Lula inaugura fábrica de insulina da Biomm em Minas e mira autonomia
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva inaugura nesta quarta-feira (28.jan.2026), em Minas Gerais, a fábrica de insulina da Biomm, braço farmacêutico da Vorcaro. O projeto promete ampliar a produção nacional de um medicamento vital para milhões de brasileiros com diabetes e reduzir a dependência de importações.
Investimento estratégico em medicamento vital
A nova planta da Biomm começa a operar em um momento de pressão sobre o gasto público com saúde e de alta no número de diagnósticos de diabetes no país. Estimativas do Ministério da Saúde indicam mais de 16 milhões de brasileiros com a doença, muitos deles dependentes de insulina distribuída pelo Sistema Único de Saúde (SUS). Cada frasco importado custa em dólar e pesa no orçamento federal.
No palco do evento, em território mineiro, Lula divide espaço com os principais acionistas da Biomm. Entre eles estão o ex-ministro e empresário Walfrido dos Mares Guia, aliado histórico do presidente, e o empresário Lucas Kallas, alvo de investigações em operações recentes da Polícia Federal. Também participa o fundador do Banco Master, apontado como principal investidor privado do projeto e peça-chave no arranjo financeiro que sustenta a fábrica.
O governo apresenta a inauguração como passo decisivo para uma política de reindustrialização com foco em tecnologia e saúde. A expectativa é que a unidade alcance, em poucos anos, capacidade para abastecer parte relevante da demanda nacional de insulina. Hoje, mais de 90% do produto consumido no Brasil vem de plantas instaladas no exterior, em especial na Europa, nos Estados Unidos e na Ásia.
O discurso oficial sustenta que a produção em território nacional reduz custos, protege o país de choques cambiais e garante segurança no fornecimento de um medicamento que não pode faltar. Um frasco não entregue, no caso da insulina, significa risco direto de internação e morte. A inauguração em Minas, portanto, vai além da foto política: mira uma disputa bilionária no mercado farmacêutico e mexe com interesses de gigantes globais.
Política, negócios e biotecnologia no mesmo palco
A cerimônia reúne governo federal, empresários do setor financeiro e figuras do mundo político mineiro em torno de um ativo considerado estratégico. A Biomm, que opera com biotecnologia avançada, aposta que a nova fábrica pode se tornar referência regional na produção de medicamentos biológicos, hoje entre os produtos mais caros da prateleira do SUS. O plano inclui ampliar gradualmente o portfólio e desenvolver, além da insulina, outros fármacos usados em tratamentos crônicos.
A presença de Walfrido dos Mares Guia confere um tom de reencontro político. Amigo de Lula desde os anos 1990, o empresário circula com desenvoltura entre Brasília e o empresariado mineiro. Seu papel, relatam aliados, é o de articulador entre capitais privados e projetos com apelo social. O petista, que tenta consolidar uma agenda de investimentos em saúde e inovação até 2026, encontra na Biomm um exemplo que pode ser replicado em outras áreas da indústria.
Outro acionista, o empresário Lucas Kallas, carrega um elemento de tensão. Investigado em diferentes operações da Polícia Federal, ele entra no noticiário pela porta das suspeitas criminais e pela associação com grandes negócios. Sua presença no evento tende a alimentar questionamentos sobre critérios de escolha de parceiros privados em projetos considerados sensíveis. A Biomm afirma, em comunicados anteriores, que segue normas de governança, cumpre a legislação e mantém a operação regularizada perante órgãos reguladores.
Do lado do governo, a aposta é que o ganho econômico e sanitário compense o desgaste político da foto com empresários investigados. Integrantes do Planalto defendem, nos bastidores, que o critério principal é a capacidade de aportar recursos e tecnologia em tempo curto. “O Brasil não pode ficar refém de importação de insulina”, repete um auxiliar próximo do presidente, ecoando discurso que Lula leva a público desde o início do mandato.
A fábrica, instalada em área industrial de Minas Gerais, promete gerar centenas de empregos diretos e indiretos ao longo dos próximos anos. A expectativa local é de impacto em cadeias de serviços, logística e pesquisa científica. Universidades mineiras já negociam parcerias para formação de especialistas em biotecnologia, em uma tentativa de reter talentos e atrair novos laboratórios para o estado.
Autonomia farmacêutica e debate sobre transparência
A inauguração da Biomm entra em uma agenda mais ampla do governo de fortalecer a indústria farmacêutica nacional. O Brasil figura entre os maiores mercados consumidores de medicamentos, mas ainda importa boa parte dos produtos de alto valor agregado. No caso da insulina, o país gasta, por ano, bilhões de reais em compras internacionais, sujeitas a flutuações do câmbio e a disputas contratuais.
Se a planta cumprir o cronograma prometido, a produção interna pode começar a reduzir esse gasto em um horizonte de poucos anos. Especialistas ouvidos por interlocutores do governo calculam que uma fábrica de médio porte é capaz de substituir uma fatia relevante das importações, dependendo do mix de produtos e da escala atingida. O impacto, contudo, não é automático: exige certificações técnicas, aprovação da Anvisa e contratos estáveis com o SUS e com redes privadas.
Ao mesmo tempo em que o Planalto exibe a Biomm como símbolo de soberania produtiva, o desenho societário da empresa e o perfil de alguns acionistas reacendem o debate sobre transparência e governança. A presença de um empresário investigado em operações da Polícia Federal, ao lado de um aliado histórico do presidente, tende a ser explorada pela oposição. Críticos devem questionar se o governo estabelece salvaguardas claras para evitar conflitos de interesse em parcerias entre o público e o privado.
A empresa, pressionada por esse ambiente, terá de demonstrar rotina rigorosa de compliance, prestação de contas e relação estável com órgãos de controle. A aposta em biotecnologia, setor intensivo em capital e informação sensível, costuma atrair atenção redobrada de reguladores. Qualquer falha em processos, contratos ou cadeia de fornecimento pode comprometer não só a imagem da Biomm, mas também o discurso oficial de autonomia farmacêutica.
Próximos passos e disputas em aberto
Com a cerimônia de inauguração concluída, o foco se desloca para a operação diária da fábrica e para a capacidade da Biomm de entregar insulina em escala e com preço competitivo. O governo Lula tenta transformar o evento em vitrine de uma política industrial voltada à saúde, enquanto acompanha a negociação de contratos com o SUS, etapa decisiva para que a unidade ganhe fôlego financeiro e relevância social.
Nos próximos meses, a empresa deve enfrentar uma combinação de desafios: concluir fases de certificação, fechar parcerias tecnológicas, ampliar a rede de fornecedores locais e responder a questionamentos sobre seu quadro societário. Em paralelo, o Planalto será cobrado a provar que a proximidade com empresários investigados não compromete regras de integridade na escolha de projetos estratégicos. A pergunta que fica, para pacientes, investidores e governo, é se a fábrica em Minas conseguirá cumprir a promessa de garantir insulina nacional, estável e acessível antes que o debate político engula os resultados concretos.
