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Lula leva a Trump proposta escrita sobre minerais críticos e soberania

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirma que vai levar, em março de 2026, uma proposta escrita a Donald Trump para negociar minerais críticos e terras raras, em condições que preservem a soberania brasileira. A iniciativa nasce de declarações feitas durante visita oficial à Índia, onde Lula reforça que o Brasil não aceitará imposições externas sobre seus recursos estratégicos.

Brasil mira protagonismo em recursos estratégicos

Lula escolhe a Índia, potência emergente na disputa tecnológica com Estados Unidos e China, para tornar pública a estratégia. Em entrevista a uma emissora local, ele afirma que pretende discutir pessoalmente com Trump a exploração dos minerais considerados essenciais para a economia digital e para a transição energética. “Quero negociar com ele a questão dos minerais críticos e das terras raras. O Brasil tem muitos minerais críticos e terras raras, mas não queremos transformar o território brasileiro em um santuário da humanidade”, diz.

Minerais críticos são insumos que entram na fabricação de chips, celulares, computadores, carros elétricos e turbinas eólicas. As chamadas terras raras compõem um grupo de elementos usados em ímãs de alto desempenho, semicondutores e equipamentos militares. Quem controla a oferta desses materiais influencia cadeias industriais inteiras e ganha peso nas negociações globais.

Dados do Serviço Geológico dos Estados Unidos mostram que o Brasil detém a segunda maior reserva de terras raras do planeta, atrás apenas da China. Mesmo assim, participa com cerca de 1% da produção mundial. O contraste entre o potencial do subsolo e o baixo volume de extração e processamento expõe a fragilidade da posição brasileira em um mercado dominado pela capacidade industrial chinesa e pela pressão estratégica norte-americana.

Lula tenta reduzir essa distância. Na entrevista na Índia, ele explicita a linha vermelha de seu governo: o Brasil quer negociar, mas quer ditar as condições. “Prefiro negociar de forma soberana para que o processo de transformação desses minerais críticos seja feito e explorado em nosso país, dentro do nosso país, e não fora. E venderemos para quem quisermos vender. Não aceitamos que nos imponham nada”, afirma.

Disputa geopolítica chega ao subsolo brasileiro

A fala de Lula ocorre em meio à movimentação de Washington para estreitar alianças com países detentores de reservas estratégicas. Nos últimos meses, os Estados Unidos apresentam a governos selecionados um modelo de cooperação para exploração de minerais críticos, em resposta à dependência da cadeia de suprimentos chinesa. O Brasil envia representante para conhecer a proposta, mas decide não aderir por considerar o desenho pouco vantajoso para a industrialização nacional.

Essa recusa alimenta a narrativa de soberania que o Planalto tenta projetar. O governo quer se distanciar de acordos em que o país exporta minério bruto e importa tecnologia cara. A ideia, segundo auxiliares, é atrelar qualquer parceria a investimentos obrigatórios em pesquisa, refino e montagem de produtos no próprio território brasileiro, com prazos e metas claras de conteúdo local.

A discussão não é abstrata. A demanda por terras raras deve crescer em dois dígitos anuais na próxima década, impulsionada por políticas de descarbonização e pela corrida por inteligência artificial. Montadoras, fabricantes de baterias e gigantes da tecnologia disputam contratos de fornecimento com horizonte de 10 a 20 anos. Empresas americanas, europeias e asiáticas monitoram as reservas brasileiras, avaliadas em dezenas de milhões de toneladas segundo estimativas oficiais.

O encontro com Trump, previsto para março de 2026, em Washington, tende a colocar essas pressões à mesa. A visita é combinada em telefonema no ano anterior e integra uma agenda que inclui passagem prévia pela Índia e pela Coreia do Sul. Em todos esses destinos, Lula tenta costurar uma posição que lhe permita dialogar com diferentes polos de poder sem se alinhar automaticamente a nenhum deles.

Além da mineração, o presidente quer discutir o chamado “tarifaço” que ainda atinge setores da indústria brasileira nos Estados Unidos, como o aço, e buscar espaço para exportações de maior valor agregado. Ele também pretende abordar o combate ao crime organizado e ao tráfico internacional de drogas. “Agora, quero ir aos Estados Unidos porque, desde que ele começou na Venezuela dizendo que queria combater o crime organizado e o tráfico de drogas, muito bem. Eu também quero combater isso aqui no Brasil”, afirma.

Proposta por escrito e disputa por valor agregado

A forma como o diálogo se dará também preocupa o Planalto. Lula critica publicamente o hábito de Trump de anunciar medidas via redes sociais, sem detalhamento técnico e sem coordenação diplomática. Para reduzir ruídos, o presidente brasileiro decide formalizar suas posições em um documento. “Essa proposta, quero levá-la por escrito ao presidente Trump, porque tenho receio de que o vento possa distorcer as palavras. Então, vou levá-la por escrito. Tudo o que vou tratar com o presidente Trump, levarei por escrito. Estou otimista com essa conversa com o presidente Trump”, diz.

Esse gesto funciona como recado político para dentro e para fora. Internamente, o governo tenta mostrar que não repetirá ciclos de pura exportação de commodities minerais, como ocorreu com o ferro e a bauxita nas últimas décadas. Externamente, sinaliza que espera compromissos formais, não apenas declarações de intenção. A defesa de que o refino e o processamento dos minerais ocorram no Brasil tende a atrair setores industriais, que enxergam na agenda de minerais críticos uma chance de recuperar parte do parque produtivo perdido desde os anos 1990.

A estratégia, porém, enfrenta obstáculos. A instalação de plantas para processamento de terras raras exige bilhões de dólares em investimentos, tecnologia sensível e regras ambientais rígidas para lidar com rejeitos radioativos. O país também precisa de segurança jurídica, licenciamento mais previsível e política industrial estável por mais de um ciclo de governo. Sem isso, empresas podem preferir manter a dependência da cadeia já consolidada na Ásia.

Setores exportadores temem que uma postura muito dura com Washington reduza o apetite de grandes compradores e empurre o Brasil para uma zona cinzenta entre as grandes potências. Ambientalistas cobram garantias de que a corrida por minerais não fragilize áreas sensíveis, como Amazônia e Cerrado, e lembram que projetos passados de mineração em larga escala deixaram passivos ambientais bilionários. Governadores de estados mineradores, por outro lado, veem na agenda uma fonte de royalties e empregos qualificados.

Negociação com Trump expõe dilemas da soberania

Os próximos meses serão usados pelo governo para finalizar o desenho da proposta que chegará à Casa Branca. Técnicos dos ministérios de Minas e Energia, Fazenda, Itamaraty e Meio Ambiente trabalham em cenários de cooperação que combinem capital estrangeiro e controle nacional do ciclo produtivo. A equipe econômica avalia incentivos fiscais temporários e metas de conteúdo local para garantir que investimentos em mineração tragam junto fábricas, centros de pesquisa e formação de mão de obra.

A reunião com Trump deve funcionar como primeiro teste público dessa arquitetura. Se conseguir arrancar compromissos claros de compra de produtos processados no Brasil, Lula poderá apresentar a viagem como vitória da soberania econômica, com potencial de reforçar sua posição política interna e de inspirar outros países emergentes que detêm recursos estratégicos. Se, ao contrário, sair de Washington apenas com promessas vagas, a pressão doméstica por resultados concretos deve aumentar. A disputa em torno de como transformar reservas abundantes em poder real segue aberta e ajuda a definir qual será o lugar do Brasil na nova geopolítica dos minerais críticos.

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