Lula testa troca de vice e mira centrão neutro para isolar Flávio
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) acelera, em fevereiro de 2026, uma dupla ofensiva para a reeleição: corteja o MDB para a vaga de vice e tenta empurrar o centrão para a neutralidade, com o objetivo de isolar o senador Flávio Bolsonaro (PL) na disputa pelo Planalto.
Lula amplia cercos e testa troca de vice
Em Brasília, o movimento se desenha em conversas reservadas desde o início do mês e ganha contornos públicos no aniversário de 46 anos do PT, comemorado neste sábado (7), em Salvador. Lula avisa à cúpula petista que a ordem é ampliar ao máximo o arco de alianças para 2026, mesmo que isso signifique mexer em peças sensíveis do tabuleiro.
“Temos que trabalhar, fazer alianças para ganhar as eleições. A gente precisa decidir se quer ganhar ou se quer perder. Como eu quero ganhar, você vai ter que fazer as alianças”, diz o presidente, olhando para Edinho Silva, dirigente do PT paulista, diante da militância na capital baiana. O recado ecoa em diretórios estaduais e chega ao MDB, alvo central da nova engenharia política.
Lula se mostra receptivo à ideia de abrir mão do atual vice, Geraldo Alckmin (PSB), para atrair o MDB para a chapa. A aliança formal com o partido garantiria mais tempo de propaganda no rádio e na TV e reforçaria a mensagem de “frente ampla” que marcou a campanha de 2022. Hoje, articuladores do Planalto calculam que algo em torno de 10% do eleitorado ainda está em disputa, e qualquer minuto extra na TV pode ser decisivo.
O movimento, porém, é delicado. Alckmin é próximo do presidente, ajuda a desarmar resistências no empresariado e já deixa claro ao PT que deseja seguir como vice em caso de reeleição. Ele avisa à cúpula petista que, se não estiver na chapa, não disputará outro cargo em 2026, mas seguirá apoiando Lula.
A operação com o MDB começa ainda em dezembro, quando Lula se reúne com os senadores Renan Calheiros (AL) e Eduardo Braga (AM), dois dos principais lulistas na sigla. Na conversa, Renan é direto: a única forma concreta de tentar levar o MDB para a coligação nacional é oferecer a vice, o que daria um argumento forte na convenção partidária, marcada para o período entre 20 de julho e 5 de agosto.
A direção emedebista, no entanto, chega a 2026 dividida. De 27 diretórios estaduais, 17 se mantêm afastados do governo federal e 10 se alinham a Lula. Em São Paulo e no Rio Grande do Sul, dois colégios eleitorais estratégicos, a tendência é de resistência a uma aliança formal com o PT. A cúpula do MDB também se aproxima do PSD, que abriga três pré-candidatos ao Planalto e testa o espaço para um projeto próprio.
No meio desse impasse, a frase de Lula sobre Alckmin, na quinta-feira (5), em São Paulo, aciona o radar dos emedebistas. O presidente afirma que o vice tem “um papel a cumprir” na eleição paulista. No MDB, a declaração é lida como um “ok” para avançar na costura de uma maioria interna favorável à aliança, sob a hipótese de deslocar Alckmin para uma candidatura no maior colégio eleitoral do país.
Dois dias depois, no palco em Salvador, Lula tenta equilibrar contas e afaga o aliado: “O Geraldo Alckmin foi uma dessas coisas que Deus fez acontecer na minha vida. É um homem extraordinário que eu respeito e admiro”. O elogio público não resolve o dilema, mas evita um desgaste imediato com o PSB, que já sente o peso das especulações sobre a vaga de vice.
Três nomes circulam no MDB para ocupar o lugar de Alckmin, caso a articulação avance: o ministro dos Transportes, Renan Filho; o governador do Pará, Helder Barbalho; e a ministra do Planejamento, Simone Tebet. Tebet, que se firma como um dos rostos mais conhecidos do governo na área econômica, é cotada também para o Senado por São Paulo em 2026. Uma eventual candidatura, porém, esbarra na posição do MDB paulista, alinhado ao governador bolsonarista Tarcísio de Freitas (Republicanos).
Aliados de Lula no PT e no MDB tentam construir uma saída para que Tebet mantenha o apoio à reeleição do presidente sem trocar de partido, preservando sua imagem de ponte entre centro e governo. O presidente do PT, Edinho Silva, e Eduardo Braga planejam se reunir com Baleia Rossi, líder nacional do MDB, para destravar o impasse paulista.
Centrão negocia neutralidade e testa limites com Flávio Bolsonaro
A movimentação com o MDB ocorre em paralelo à outra frente: a tentativa de empurrar o centrão para uma neutralidade oficial na corrida presidencial. Lula sabe que dificilmente levará PP, União Brasil e Republicanos para sua coligação nacional, mas trabalha para que esses partidos não fechem com Flávio Bolsonaro e liberem suas bases estaduais.
O gesto mais visível nessa direção é o encontro com o senador Ciro Nogueira, presidente do PP e um dos principais articuladores do bolsonarismo no Congresso. Na conversa, revelada nos bastidores por aliados, Nogueira apresenta uma proposta: o PP adotaria neutralidade nacional em 2026 em troca de condições mais favoráveis para sua reeleição ao Senado pelo Piauí.
Parlamentares do PP em redutos lulistas, como o Nordeste, já tratam a liberação de palanques como um cenário provável. Na prática, um acordo desse tipo permitiria que prefeitos e deputados subissem tanto no palanque de Lula quanto no de Flávio Bolsonaro, conforme o humor local, sem risco de punição da direção nacional.
Lula também testa pontes com o União Brasil, sobretudo no Ceará. Ali, o ministro da Educação, Camilo Santana, principal liderança petista no estado, trabalha para impedir que o União apoie Ciro Gomes (PSDB) na eleição para o governo local. A prioridade do Planalto é reeleger o governador Elmano de Freitas (PT) e manter o Ceará como vitrine do projeto petista no Nordeste.
No tabuleiro maior, PP e União Brasil avançam em uma federação partidária, batizada de União Progressista, que ainda aguarda definição do TSE. Juntas, as duas legendas formariam a maior bancada da Câmara e seriam obrigadas a atuar em bloco na eleição presidencial. O grupo à frente da federação, que incluía Ciro Nogueira, flertava com o nome de Tarcísio de Freitas para o Planalto. Com a decisão do governador de buscar a reeleição em São Paulo, a prioridade passa a ser maximizar o número de cadeiras no Congresso.
Essa mudança de eixo abre espaço para Lula negociar diretamente com diretórios estaduais, sem um adversário único e consolidado no campo da direita. A leitura no Planalto é que um centrão sem candidato próprio e com orientação de neutralidade enfraquece Flávio Bolsonaro, que teria mais dificuldade para costurar palanques robustos em 27 estados.
No Republicanos, partido de Tarcísio e do presidente da Câmara, Hugo Motta, o tabuleiro também está em disputa. Motta se aproxima de Lula e passa a atuar como interlocutor privilegiado com o centrão. Ele participa de jantares com o presidente, intermedeia a conversa com Ciro Nogueira e ecoa, nos bastidores, a avaliação de que parte da legenda quer ficar ao lado do governo na eleição nacional.
Em um desses encontros, na quarta-feira (4), Lula minimiza o incômodo com partidos que integram o governo e, ao mesmo tempo, testam pré-candidaturas ao Planalto. O alvo indireto é o PSD, que abriga três ministros no governo e três presidenciáveis em potência: Ronaldo Caiado, Eduardo Leite e Ratinho Jr. O presidente deixa claro que, desde que a aliança nacional se mantenha em aberto, não pretende romper com legendas que flertam com outros projetos.
Risco calculado, pressão sobre Flávio e disputa por 10% dos votos
A ofensiva de Lula redesenha o mapa da sucessão de 2026 e aprofunda as tensões internas em vários partidos. No PSB, a eventual saída de Alckmin da vice gera apreensão: o partido perderia protagonismo nacional e precisaria compensar a perda com palanques fortes em estados como São Paulo e Pernambuco. No MDB, dirigentes locais temem ser atropelados por uma aliança costurada de cima para baixo, enquanto setores mais próximos do governo veem na vice a chance de voltar ao centro do poder em Brasília.
Flávio Bolsonaro observa o movimento em posição desconfortável. Sem o carisma do pai e com Jair Bolsonaro às voltas com investigações que podem resultar em inelegibilidade ou até prisão, o senador depende de uma aliança robusta com o centrão para se viabilizar. Se PP, União Brasil e Republicanos optam por uma neutralidade oficial, o PL tende a concentrar a resistência ao governo, mas com menos máquinas estaduais ao lado.
Para Lula, o cálculo é claro. Pesquisas internas indicam que a maioria do eleitorado já escolhe o campo em que pretende votar, e algo em torno de 10% dos votos permanece em aberto. O presidente busca criar um ambiente em que esse eleitor flutue entre um governo de frente ampla e uma candidatura de oposição isolada, com menor tempo de TV, menos palanques competitivos e mais dificuldades para se apresentar como alternativa segura.
A estratégia também mira o dia seguinte à eleição. Um eventual segundo mandato com MDB, parte do centrão e PSD na base tende a garantir maioria folgada no Congresso, reduzindo o espaço para crises recorrentes e pedidos de impeachment. A experiência de 2015 e 2016, que terminou com a queda de Dilma Rousseff após a ruptura com o MDB e o centrão, ainda pesa na memória do petismo e orienta a aposta em acordos mais amplos desde já.
O risco é proporcional à ambição. Se a convenção do MDB rejeita a vice, Lula pode sair da disputa interna com Alckmin magoado, o PSB irritado e o MDB formalmente distante. Uma vitória de Flávio Bolsonaro em um cenário assim ampliaria o espaço de oposição no Congresso e poderia levar parte do centrão de volta ao campo bolsonarista, repetindo o pêndulo visto na última década.
Os próximos meses devem ser dominados por jantares discretos em Brasília, acertos regionais em estados-chave como Minas Gerais, São Paulo e Ceará, e sinais públicos cuidadosamente calibrados. As convenções partidárias, no fim de julho, vão dizer se a aposta de Lula em uma frente ainda mais ampla se consolida ou se o centrão volta a oferecer a Flávio Bolsonaro o que mais interessa em uma eleição presidencial: tempo, palanques e a sensação de que o poder já escolheu um lado.
