Lula minimiza ataque evangélico a ala de escola que o homenageou
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirma neste domingo (22) que não se preocupa com críticas de grupos evangélicos ao desfile da Acadêmicos de Niterói, que o homenageou no Carnaval do Rio de 2026. Em Nova Delhi, pouco antes de embarcar para a Coreia do Sul, ele nega qualquer interferência do governo no enredo e diz que recebeu a homenagem com gratidão.
Lula reage à polêmica e reforça distância do governo
Lula fala com jornalistas na capital indiana em clima de fim de viagem oficial e início de outra. Entre perguntas sobre agenda internacional, surge o Carnaval. O presidente é questionado sobre a ala “família em conserva” do desfile da Acadêmicos de Niterói, alvo de ataques de setores evangélicos nas redes sociais desde antes da passagem da escola pela Sapucaí.
O petista responde de forma direta. “Cabia ao presidente da República aceitar ou não a homenagem e eu aceitei. Assim que retornar ao Brasil, vou visitar a escola de samba para agradecer”, afirma. Ele insiste que não participou da criação do enredo, nem opinou sobre alas ou fantasias. “Não foi o carnavalesco, nem o autor do samba-enredo. Não houve qualquer ingerência”, completa, ao comentar as críticas.
A ala “família em conserva” se torna um dos pontos mais explorados por perfis religiosos e políticos contrários ao governo, que acusam o desfile de atacar valores cristãos e zombar de costumes evangélicos. O trecho do cortejo, pensado para discutir conservadorismo e intolerância, acaba ressignificado nas redes sociais como afronta religiosa. A controvérsia se espalha entre vídeos, montagens e transmissões ao vivo durante os dias de folia.
Lula procura se afastar dessa disputa simbólica. Diz que sua participação se limita a aceitar ou não ser tema de um enredo, o que considera um gesto de reconhecimento à sua trajetória. “Aceitei com gratidão”, reforça, ao lembrar que a escola o retrata como operário nordestino que chega à Presidência, em meio a elementos da cultura popular do Nordeste.
Desfile vira campo de batalha política e religiosa
A Acadêmicos de Niterói estreia no Grupo Especial em 2026 com a missão de abrir a primeira noite de desfiles na Marquês de Sapucaí. Leva para a avenida o enredo “Do Alto do Mulungu Surge a Esperança: Lula, o Operário do Brasil” e constrói, em pouco mais de 1h10 de desfile, uma narrativa sobre resistência nordestina, pobreza, sindicalismo e ascensão política do presidente. No fim, recebe as menores notas do ano e cai de volta para a Série Ouro, a segunda divisão do Carnaval carioca.
Antes mesmo do primeiro surdo rufar, o enredo já circula em grupos de WhatsApp e perfis evangélicos no X e no Instagram. Pastores e influenciadores reproduzem trechos de fantasias, descrevem alas e convocam fiéis a se posicionar contra o que chamam de “samba-idolatria”. A “família em conserva” se torna símbolo dessa reação, mesmo sem ocupar posição central na narrativa proposta pelo carnavalesco.
O governo tenta não ser arrastado para o olho do furacão. A Secretaria de Comunicação Social da Presidência divulga nota ainda antes do desfile, em fevereiro, para negar qualquer interferência no desenvolvimento do enredo ou na escolha da história contada. Informa também que não há decisão judicial que impeça a apresentação da escola na avenida. “Da mesma forma, não houve qualquer ingerência do governo na escolha e no desenvolvimento do enredo citado ou de qualquer outra escola”, registra o comunicado.
No mesmo texto, o Planalto destaca que a Advocacia-Geral da União recomenda ouvir a Comissão de Ética da Presidência diante da possibilidade de autoridades participarem de eventos que possam ser interpretados como campanha antecipada. A comissão lista orientações objetivas: proíbe o recebimento de convites de empresas com fins lucrativos que gerem conflito de interesse, veda diárias e passagens custeadas por terceiros e alerta para manifestações que possam soar como propaganda eleitoral antes do prazo legal.
A avaliação interna é que o episódio repete um padrão recente. A cultura popular ocupa o espaço público com personagens políticos, opositores recorrem a cortes e tribunais eleitorais, e as redes amplificam conflitos, sobretudo em segmentos religiosos. O caso reforça o cálculo milimétrico de exposição de Lula em ambientes festivos, marcado pela lembrança de que o Carnaval mobiliza milhões de pessoas e, ao mesmo tempo, eletriza bolhas políticas.
Liberdade artística, voto evangélico e próximos lances
A disputa em torno da “família em conserva” evidencia um ponto sensível para o governo. A relação com o eleitorado evangélico continua frágil, três anos após a eleição de 2022 e às vésperas da corrida municipal. Institutos de pesquisa mostram perda de espaço do PT entre fiéis pentecostais e neopentecostais desde 2018, enquanto líderes religiosos conservadores se ancoram em episódios como o da Acadêmicos de Niterói para reforçar a associação entre Lula, esquerda e suposto desrespeito à fé cristã.
A polêmica também pressiona escolas de samba e artistas. A reação intensa de segmentos religiosos e o uso político das imagens do desfile indicam um ambiente mais hostil para enredos que se aproximem de figuras no poder, seja no Executivo ou no Legislativo. Dirigentes temem ver barracões sob ataque judicial a cada escolha de tema que dialogue com política.
O governo, por sua vez, tenta equacionar duas frentes. De um lado, defende a liberdade de expressão no Carnaval, reafirmando que artistas e escolas devem criar sem tutela do Estado. De outro, monitora o impacto da narrativa entre evangélicos e busca evitar movimentos que alimentem o discurso de perseguição religiosa. A estratégia passa por manter distância institucional do enredo, como Lula faz ao negar qualquer ingerência, e por calibrar a presença de aliados em camarotes e desfiles.
A promessa de visita de Lula à quadra da Acadêmicos de Niterói, após o retorno ao Brasil, entra nesse tabuleiro. O gesto tende a agradar militantes e simpatizantes que veem no enredo uma valorização da origem nordestina e da trajetória sindical do presidente. Ao mesmo tempo, pode reaquecer críticas de líderes evangélicos e opositores, que buscam associar cada aparição do petista no Carnaval à construção de um projeto de poder.
O episódio abre a temporada de testes para a convivência entre arte, religião e política em um ano de intensa disputa municipal. A forma como Lula administra a agenda com segmentos evangélicos, como a Justiça Eleitoral reage a representações sobre o desfile e como escolas calibram seus futuros enredos indicará se a ala “família em conserva” ficará como um ponto isolado ou como o primeiro grande embate cultural do ciclo eleitoral que se aproxima.
