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Lula e Petro discutem facções PCC e CV em meio a pressão dos EUA

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva conversa por telefone com o colombiano Gustavo Petro nesta quarta-feira (11.mar.2026) para tratar da escalada de tensão envolvendo as facções criminosas PCC e Comando Vermelho no Brasil. O diálogo ocorre em meio a ameaças dos Estados Unidos e à corrida por articulação política antes da próxima Cúpula da Celac.

Conversa em meio a pressão externa e crise interna

A ligação é direta entre Brasília e Bogotá e concentra dois eixos sensíveis para os dois governos: segurança regional e alinhamento diplomático na América Latina. Lula tenta calibrar a resposta às pressões vindas de Washington, que cobra ações mais duras contra o avanço do crime organizado e ameaça rever acordos de cooperação se não enxergar resultados concretos.

No Brasil, o Planalto acompanha com preocupação a movimentação das facções Primeiro Comando da Capital (PCC) e Comando Vermelho (CV), que disputam áreas de fronteira e rotas do tráfico. Relatórios reservados de inteligência, compartilhados com autoridades colombianas ao longo dos últimos meses, apontam crescimento da presença desses grupos em corredores estratégicos da Amazônia e do Centro-Oeste, com reflexos também na Colômbia e em outros países andinos.

A conversa com Petro ocorre a poucos dias da Cúpula da Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos (Celac), prevista para a segunda quinzena de março. Lula quer chegar ao encontro com propostas concretas de cooperação em segurança, inteligência e controle de fronteiras, e vê na Colômbia um parceiro essencial para tentar construir uma posição comum sul-americana diante das ameaças externas.

Interlocutores do governo admitem reserva pública, mas descrevem um ambiente de tensão crescente com os Estados Unidos. Em reservado, diplomatas relatam que emissários de Washington têm sinalizado, desde o fim de 2025, que a falta de resultados visíveis no combate às facções pode custar ao Brasil a suspensão de parte da ajuda técnica em áreas sensíveis, como rastreamento financeiro e monitoramento de cargas.

Lula tenta aproveitar o canal direto com Petro para reforçar um discurso de soberania regional diante de qualquer gesto interpretado como ingerência. Ao mesmo tempo, evita uma ruptura com os EUA, que seguem como principal parceiro comercial e político em temas como clima, investimentos e tecnologia. O equilíbrio é delicado e passa pela forma como Brasil e Colômbia expõem o tema da segurança na Celac.

Segurança regional, Celac e impacto político

No Palácio do Planalto, a ligação com Petro é tratada como parte de uma ofensiva diplomática maior, que inclui conversas com países vizinhos e preparação de documentos para a Cúpula da Celac. A avaliação de auxiliares é que a escalada de violência ligada a facções brasileiras já não é um problema restrito ao território nacional. Atinge portos, fronteiras secas e rotas aéreas que conectam Brasil, Colômbia, Venezuela, Peru e países da América Central.

Estados brasileiros de fronteira, como Amazonas e Mato Grosso, registram nos últimos anos aumento contínuo de apreensões de drogas e armas ligadas a redes controladas por PCC e CV. Em 2025, dados oficiais apontam crescimento de dois dígitos em ocorrências ligadas a facções nesses Estados, pressionando orçamentos locais e a atuação das forças de segurança federais. O temor de governadores é que a interiorização da disputa criminal amplie homicídios e ataques coordenados em cidades médias.

Na Colômbia, Petro enfrenta seu próprio tabuleiro complexo, em meio a negociações com grupos armados, dissidências das antigas Farc e organizações do narcotráfico. A aproximação com o Brasil, neste cenário, funciona como tentativa de construir soluções conjuntas para problemas que atravessam fronteiras e desafiam governos há mais de 30 anos. A coordenação em fóruns como a Celac ganha peso porque permite respostas regionais, e não apenas acordos bilaterais dispersos.

No Itamaraty, a aposta é que a Cúpula da Celac sirva de vitrine para um novo desenho de cooperação em segurança, com foco em inteligência, rastreamento financeiro e combate a armas e munições. Assessores defendem que uma iniciativa regional robusta, ainda que leve meses para sair do papel, pode reduzir a margem de pressão de Washington e reforçar a narrativa de que os países latino-americanos são capazes de coordenar suas próprias respostas.

O calendário complica a equação política. Os preparativos para a Celac apertam a agenda de Lula e podem encurtar ou até adiar um encontro com Donald Trump, que volta ao centro da cena internacional. Assessores veem risco de choques públicos de discurso, caso o tom do governo brasileiro na defesa da soberania regional desagrade a Casa Branca, mas avaliam que o custo de não reagir às ameaças também é alto no plano doméstico.

Próximos passos e disputa por liderança regional

A ligação com Petro funciona como teste para a capacidade de Lula de se colocar novamente como articulador regional, papel que exerceu em seus mandatos anteriores. O petista tenta construir, em poucos dias, um núcleo duro de países dispostos a assinar uma declaração mais firme na Celac sobre combate ao crime organizado e respeito à soberania, sem fechar portas para acordos com os Estados Unidos e outros atores globais.

A curto prazo, a tendência é que Brasil e Colômbia anunciem novos mecanismos de cooperação em fronteiras, possivelmente com grupos de trabalho mistos e cronogramas de ação. A médio prazo, o peso real dessa articulação vai depender de recursos, capacidade técnica e vontade política de sustentar medidas que mexem com interesses de facções, milícias e redes de lavagem de dinheiro.

Nos bastidores, auxiliares admitem que qualquer endurecimento contra PCC e CV tende a provocar reações. O histórico recente mostra que operações coordenadas levam, com frequência, a ataques contra agentes públicos, queimas de ônibus e tensões em presídios. A discussão com Petro também aborda formas de reduzir esses riscos, com reforço à proteção de policiais, juízes e servidores em áreas mais vulneráveis.

A Cúpula da Celac, marcada para ocorrer ainda em março, aparece como primeiro palco para testar a disposição dos países em transformar a retórica de integração em compromissos verificáveis. Lula e Petro chegam ao encontro pressionados por suas próprias opinões públicas, que cobram resultados num cenário de violência persistente, e por potências que tentam influenciar os rumos da política de segurança regional.

O desfecho da articulação em curso deve apontar se o Brasil consegue combinar liderança política, defesa de soberania e cooperação efetiva no combate ao crime transnacional, ou se a região seguirá reagindo de forma fragmentada a ameaças que ignoram fronteiras.

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