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Maioria apoia prisão domiciliar de Bolsonaro, aponta Datafolha

A maioria dos brasileiros defende que Jair Bolsonaro cumpra em casa a pena de 27 anos e três meses de prisão. Pesquisa Datafolha feita entre 7 e 9 de abril de 2026 mostra que 59% dos entrevistados apoiam o regime domiciliar concedido pelo Supremo Tribunal Federal.

País dividido às vésperas da eleição

O levantamento, divulgado neste domingo 12, expõe um país ainda atravessado pela figura do ex-presidente. Enquanto 59% consideram adequada a prisão domiciliar, 37% defendem que Bolsonaro volte ao presídio. Outros 5% não sabem ou preferem não opinar, segundo o instituto.

O Datafolha ouve 2.004 pessoas com 16 anos ou mais em 137 municípios de todas as regiões, entre terça 7 e quinta 9. A margem de erro é de dois pontos percentuais, para mais ou para menos, o que mantém a vantagem do grupo favorável ao cumprimento da pena em casa.

A pesquisa acontece duas semanas após a chegada de Bolsonaro ao regime domiciliar, determinada pelo ministro Alexandre de Moraes, do STF, em 24 de março. Condenado por liderar a tentativa de golpe de Estado que culmina nos ataques às instituições em Brasília, o ex-presidente deixa a cela, mas segue legalmente preso.

Moraes fixa o prazo inicial de 90 dias para a medida e avisa que a situação será reavaliada. “Após esse prazo, haverá nova análise sobre a presença dos requisitos necessários para a manutenção da prisão domiciliar humanitária, inclusive com perícia médica se houver necessidade”, escreve o ministro na decisão.

Decisão do STF vira teste para democracia

A adesão de parte expressiva da opinião pública ao regime domiciliar funciona como termômetro da confiança nas instituições. O STF passa meses sob pressão de aliados de Bolsonaro, que acusam a Corte de perseguição política, e de grupos pró-democracia, que cobram punição exemplar.

A concessão da prisão domiciliar procura equilibrar esses vetores. Garante o cumprimento da pena de 27 anos e três meses, considerada dura mesmo por juristas críticos ao ex-presidente, e ao mesmo tempo leva em conta a idade de Bolsonaro e seu estado de saúde. A medida reduz o risco de novas tensões em presídios federais e tenta impedir que o ex-presidente use uma eventual cela comum como palanque permanente.

Do lado oposto, a pesquisa mostra que mais de um terço do país rejeita essa acomodação. Os 37% que querem Bolsonaro de volta ao presídio veem na mudança de regime uma concessão indevida a quem ataca a democracia. Para esse grupo, a prisão em casa passa a impressão de abrandamento da punição e de privilégio a um líder que mobiliza seguidores contra o sistema de Justiça.

A ferida aberta em 8 de janeiro, quando bolsonaristas depredam o Congresso, o STF e o Palácio do Planalto, ainda organiza o debate público. A condenação de Bolsonaro por liderar a tentativa de golpe encerra a fase mais aguda da investigação, mas não encerra a disputa política em torno de sua responsabilidade. A pesquisa revela que a narrativa sobre esse período segue em disputa, em bolhas digitais, igrejas, sindicatos e rodas de conversa.

Impacto eleitoral e pressão por segurança jurídica

O retrato do Datafolha chega em um momento de reorganização das forças políticas para 2026. Mesmo inelegível, Bolsonaro segue como principal referência da direita. Governadores, parlamentares e pré-candidatos do campo conservador testam discursos que os aproximem da base bolsonarista, sem afastar o eleitorado que reprova o ataque à democracia.

A divisão sobre a prisão domiciliar entra nessa equação. Políticos aliados apostam na imagem de vítima de perseguição para manter a militância mobilizada. Adversários insistem no caráter exemplar da condenação e associam o bolsonarismo ao golpismo. O dado de que 59% aceitam o cumprimento da pena em casa indica algum espaço para discursos que reconhecem o crime, mas defendem uma saída menos traumática para o País.

O resultado também toca na confiança do cidadão comum na Justiça. A decisão de Moraes é vista por juristas como um teste de segurança jurídica: a Corte precisa mostrar coerência entre o discurso de defesa intransigente da democracia e a adoção de medidas humanitárias. A reavaliação anunciada para depois dos 90 dias será observada com lupa por entidades de direitos humanos, associações de magistrados e pelo meio político.

No cotidiano, a prisão domiciliar de Bolsonaro alimenta debates sobre o próprio sistema prisional. Organizações da área lembram que benefícios semelhantes são raros para presos pobres e anônimos, com doenças graves ou em idade avançada. A comparação reforça a percepção de desigualdade de tratamento e pode pressionar o debate por reformas que ampliem critérios humanitários para além dos réus famosos.

Revisão do regime e disputa prolongada

O próximo marco é o fim do prazo de 90 dias fixado pelo STF, no fim de junho. Nesse momento, Moraes deve analisar laudos médicos, relatórios da defesa e manifestações da Procuradoria-Geral da República antes de decidir se mantém, endurece ou flexibiliza o regime. Cada cenário tem impacto político imediato.

A manutenção do regime domiciliar tende a consolidar a leitura de que o Supremo busca desarmar o conflito, sem abrir mão da condenação. Uma eventual volta ao presídio pode inflamar novamente a base bolsonarista e provocar atos de rua, sobretudo em capitais onde o ex-presidente conserva apoio expressivo. Qualquer relaxamento adicional, por outro lado, tende a ampliar a pressão de quem cobra punição mais severa.

Às vésperas da campanha municipal e a dois anos da eleição presidencial, a democracia brasileira volta a girar em torno do futuro de um ex-presidente condenado por tentativa de golpe. A pesquisa Datafolha sugere que a sociedade aceita, por ora, uma solução intermediária, que nem o livra da pena nem o devolve à cela. Resta saber se esse equilíbrio resiste ao calendário eleitoral, ao embate nas redes e às próximas decisões do Supremo.

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