Lula monitora eleição na Hungria como teste para direita e Trump
O governo Luiz Inácio Lula da Silva acompanha de perto a eleição parlamentar na Hungria, neste domingo (12/4/2026), que pode encerrar 16 anos de poder de Viktor Orbán. Em Brasília, o pleito é tratado como um teste da força da extrema-direita global, da influência de Donald Trump no exterior e de possíveis interferências nas eleições brasileiras de outubro.
Hungria vira laboratório para medir extrema-direita e influência dos EUA
Nas últimas semanas, reuniões reservadas no Palácio do Planalto e no Itamaraty colocam a disputa húngara no centro dos relatórios de análise política enviados ao presidente Lula. Integrantes do governo descrevem a eleição em Budapeste como um “termômetro” para entender até onde uma rede internacional de lideranças de direita consegue se sustentar, em meio a derrotas recentes em outros países europeus.
Orbán governa a Hungria desde 2010, com o partido Fidesz, e constrói ao longo de 16 anos a imagem de líder nacionalista, crítico à União Europeia e próximo a Donald Trump, Jair Bolsonaro e Vladimir Putin. Pesquisas recentes, porém, indicam desgaste: o partido de oposição Tisza, liderado por Peter Magyar, aparece com 58% das intenções de voto, contra 35% do Fidesz, abrindo uma vantagem de 23 pontos percentuais às vésperas do pleito.
A disparada da oposição acende um alerta em Washington e em aliados de Orbán. Nesta semana, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, envia o vice-presidente JD Vance a Budapeste para participar de um comício ao lado do premiê húngaro. Em ligação telefônica transmitida ao público, Trump afirma: “Eu amo a Hungria e amo Viktor. Eu digo a vocês que ele é um homem fantástico. Sou um grande fã de Viktor e estou com ele até o fim”.
Auxiliares de Lula veem o gesto como um recado explícito. Para um assessor ouvido em caráter reservado, a presença de Vance “não é um ato meramente protocolar” e demonstra a preocupação da Casa Branca com a possível derrota de um aliado-chave na Europa. No Planalto, a avaliação é que o movimento serve também como ensaio para outros cenários eleitorais, incluindo a América Latina.
Orbán constrói sua liderança com bandeiras de forte apelo à direita europeia: endurece a política migratória, promove reformas no Judiciário e confronta Bruxelas em temas de soberania nacional. Em 2025, a organização Human Rights Watch acusa o governo húngaro de atacar instituições democráticas, pressionar a imprensa, usar decretos para driblar decisões judiciais e restringir o direito de greve de professores. O premiê responde classificando-se como “guerreiro da liberdade” que defende o país de ingerências externas.
Relação com Bolsonaro e reflexos na disputa de 2026 no Brasil
No Brasil, a eleição húngara também é lida à luz da trajetória de Jair Bolsonaro, principal liderança da direita no país, mesmo após ser condenado a 27 anos de prisão por tentativa de golpe de Estado e tentativa de abolição violenta do Estado democrático de direito. O ex-presidente cumpre pena em regime de prisão domiciliar temporária por razões de saúde, mas segue como referência para o campo conservador.
A proximidade política entre Bolsonaro e Orbán ganha evidência em 2022, quando o então presidente brasileiro visita Budapeste em caráter oficial. Na ocasião, os dois trocam elogios públicos, e Bolsonaro o chama de “irmão”. “Prezado Orbán, trato como irmão, dada a afinidade que temos na defesa dos nossos povos”, afirma o brasileiro durante o encontro, selando uma aliança simbólica que se estende para além dos mandatos.
Dois anos depois, em março de 2024, a relação volta ao centro do debate político interno. Em meio às investigações da Polícia Federal, Bolsonaro passa duas noites na Embaixada da Hungria em Brasília, episódio revelado pelo jornal The New York Times. Em 2025, o ministro do Supremo Tribunal Federal Alexandre de Moraes cita o caso para negar um pedido de prisão domiciliar, apontando risco de tentativa de asilo em representação diplomática estrangeira. A defesa de Bolsonaro nega qualquer intenção de fuga e sustenta que “não há razões mínimas” para supor uma tentativa de asilo.
Em julho de 2025, a conexão entre os dois líderes volta às redes sociais. Às vésperas do julgamento de Bolsonaro no STF, Orbán publica mensagem de apoio no X, antigo Twitter: “Continue lutando, @jairbolsonaro! Ordens de mordaça, proibições em redes sociais e julgamentos motivados politicamente são ferramentas do medo, não da justiça. Você pode colocar uma tornozeleira eletrônica em um homem, mas não na vontade de uma nação!”.
No entorno de Lula, uma eventual derrota de Orbán é descrita como revés político para Bolsonaro e para uma direita radical com articulação cada vez mais internacional. A leitura é que a queda de um aliado de longa data, que dá abrigo político e simbólico ao bolsonarismo, enfraquece a capacidade da direita brasileira de se ancorar em exemplos externos de governos iliberais.
Assessores do Planalto acompanham também os movimentos da família Bolsonaro no exterior. Em março deste ano, o senador Flávio Bolsonaro, principal pré-candidato da direita ao Planalto em 2026, participa de evento nos Estados Unidos e pede “pressão” internacional sobre o processo eleitoral brasileiro. “Apliquem pressão diplomática para que nossas instituições funcionem adequadamente”, diz ele, ao criticar a atuação da gestão Joe Biden no passado. A fala reforça, na avaliação do governo, o risco de instrumentalização política de relações com Washington.
Temor de interferência externa e próximos movimentos de Brasília
O Planalto não descarta totalmente a possibilidade de interferência estrangeira na eleição presidencial de 2026. Um auxiliar de Lula, que fala sob reserva, afirma que setores do governo dos Estados Unidos tentam, no ano passado, usar medidas comerciais — apelidadas de “tarifaço” por assessores — para pressionar o Brasil em meio ao avanço dos processos contra Bolsonaro. Segundo essa leitura, a aproximação recente entre Lula e Trump ajuda a conter alas mais próximas à família Bolsonaro dentro do governo americano.
O histórico recente da Casa Branca alimenta a cautela. Em 2025, a administração Trump apoia o candidato de direita Nasry Asfura em Honduras e chega a ameaçar suspender ajuda financeira ao país caso ele não vença. No ano anterior, dá aval a um empréstimo de US$ 20 bilhões à Argentina às vésperas das eleições parlamentares que consolidam a base do presidente Javier Milei. Em Brasília, esses episódios são citados como exemplos de intervenção política disfarçada de cooperação econômica.
A possibilidade de que movimentos semelhantes ocorram em relação ao Brasil, ainda que de forma indireta, leva o governo a reforçar o discurso de defesa da soberania. Nesta semana, o ministro do Desenvolvimento Social e Combate à Fome, Wellington Dias, coordenador político da campanha à reeleição de Lula, envia um recado público: “Não vamos tolerar interferência de ninguém. O Brasil não se mete, do ponto de vista eleitoral, com nenhum país. Podemos até ter simpatia por este ou aquele candidato, mas não nos metemos. O Brasil exige respeito dos outros países porque isso é soberania”.
No curto prazo, a equipe de Lula pretende usar o resultado na Hungria como insumo para calibrar a estratégia doméstica. Uma vitória de Orbán reforça o alerta em relação à resiliência de líderes de extrema-direita, mesmo sob desgaste acumulado e denúncias de retrocessos democráticos. Uma derrota, considerada provável hoje pelas pesquisas, pode redesenhar o tabuleiro internacional, isolar ainda mais Bolsonaro e reduzir o peso simbólico de Trump na formação de alianças conservadoras na Europa.
Enquanto urnas são preparadas em Budapeste, analistas em Brasília atualizam cenários para outubro. A pergunta que atravessa os relatórios, segundo um assessor, é direta: o que acontece com a direita brasileira se o maior aliado europeu de Bolsonaro sair de cena e se a Casa Branca decidir recuar de aventuras eleitorais na América Latina? A resposta começa a ser construída neste domingo, a quase seis meses da escolha que definirá o rumo político do Brasil até o fim da década.
