Lula e Macron discutem Conselho da Paz e cobram ONU mais forte
Lula e Emmanuel Macron discutem por telefone, nesta terça-feira (27), a participação do Brasil no chamado Conselho da Paz e a necessidade de fortalecer a ONU. A conversa ocorre em meio à pressão do governo Donald Trump para atrair o Brasil ao novo fórum e após o recuo da França. O Planalto ainda não bate o martelo sobre a adesão brasileira.
Telefonema em meio a tabuleiro diplomático em movimento
O diálogo entre os presidentes do Brasil e da França dura pouco mais de meia hora e tem um foco central: como reagir ao convite direto de Donald Trump para que o Brasil integre o Conselho da Paz, iniciativa ainda pouco transparente, mas que já movimenta chancelarias em Washington, Brasília e capitais europeias. No centro da conversa está a avaliação de que qualquer nova instância de poder global só ganha legitimidade se reforçar, e não esvaziar, as Nações Unidas.
Segundo auxiliares ouvidos reservadamente, Lula reforça a Macron que não pretende tomar uma decisão sob pressão externa e que condiciona qualquer movimento brasileiro à preservação do sistema multilateral criado em 1945, após a Segunda Guerra. Macron, que nos últimos dias sinaliza distanciamento em relação ao desenho do Conselho da Paz, insiste na necessidade de “evitar estruturas paralelas que fragilizem a ONU” e defende uma reforma do Conselho de Segurança, hoje dominado pelos cinco membros permanentes com poder de veto.
Os dois presidentes conversam enquanto diplomatas dos dois países calculam custos e benefícios de se aproximar de uma proposta patrocinada pela Casa Branca de Trump, cuja política externa, desde 2017, alterna gestos de cooperação com ataques diretos ao multilateralismo. No Itamaraty, a avaliação é de que o convite representa uma rara oportunidade de projetar o Brasil como interlocutor de grandes potências, mas também um risco de alinhamento automático num cenário em que crescem tensões entre Estados Unidos, China e Rússia.
Ao mencionar o Conselho da Paz, Lula e Macron resgatam episódios recentes em que a ONU se mostra impotente diante de conflitos armados. Em 2024, o número de pessoas deslocadas por guerras e perseguições ultrapassa 120 milhões, segundo a agência de refugiados da própria entidade, que enfrenta cortes de financiamento e disputas políticas entre seus principais financiadores. O impasse sobre intervenções militares e sanções reforça a percepção de que o sistema criado há mais de 80 anos não responde com a mesma rapidez a crises que se espalham em semanas pelas redes sociais.
Disputa de influência e cálculo de poder
O telefonema desta terça-feira marca um novo capítulo da disputa por influência em torno do Conselho da Paz. Trump acena com a ideia de um fórum mais ágil, com número reduzido de integrantes e decisões tomadas por maioria simples, sem veto. A princípio, oferece assentos a países que considera aliados estratégicos em temas de segurança, entre eles Brasil, Reino Unido, Índia e Israel. A França, membro permanente do Conselho de Segurança desde 1945, participa das conversas iniciais, mas recua nas últimas semanas ao perceber o potencial conflito com a Carta da ONU.
No Brasil, a proposta divide ministérios e gera reações no Congresso. Ala do governo ligada à área econômica enxerga no convite uma chance de atrair novos investimentos e contratos militares, em especial em setores como defesa cibernética e venda de equipamentos. Na diplomacia, predomina a cautela. Assessores lembram que o país tenta há pelo menos 30 anos um assento permanente no Conselho de Segurança e teme que a entrada em um órgão paralelo cristalize uma hierarquia de “série B” para países emergentes.
Macron compartilha preocupações semelhantes. A França sofre pressão interna para defender o sistema multilateral clássico, um dos pilares de sua política externa desde os anos 1960. Parlamentares franceses da maioria e da oposição questionam a utilidade de uma nova instância de segurança se a ONU continua com orçamento anual superior a US$ 3 bilhões, além de missões de paz ativas em mais de dez países. Um conselheiro do Palácio do Eliseu resume o impasse: “Se for para enfraquecer a ONU, a França não entra”.
No telefonema, Lula busca mostrar que Brasil e França podem atuar de forma coordenada. Aposta em uma espécie de “frente de reforma” da ONU, com defesa de mandatos mais claros para operações de paz, revisão do uso do veto e inclusão de novos membros permanentes, entre eles países da América Latina e da África. Em público, o presidente brasileiro repete que “não há solução sustentável para paz global sem um Conselho de Segurança mais representativo”. A conversa com Macron reforça essa linha e envia um recado, ainda que indireto, à Casa Branca.
O que está em jogo para Brasil, França e ONU
A decisão sobre o Conselho da Paz tem impacto direto na imagem do Brasil em organismos multilaterais e em sua capacidade de mediar conflitos. Uma adesão rápida ao formato proposto por Trump pode aproximar Brasília da agenda de Washington em temas sensíveis, como sanções econômicas e operações militares seletivas, mas tende a criar atritos com parceiros do Sul Global que veem nas Nações Unidas o único espaço em que todos têm voz formal. Em números, mais de 190 países integram a ONU hoje, com direito a voto na Assembleia Geral, enquanto o Conselho da Paz nasce pensado para um grupo restrito de cerca de 15 integrantes.
Diplomatas brasileiros calculam que, se o país optar por ficar fora, corre o risco de assistir à consolidação de um núcleo duro de decisões de segurança sem cadeira para Brasília, como ocorreu no G7 nos anos 1980 e 1990. O governo aposta, porém, que o peso econômico do Brasil, que responde por aproximadamente 2,3% do PIB mundial, e sua participação constante em missões de paz da ONU desde a década de 1950 sustentam um papel relevante mesmo fora de arranjos desenhados pela Casa Branca. A França, ao recuar, tenta evitar a imagem de cúmplice de uma possível “bypass” à ONU, mas também monitora se outros europeus aderem à iniciativa.
A conversa desta terça-feira também repercute em Washington. Assessores de Trump veem no Conselho da Paz uma forma de contornar bloqueios no Conselho de Segurança, onde Rússia e China usam o veto para travar resoluções, e de premiar países alinhados com a visão da Casa Branca sobre terrorismo e migração. A leitura entre especialistas em relações internacionais é que a estratégia amplia o campo de disputa simbólica: ou se reforça o edifício da ONU, ou se constrói, tijolo a tijolo, uma arquitetura paralela de poder.
Próximos passos e incertezas
Ao fim do telefonema, Lula e Macron concordam em manter canais abertos e orientar suas equipes a explorar alternativas que fortaleçam a ONU, ainda que o debate sobre o Conselho da Paz avance. Nas próximas semanas, chanceleres dos dois países devem se encontrar em Nova York, à margem de reuniões preparatórias para a Assembleia Geral de setembro, para detalhar propostas de reforma que podem incluir prazos máximos para uso de vetos, metas de financiamento e critérios mais rígidos para intervenções militares.
No Brasil, a expectativa é que o governo apresente até o meio do ano, possivelmente em junho, uma posição oficial sobre o convite de Trump, depois de ouvir Congresso, Itamaraty e especialistas. A França, por ora, sinaliza que não volta ao desenho original do Conselho da Paz, mas admite apoiar algum tipo de mecanismo complementar desde que ancorado nas resoluções da ONU. O desfecho permanece em aberto e ajuda a definir se os próximos anos serão de reforço do multilateralismo clássico ou de fragmentação em clubes exclusivos de poder.
