados nas imagens. A intenção é cruzar imagens de câmeras internas, relatos de seguranças e dados do cadastro de associados. A possibilidade de banir os responsáveis do estádio e, se forem sócios, aplicar sanções administrativas entra no radar imediato.
O movimento não acontece isolado. Nos últimos anos, clubes brasileiros sofrem pressão crescente de patrocinadores, Ministério Público e federações para responder com mais rapidez a casos de racismo. Punições desportivas, como perda de mando de campo e multas, somam episódios desde a década passada, mas ainda não inibem completamente novos casos.
O caso deste domingo expõe também uma reação interna da torcida da Portuguesa. No momento das ofensas, outros torcedores se aproximam do alambrado e passam a pressionar os agressores a deixar o local. Policiais que estavam próximos reforçam a retirada. A cena, registrada pelas câmeras, mostra um embate dentro da própria arquibancada sobre o limite entre rivalidade e violência verbal.
Até o início da noite desta segunda-feira, Corinthians e Hugo Souza ainda não se manifestam oficialmente sobre o episódio. O silêncio, em contraste com a fala rápida de Marcos e com a nota da Portuguesa, alimenta expectativas sobre a postura que o clube adotará nas próximas horas, tanto internamente quanto em eventuais representações na Justiça Desportiva e na esfera criminal.
Responsabilidade pública e próximos passos no combate ao preconceito
A fala de Marcos, ídolo histórico do Palmeiras e campeão do mundo com a seleção brasileira, ultrapassa a rivalidade entre torcidas. O ex-goleiro, hoje comentarista eventual e presença frequente em redes sociais, fala diretamente a milhões de seguidores. Cada gesto público se torna referência, sobretudo em um ambiente altamente emocional como o futebol.
O episódio recoloca na pauta a fronteira entre a “zoeira” que alimenta o folclore do esporte e o discurso que reforça estruturas racistas e discriminatórias. Quando um ídolo reage com risada a um caso de injúria racial, mesmo que diga ter interpretado o conteúdo de forma equivocada, o sinal enviado ao público é poderoso. A retratação reconhece esse peso, mas não apaga o registro inicial, já reproduzido em perfis e capturas de tela.
Entidades de defesa dos direitos humanos e do movimento negro há anos alertam para essa dinâmica. As arquibancadas funcionam como espelho de desigualdades históricas, e a permissividade com insultos raciais reforça a ideia de que esse tipo de agressão ainda é tolerado em nome da paixão pelo clube. A lei brasileira já trata a injúria racial como crime equiparado ao racismo, com pena que pode chegar a cinco anos de prisão.
Clubes e federações, pressionados por patrocinadores e por um público mais atento, começam a assumir compromissos públicos com campanhas educativas e canais de denúncia. O desafio é transformar posts de repúdio e notas oficiais em medidas duradouras, como programas de educação antirracista para torcedores, funcionários e atletas, além de punições esportivas consistentes.
No curto prazo, os desdobramentos se concentram em três frentes. A Portuguesa tenta identificar e punir os agressores. O Corinthians avalia como blindar seu goleiro e responder institucionalmente aos ataques. Marcos, por sua vez, lida com o impacto de uma publicação de segundos que atinge sua imagem construída em mais de duas décadas de carreira.
O caso do fim de semana se soma a outros episódios recentes e ajuda a medir o quanto o futebol brasileiro está disposto a encarar o tema para além das campanhas pontuais. A próxima resposta, seja nas arquibancadas, nas redes sociais ou nos tribunais, indicará se o pedido de desculpas de um ídolo é ponto de virada ou apenas mais um capítulo em uma longa e incômoda repetição.
