Ultimas

Lula e União Europeia selam maior acordo comercial da história recente

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva celebra nesta sexta-feira (16), em Brasília, a conclusão do acordo comercial entre Mercosul e União Europeia, após mais de 25 anos de negociações. O tratado, que deve ser assinado oficialmente neste sábado (17) em Assunção, cria uma das maiores áreas de livre-comércio do mundo, com impacto direto sobre cerca de 720 milhões de pessoas.

Acordo histórico após um quarto de século de impasses

Lula divide o palco com a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, em um gesto que simboliza o fim de um impasse que atravessa seis mandatos presidenciais no Brasil. As conversas entre Mercosul e União Europeia começam formalmente no fim dos anos 1990 e acumulam adiamentos por divergências ambientais, subsídios agrícolas e disputas industriais.

O acerto atual nasce como resposta a um cenário global mais tenso, marcado por guerras comerciais, pressão por segurança energética e corrida por matérias-primas críticas. Em discurso, Lula descreve o percurso como uma maratona exaustiva. “Foram mais de 25 anos de sofrimento e de tentativa de um acordo”, afirma, ao lado de Ursula, ao defender que o tratado fortalece “o mundo democrático e o multilateralismo”.

O texto negociado transforma a relação entre os dois blocos em uma parceria econômica de outra escala. Somados, Mercosul e União Europeia reúnem um PIB de cerca de US$ 22 trilhões, algo próximo de 20% da economia mundial. A abertura gradual de tarifas promete redesenhar cadeias de fornecimento em setores como agronegócio, indústria automotiva, tecnologia verde e serviços digitais.

Lula insiste que a iniciativa não se limita a exportar mais produtos. Em sua fala, vincula o acordo à ideia de desenvolvimento com proteção social. “A liberalização e as aberturas comerciais só fazem sentido se forem capazes de promover o desenvolvimento sustentável e reduzir as desigualdades. Estamos ampliando oportunidades comerciais e de investimentos sem comprometer o papel do Estado”, afirma.

Impacto econômico, ambiental e geopolítico

O desenho do acordo prevê a formação de uma ampla área de livre-comércio, com redução expressiva de tarifas ao longo de prazos que devem chegar a 10 ou 15 anos em alguns setores sensíveis. A promessa é aumentar fluxos de exportação e importação, acelerar investimentos produtivos e estimular avanços tecnológicos, sobretudo em energia limpa, digitalização e indústria de baixo carbono.

A União Europeia mira maior acesso a alimentos, biocombustíveis e minerais estratégicos, enquanto países do Mercosul buscam ampliar mercados para proteínas, soja, etanol, automóveis e manufaturados. Ursula von der Leyen destaca a dimensão estratégica das matérias-primas. “A assinatura de amanhã será o primeiro passo, mas há outros capítulos a serem escritos. A história só será um completo sucesso quando as pessoas, as empresas e os negócios puderem sentir os benefícios”, diz. Ela ressalta que Europa e Brasil se alinham em um “acordo político muito importante para a questão de matérias-primas” como lítio, níquel e terras raras, essenciais para baterias, carros elétricos e equipamentos eletrônicos.

O pacto também funciona como mensagem política. Ao reforçar laços entre democracias de ambos os lados do Atlântico, o tratado tenta se contrapor ao avanço de modelos mais fechados e autoritários de comércio e governança. A aposta dos dois blocos é usar o peso econômico conjunto para influenciar regras globais em temas como clima, direitos trabalhistas e padrões industriais.

O caminho até aqui, porém, é marcado por controvérsia. Agricultores europeus temem concorrência de produtos sul-americanos mais baratos. Ambientalistas questionam o risco de avanço sobre florestas, mesmo com cláusulas de proteção e referências explícitas ao Acordo de Paris. No Mercosul, industriais se preocupam com a competição de empresas europeias em segmentos de alta tecnologia. A resposta de Lula é apostar em políticas públicas que combinem abertura com incentivos à inovação, conteúdo local e transição energética.

Assinatura em Assunção e os próximos capítulos

A etapa seguinte ocorre em Assunção, capital do Paraguai, que exerce a presidência rotativa do Mercosul. A cerimônia de sábado deve formalizar o tratado pelos governos dos países sul-americanos e pela cúpula europeia, após a rodada de encontros em Brasília que reúne Lula, Ursula von der Leyen e o presidente do Conselho Europeu, António Costa.

Depois da assinatura, vem a fase politicamente mais delicada: a ratificação. O acordo precisa passar pelos parlamentos nacionais dos integrantes do Mercosul e pelos órgãos legislativos da União Europeia. Resistências internas, campanhas de grupos de interesse e mudanças de governo podem atrasar ou redesenhar a implementação. A regulamentação detalhada de tarifas, salvaguardas e metas ambientais tende a se arrastar por meses, talvez anos.

Em Brasília, o governo brasileiro tenta se antecipar a esse debate. A equipe econômica prepara projeções de impacto setorial, enquanto a área ambiental busca apresentar salvaguardas para mostrar que exportações agrícolas crescem sem ampliar o desmatamento. Empresários pressionam por cronogramas claros de abertura, crédito para adaptação tecnológica e políticas industriais que evitem perda de competitividade.

O tratado abre também uma disputa silenciosa por investimentos em infraestrutura, logística e energia. Portos, ferrovias, corredores bioceânicos, redes 5G e projetos de hidrogênio verde entram no radar de empresas europeias e sul-americanas interessadas em capturar parte desse novo fluxo. A forma como Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai vão coordenar interesses internos pode definir o peso efetivo do Mercosul nessa nova etapa.

Lula aposta que o desfecho será favorável. Ao celebrar o acordo, tenta se colocar como articulador de uma inserção internacional mais ambiciosa para o Brasil, ao mesmo tempo em que promete proteção a empregos e ao meio ambiente. A resposta virá nos próximos anos, quando os efeitos sobre preços, competitividade e oferta de trabalho começarem a aparecer na vida do produtor rural, do trabalhador urbano e do consumidor comum.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *