Ultimas

Lula lança plano de reeleição em ato de 46 anos do PT em Salvador

Em Salvador, no aniversário de 46 anos do PT, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva usa a festa partidária para lançar, na prática, sua campanha à reeleição em 2026. Diante de militantes e aliados, ele convoca uma frente ampliada contra a direita e ataca o que chama de mercantilização da política brasileira.

Festa de 46 anos vira ponto de partida para 2026

No Trapiche Barnabé lotado, à beira da Baía de Todos-os-Santos, o clima de celebração rapidamente assume contornos de comício. É 7 de fevereiro de 2026, mas Lula fala como candidato, não apenas como presidente em exercício. Ele diz que a política brasileira “apodreceu” e se tornou um negócio caro, dominado por cabos eleitorais profissionais e moedas de troca locais.

O discurso marca o encerramento das comemorações de 46 anos do PT, mas abre um novo ciclo dentro do partido. Lula defende o legado econômico de seu terceiro mandato, apresenta números de crescimento, emprego e investimento público e, ao mesmo tempo, tenta resgatar a imagem de um PT “antissistema”, em confronto com o que chama de elites que capturam o Estado.

Na fala mais dura da noite, o presidente se volta para deputados, vereadores e pré-candidatos presentes. “Os nossos deputados são testemunhas de que a política apodreceu. Vocês que são candidatos sabem como é que está o mercado eleitoral neste país. Vocês sabem quanto custa um cabo eleitoral. Vocês sabem quanto custa o vereador. Vocês sabem quanto custa o preço de cada candidatura neste país. O que é uma vergonha”, afirma, sob aplausos.

Ao lembrar o início da trajetória petista, Lula diz sentir falta do tempo em que campanhas eram financiadas com venda de camisetas e doações pequenas. Hoje, resume, “há dinheiro rolando para tudo quanto é lado”. A crítica mira não só adversários de direita, mas o sistema eleitoral como um todo, marcado por grandes estruturas de financiamento e por negociações locais que encarecem cada voto.

Frente ampliada e bandeiras sociais no centro da estratégia

A estratégia para 2026 passa pela ampliação da base de apoio. No palco, o presidente cita nominalmente aliados do PSD, PCdoB e PDT e faz um convite público para uma coalizão mais robusta. “Essa campanha agora, se preparem, porque vocês, os nossos aliados, PSB, PCdoB, PDT e quem mais a gente conseguir trazer, sabe, quem mais a gente conseguir trazer”, reforça, ao falar em “guerra política” contra a mentira e o fascismo.

O comando do PT tenta combinar o discurso de defesa da democracia com a promessa de avanços concretos na vida de quem está na base da pirâmide. O marqueteiro Otávio Antunes, uma das vozes ouvidas na plateia de dirigentes, afirma que o partido quer retomar a posição de legenda que enfrenta o sistema sem romper com as instituições. “Nós fomos, na nossa origem, o partido que enfrentou o sistema. E o sistema não são as instituições democráticas, como um pedaço da extrema direita aponta. O sistema são aqueles que querem sempre tomar um pedaço do Estado para si, que não permitem que os mais pobres prosperem”, diz.

Para dar substância a esse argumento, Lula e líderes petistas exibem um cardápio de dados econômicos e sociais. O salário mínimo chega a R$ 1.620, e o presidente afirma que, sem a política de valorização atrelada ao crescimento do PIB, o valor estaria em torno de R$ 800. A equipe reforça que o país tem hoje quase 104 milhões de pessoas na força de trabalho, o maior contingente da história.

Na economia, o governo destaca o recorde da bolsa de valores, que atinge 185 mil pontos, e o volume de exportações, que chega a US$ 349 bilhões, com abertura de 516 novos mercados em três anos. Na área da saúde, o Planalto aponta a realização de 14,7 milhões de cirurgias eletivas pelo programa “Agora Tem Especialista”. Nos investimentos, o Novo PAC soma mais de R$ 944 bilhões aplicados no período, enquanto o BNDES contrata R$ 588 bilhões para 406 mil projetos e a chamada transformação ecológica mobiliza outros R$ 400 bilhões.

Os números servem de base para a nova resolução política aprovada pelo diretório nacional do PT, em paralelo ao ato em Salvador. O texto define o partido como “democrático, popular e socialista” e detalha metas para o ciclo eleitoral. A resolução dá centralidade à justiça tributária, à revisão de direitos trabalhistas e à expansão de serviços públicos, em especial transporte e educação infantil.

Na prática, o partido se compromete a defender a reforma do Imposto de Renda que amplia a isenção para quem ganha até dois salários mínimos e promete tributar com mais rigor “bancos, bets e bilionários”. No campo trabalhista, o objetivo é pôr fim à escala 6×1 sem reduzir salários e criar proteção social específica para trabalhadores de aplicativos, hoje sem rede de segurança em caso de doença ou queda de renda.

Soberania, América Latina e a disputa por minerais estratégicos

A agenda internacional ocupa parte relevante do discurso. Lula aproveita o palco para atacar a política externa do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e reforçar a defesa da soberania de países latino-americanos. “Temos de dizer, em alto e bom som, que o problema da Venezuela tem que ser resolvido pelo povo da Venezuela e não pelos Estados Unidos ou pelo Trump”, afirma.

A fala ocorre em um momento de tensão na região. O então líder venezuelano Nicolás Maduro e a ex-primeira-dama Cília Flores estão presos em Nova York, enquanto Washington apoia a vice Delcy Rodriguez e o secretário de Estado, Marco Rubio, ameaça tratá-la da mesma forma se não colaborar. O Planalto vê na crise um alerta sobre intervenções externas em disputas internas de países vizinhos.

Lula também volta a defender Cuba, que ele classifica como vítima de um “massacre de especulação” promovido pelos Estados Unidos. Ele cita a ordem executiva assinada por Trump, no fim de janeiro, que ameaça com tarifas adicionais países que fornecem petróleo para a ilha. A medida já leva o México a suspender o envio de insumos, aprofundando o isolamento econômico cubano.

Na visão do presidente, cabe ao PT encontrar formas de ajuda política e material. “Nosso país é solidário ao povo cubano, que é vítima de um massacre de especulação dos Estados Unidos contra eles e nós temos que encontrar, enquanto partido, um jeito de ajudar”, afirma, ao retomar a tradição petista de apoio à esquerda latino-americana.

Ao lado da disputa ideológica na região, Lula descreve o que chama de “briga escondida” em torno dos minerais críticos, insumos essenciais para a transição energética e a indústria de alta tecnologia. Ele afirma perceber, em reuniões diplomáticas, um movimento liderado pelos EUA para limitar a venda, por países como o Brasil, de terras raras e outros minerais estratégicos para a China. “E agora, embaixador, toda conversa, toda reunião, é para evitar que vendam terras raras e minerais críticos para a China. É uma briga meio escondida, mas tudo é contra a China”, diz, dirigindo-se ao embaixador chinês Zhu Qingqiao, presente ao evento.

O vice-presidente norte-americano, JD Vance, já admite publicamente planos para criar um bloco comercial preferencial de minerais que reduza a dependência da China. O governo brasileiro, no entanto, sinaliza que não pretende aderir de forma imediata a essa iniciativa e mantém o tom de gratidão em relação a Pequim. Lula agradece a parceria “respeitosa e exitosa” com os chineses, numa mensagem que reforça a tentativa de equilibrar a relação com as duas potências sem abrir mão de margens de negociação.

Disputa eleitoral, base mobilizada e perguntas em aberto

O ato em Salvador funciona como um ensaio geral da campanha petista para 2026. De um lado, um roteiro que combina dados econômicos positivos, promessas de ampliação de direitos e defesa de programas como o Novo PAC. De outro, um discurso inflamado contra o que Lula chama de fascismo, mercantilização da política e interferência estrangeira em decisões nacionais e regionais.

A nova resolução do PT ainda detalha propostas de tarifa zero em parte do transporte público e de universalização de creches, medidas que miram diretamente o orçamento das famílias trabalhadoras, sobretudo das mulheres que gastam até um terço da renda com cuidadores. O texto também destaca o Pacto Nacional de Prevenção ao Feminicídio como “profissão de fé” do governo no combate à violência de gênero.

A convocação de PSD, PCdoB, PDT e outros partidos sinaliza a tentativa de construir uma frente ampla capaz de dificultar o caminho da oposição em 2026. A costura, porém, depende de acordos regionais, disputa por palanques locais e definição de candidaturas a governos estaduais e ao Congresso, terreno em que interesses se chocam e alianças testam limites.

Do lado de fora do Trapiche Barnabé, permanecem dúvidas que a noite festiva não resolve. Até que ponto a narrativa de sucesso econômico convence quem ainda enfrenta inflação no supermercado e transporte precário? Como o eleitor reagirá à promessa de mais impostos sobre bancos, casas de aposta e grandes fortunas? E de que forma a defesa enfática de Venezuela e Cuba repercutirá num país dividido, às vésperas de uma nova disputa presidencial que promete ser tão polarizada quanto as anteriores?

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *