Ultimas

Lula e Macron selam ofensiva conjunta contra narcotráfico e garimpo

Lula e Emmanuel Macron se reúnem nesta quinta-feira (19), em Nova Délhi, para fechar uma ofensiva conjunta contra o narcotráfico e o garimpo ilegal na fronteira Brasil–França. À margem de uma cúpula sobre inteligência artificial, os presidentes também discutem defesa, tecnologia e comércio, em um movimento para reposicionar a relação bilateral em cenário de tensão global.

Fronteira sob pressão e disputa por influência

O encontro acontece durante a Cúpula sobre Impacto da Inteligência Artificial, na capital indiana, e coloca a Amazônia no centro de uma agenda que mistura segurança, meio ambiente e geopolítica. Segundo o Palácio do Planalto, Lula e Macron tratam de ações coordenadas para enfrentar o avanço do tráfico de drogas e do garimpo ilegal na divisa entre o Amapá e a Guiana Francesa, território ultramarino da França.

A região se consolida, há anos, como rota de escoamento de cocaína que sai da Amazônia brasileira rumo ao Caribe e à Europa. O garimpo ilegal pressiona terras indígenas, polui rios com mercúrio e alimenta redes criminosas que cruzam a fronteira com facilidade. A cooperação entre Brasil e França é vista, em Brasília e em Paris, como chave para fechar brechas usadas por quadrilhas que operam em ambos os lados.

O Planalto informa que os presidentes discutem integração transfronteiriça, com foco em operações conjuntas de fiscalização, troca de informações de inteligência e reforço de presença estatal em áreas de floresta densa e difícil acesso. A ideia é alinhar forças policiais, sistemas de monitoramento e ações ambientais, em vez de deixar cada país agir de forma isolada.

O encontro também serve para dissipar ruídos acumulados nos últimos anos, quando declarações francesas sobre a Amazônia provocam reações no Brasil. Agora, Lula e Macron buscam transformar o discurso de proteção da floresta em programas concretos de cooperação militar, científica e tecnológica, ancorados em interesses comuns na região amazônica.

Negócios em alta, mas abaixo do potencial

Os dois presidentes destacam que o intercâmbio comercial entre Brasil e França atinge 10,3 bilhões de dólares em 2025, o maior valor da série recente. O número destrava comemorações, mas também um diagnóstico incômodo: para Brasília e Paris, o volume ainda está aquém do peso das duas economias e do espaço disponível em setores como defesa, energia e tecnologia.

Na mesa, entram projetos de cooperação militar, parcerias em pesquisa científica e acordos na área de inovação. O diálogo em Nova Délhi mira desde satélites para monitoramento da Amazônia até parcerias industriais em defesa, além de estímulos a investimentos cruzados em energias renováveis e infraestrutura. O reforço dessa agenda econômica ocorre em paralelo à disputa global por cadeias produtivas menos dependentes de polos tradicionais como Estados Unidos e China.

Os presidentes aproveitam a cúpula de inteligência artificial para aproximar agendas. A discussão sobre IA, que oficialmente motiva a viagem à Índia, se mistura à preocupação com segurança digital, desinformação e vigilância de fronteiras. O Planalto informa que Lula e Macron tratam de cooperação em ciência e tecnologia, área que se torna cada vez mais central na conversa entre governos que buscam competir em inovação sem abrir mão de regulação.

Temas globais também entram na pauta. De acordo com o governo brasileiro, os dois líderes conversam sobre paz e segurança em um cenário marcado por guerras prolongadas e corrida tecnológica acelerada. Nesse contexto, Macron convida Lula a participar da Cúpula do G7 em Evian, programada para 15 e 16 de junho de 2026, reforçando o lugar do Brasil como interlocutor entre economias ricas e países em desenvolvimento.

Pressão por resultados e próximos movimentos

A aproximação entre Brasil e França ganha peso concreto na fronteira amazônica. A cooperação prometida tende a ser cobrada por moradores do Amapá, povos indígenas e ambientalistas que convivem com pistas clandestinas, rios contaminados e presença crescente de organizações criminosas. A eficácia de operações conjuntas, com apoio tecnológico francês, pode redefinir a dinâmica do crime na divisa com a Guiana Francesa.

Setores ligados à mineração ilegal e ao tráfico tendem a perder terreno, caso o plano saia do papel em ações sustentadas de fiscalização, bloqueio de rotas e rastreamento financeiro. Em sentido oposto, ganham órgãos de controle, comunidades tradicionais e empresas que dependem de previsibilidade jurídica para investir em cadeias produtivas legais na região. O resultado dependerá da capacidade de coordenação entre forças armadas, polícias, agências ambientais e sistemas de justiça dos dois países.

No tabuleiro internacional, o convite para o G7 em Evian funciona como sinal de que França e aliados europeus veem no Brasil um parceiro estratégico em debates sobre clima, segurança e inteligência artificial. A presença de Lula no encontro, se confirmada, amplia a margem de influência brasileira em temas como regulação de tecnologias emergentes, financiamento climático e reforma da governança global.

A reunião em Nova Délhi deixa uma equação clara: a cooperação anunciada só ganha credibilidade se produzir ações mensuráveis na fronteira e avanços palpáveis em comércio, defesa e inovação. Os próximos meses dirão se os anúncios desta quinta-feira se transformam em operações, investimentos e políticas de longo prazo ou se ficam restritos ao repertório cada vez mais extenso de promessas para a Amazônia.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *