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Macron confronta Trump por ofensiva dos EUA na Groenlândia

Em mensagem privada divulgada por Donald Trump, Emmanuel Macron critica a ofensiva dos Estados Unidos na Groenlândia e pede reunião urgente do G7. A troca ocorre nesta terça-feira (20) e expõe o desconforto francês com o avanço americano no Ártico.

Crise diplomática ganha as redes

O episódio começa quando Trump publica em suas redes uma captura de tela da conversa com Macron, datada de 20 de janeiro de 2026. No texto, o presidente francês afirma que a “investida americana na Groenlândia ameaça a estabilidade do Ártico” e sugere uma reunião extraordinária do G7 ainda no primeiro trimestre deste ano.

Ao tornar a mensagem pública, o líder americano transforma um alerta reservado em ato político. A exposição ocorre em meio à crescente pressão internacional sobre a presença dos Estados Unidos no território, com movimentos diplomáticos intensificados desde o fim de 2025, quando Washington anuncia novos acordos de exploração de recursos naturais na região.

Disputa por poder no Ártico

A Groenlândia, território autônomo ligado ao Reino da Dinamarca, volta ao centro do tabuleiro geopolítico. Com cerca de 2,1 milhões de quilômetros quadrados cobertos de gelo e vastas reservas de minerais estratégicos, a ilha se torna peça-chave na disputa por influência no Ártico. O degelo acelerado abre rotas marítimas e facilita o acesso a petróleo, gás e terras raras, recursos cobiçados por grandes potências.

Nos bastidores diplomáticos, países europeus acompanham com preocupação a ampliação da presença militar e econômica dos EUA na região. Macron escreve a Trump que a iniciativa americana “não pode ignorar a soberania local nem os compromissos climáticos assumidos por todos nós”. O presidente francês argumenta que o tema precisa ser discutido “entre parceiros, não por meio de fatos consumados”.

A resposta de Trump não aparece na imagem divulgada, mas o gesto de exposição já funciona como recado. Ao publicar o conteúdo sem aviso prévio, ele reafirma sua estratégia de comunicar decisões e confrontos diretamente a mais de 90 milhões de seguidores, contornando canais diplomáticos tradicionais. A atitude irrita assessores europeus, que veem na iniciativa um sinal de desdém por negociações discretas.

Pressão sobre o G7 e aliados

Ao propor uma reunião emergencial do G7, Macron busca trazer Alemanha, Reino Unido, Itália, Canadá e Japão para a mesa, além da União Europeia. A meta é debater limites para a expansão militar e econômica no Ártico e definir parâmetros mínimos de respeito à soberania territorial. O Palácio do Eliseu defende que qualquer projeto de exploração na Groenlândia precisa levar em conta as autoridades locais e os impactos ambientais.

A ofensiva americana promete investimentos bilionários em infraestrutura, energia e mineração, com prazos estimados de 10 a 20 anos de exploração contínua. Empresas dos setores de defesa, petróleo e tecnologia acompanham o movimento de perto, de olho em contratos que podem superar dezenas de bilhões de dólares. Ambientalistas alertam que o avanço acelerado pode acelerar ainda mais o derretimento das geleiras e afetar diretamente populações indígenas e rotas de pesca.

A troca de mensagens também atinge a relação pessoal entre Macron e Trump, que já oscila desde o primeiro mandato do republicano na Casa Branca. A França tenta se firmar como voz independente entre Europa e Estados Unidos, enquanto Washington insiste em ampliar sua influência em regiões estratégicas. O atrito atual adiciona mais uma camada de tensão a negociações em fóruns como OTAN, ONU e o próprio G7.

O que está em jogo

A Groenlândia simboliza a nova corrida pelo Ártico, em que Rússia, China, Estados Unidos e países europeus testam seus limites de influência. O controle de rotas marítimas que podem encurtar em até 40% o tempo de viagem entre Europa e Ásia, somado ao acesso a minerais cruciais para tecnologias de ponta, torna a região um dos principais focos de disputa deste século.

Para Macron, a escalada americana sem coordenação internacional abre espaço para conflitos diplomáticos e militares. O alerta do francês ecoa temores de que a região se transforme em palco de incidentes entre navios, aeronaves e bases militares, em um cenário de crescente rivalidade entre potências. A defesa de uma reunião do G7 sinaliza a tentativa de construir freios multilaterais antes que disputas locais se tornem crises abertas.

Próximos passos e incertezas

Diplomatas em Paris e Washington avaliam que as próximas 48 horas serão decisivas para medir o tamanho da crise. Uma resposta pública de Macron, prevista para ainda esta semana, deve definir se o conflito permanece no campo retórico ou evolui para medidas concretas, como vetos em acordos, pressões em organismos internacionais ou revisão de cooperações militares.

Líderes europeus pressionam por uma agenda clara para o G7, com prazo de convocação ainda no primeiro semestre de 2026. Enquanto Trump transforma uma troca privada em espetáculo público, cresce a dúvida sobre até que ponto as regras não escritas da diplomacia ainda resistem. A reação conjunta ou fragmentada do grupo pode indicar se o Ártico será regulado por acordos multilaterais ou por iniciativas unilaterais de quem tem mais poder de projeção militar e econômica.

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