Mãe de Miguel e Benício rompe silêncio um mês após crime em Itumbiara
Um mês após ver os filhos Miguel, de 12 anos, e Benício, de 8, mortos pelo próprio pai em Itumbiara (GO), Sarah Araújo ainda luta para acreditar no que aconteceu. Em entrevista à TV Anhanguera, ela descreve um luto paralisante e a dificuldade de encarar fotos e vídeos dos meninos. O crime, cometido na noite de 11 de fevereiro de 2026, segue abalando a cidade e reacende o debate sobre violência doméstica e saúde mental.
Desabafo em meio ao luto e à comoção na cidade
Sentada ao lado de familiares, Sarah fala pausadamente e quase sempre no presente, como se a tragédia ainda estivesse em curso. Diz que ainda não consegue organizar os próprios sentimentos desde aquela noite em que o subsecretário municipal Thales Machado, pai das crianças, atira contra os filhos enquanto eles dormem e, em seguida, tira a própria vida dentro de casa, em um bairro de classe média de Itumbiara, no sul de Goiás.
Ela conta que o impacto mais cruel do crime se revela nas pequenas rotinas interrompidas. “Até hoje eu não consigo acreditar. É muito difícil de olhar as fotos deles, os vídeos, e eles não estarem aqui. Eu não me conformo, ainda mais na forma que foi”, afirma. A casa onde Miguel e Benício vivem até fevereiro permanece silenciosa, marcada por brinquedos guardados às pressas e quartos que viram espécie de altar.
Miguel é socorrido ainda na noite de 11 de fevereiro, mas morre na madrugada seguinte, no hospital. Benício resiste por mais tempo: passa dois dias internado em estado gravíssimo na Unidade de Terapia Intensiva do Hospital Estadual de Itumbiara, mas não resiste e morre em 13 de fevereiro. Em poucas horas, uma família conhecida na cidade perde duas crianças e vê exposto, em público, um conflito que até então parecia restrito às paredes de casa.
A notícia se espalha primeiro pelas redes sociais. Investigações apontam que parentes e amigos descobrem o que acontece a partir de uma mensagem de despedida publicada por Thales pouco antes do crime. O texto, apagado depois, circula em capturas de tela e alimenta a sensação de incredulidade. Horas antes, ele já havia postado um vídeo com os filhos, acompanhado da frase: “Que Deus abençoe sempre meus filhos, papai ama muito”.
O avô das crianças, o prefeito de Itumbiara, Dione Araújo, chega à casa por volta da meia-noite. Com a senha da residência, entra e encontra a cena do crime. A polícia estima que os disparos ocorram entre 23h39 e 0h. Ao lado dos corpos dos meninos, está Thales, morto após atirar contra a própria cabeça.
Cidade em choque e rede de apoio em torno de Sarah
A morte de Miguel e Benício rompe o cotidiano de uma cidade de pouco mais de 100 mil habitantes, acostumada a ver a política local e os conflitos familiares em campos separados. O fato de o autor do crime ser subsecretário municipal e genro do prefeito leva o caso às manchetes nacionais e acentua a perplexidade entre moradores de Itumbiara e da região sul de Goiás.
Nas semanas seguintes, a dor íntima de Sarah se mistura a gestos públicos de apoio. Durante a missa de sétimo dia, em 18 de fevereiro, colegas de escola dos meninos lotam a igreja vestindo camisetas com fotos de Miguel e Benício. No fim da celebração, um grupo de mães caminha pelas ruas do centro em silêncio, segurando cartazes e flores brancas, em um protesto contra a violência dentro de casa e em solidariedade à família.
Na entrevista, Sarah faz questão de mencionar um gesto que a surpreende. Um grupo de mais de 300 mulheres, de diferentes regiões do país, decide se organizar para enviar a ela um buquê de rosas brancas. As flores chegam à casa do prefeito, onde ela está hospedada com os familiares. “Quero agradecer a todas elas. Eu sinto muito o carinho de todas por mim, a solidariedade, sinto as orações, sinto que está me sustentando o apoio de todas elas”, diz.
Psicólogos que acompanham a família relatam que esse tipo de rede de apoio, ainda que espontânea, se torna crucial em casos de luto traumático, especialmente quando a violência parte de alguém tão próximo quanto um pai. O episódio amplia, na cidade, a demanda por atendimento psicológico gratuito não só para parentes dos meninos, mas para colegas de escola, professores e vizinhos que convivem com Miguel e Benício.
Órgãos públicos e organizações da sociedade civil passam a discutir formas de identificar sinais de risco em famílias em conflito. O caso é citado em reuniões da rede de proteção à infância em Goiás como exemplo extremo de como a combinação de sofrimento mental não tratado, acesso a arma de fogo e vínculos familiares rompidos pode levar a tragédias irreversíveis.
Debate sobre prevenção, saúde mental e o que vem depois
Um mês após o crime, a investigação policial se aproxima do fim sem deixar dúvidas sobre a autoria. Thales, segundo a apuração, age sozinho, em um intervalo de pouco mais de 20 minutos, entre o momento em que publica a mensagem de despedida e o horário estimado dos disparos. A polícia trabalha agora para reconstituir, com base em depoimentos e registros digitais, o quadro emocional e familiar que antecede a decisão de matar os filhos.
Especialistas em violência doméstica ouvidos por entidades locais apontam que o caso se encaixa na definição de “crime familiar extremo”, quando o agressor volta sua fúria contra filhos ou parceiros e, muitas vezes, tira a própria vida na sequência. Pesquisadores lembram episódios recentes no país em que separações conflituosas, disputas por guarda e histórico de ameaças antecedem assassinatos dentro de casa.
A tragédia em Itumbiara reabre discussões sobre a eficácia das políticas públicas de prevenção. Organizações que atuam na defesa de mulheres e crianças defendem a ampliação de canais de denúncia, atendimento psicológico continuado e monitoramento mais atento de casos em que há ameaças diretas ou indiretas nas redes sociais. O uso das plataformas digitais por Thales, com mensagens de despedida e declarações de amor horas antes do crime, serve de alerta para a necessidade de protocolos mais rápidos de resposta quando esses sinais aparecem.
Na cidade, escolas que recebem alunos que convivem com Miguel e Benício reforçam o acompanhamento psicológico e orientam professores a identificar alterações bruscas de comportamento entre estudantes que perdem colegas em circunstâncias violentas. A Secretaria de Educação municipal estuda incluir atividades sobre prevenção à violência familiar e cuidado com a saúde mental no calendário letivo deste ano.
Sarah, por enquanto, concentra suas forças em atravessar o dia. Evita falar sobre o futuro, mas sabe que a memória dos filhos vai seguir no centro das discussões que o caso provoca. A cada homenagem, missa ou gesto de solidariedade, a cidade tenta dar algum sentido ao que não tem explicação. A pergunta que permanece, para ela e para Itumbiara, é se as instituições e a sociedade serão capazes de transformar essa dor em ações concretas que impeçam que outros pais e mães revivam a mesma cena.
