Lula e Flávio chocam no debate final antes do 2º turno domingo
Debate decisivo na Globo destaca confronto direto entre Lula e Flávio, focando em temas polêmicos e o voto dos indecisos.

No último debate presidencial antes do segundo turno, na noite de sexta-feira, na TV Globo, Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL-RJ) transformam o estúdio no Rio em palco de confronto direto sobre segurança, custo de vida e ataques pessoais, com a presença da mãe da menina Ana Clara e a ofensa dos “nove dedos” entre os momentos mais duros.
O encontro encerra a série de debates da campanha e é a principal vitrine para alcançar os eleitores indecisos a dois dias da votação. No primeiro turno, Flávio Bolsonaro terminou à frente, com 47,03% dos votos válidos, contra 45,16% de Lula, o que aumenta o peso de cada gesto e frase no estúdio.
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Embate sobre segurança e caso Ana Clara marca a noite
Um dos pontos centrais do debate foi a segurança pública, em especial o caso da menina Ana Clara, morta em ação que tem como acusado um policial defendido por Flávio Bolsonaro. A mãe da criança acompanhou o programa no auditório, o que elevou a carga emocional do bloco.
Lula explorou o episódio para questionar a postura do adversário na defesa do policial e tentar colar em Flávio a imagem de insensibilidade. Colunistas ouvidos após o programa viram vantagem do petista nesse tema. “O presidente Lula perdeu algumas oportunidades, mas dominou a maior parte do debate, inclusive na parte da segurança”, avaliou um dos analistas, que atribuiu nota 3 ao desempenho do presidente, em escala de 1 a 5.
Flávio, por sua vez, reiterou a defesa de garantias legais ao policial e, em determinado momento, errou o nome da mãe de Ana Clara, o que foi apontado por comentaristas como um dos piores momentos de sua participação. “Flávio mostrou desenvoltura, repetiu promessas, mas tropeçou no caso da menina Ana Clara”, resumiu outro colunista.
Ofensa dos “nove dedos” vira munição para redes sociais
O ataque de Flávio a Lula, ao chamá-lo de “nove dedos” em referência ao acidente de trabalho que fez o petista perder um dedo na juventude, se tornou rapidamente o corte mais comentado da noite e deve ganhar vida própria nas redes sociais até a votação.
Lula reagiu com firmeza, transformando a ofensa em argumento de origem popular e trajetória de trabalho. Analistas apontam esse momento como o mais forte do presidente no confronto. Para um comentarista, Lula conseguiu converter a agressão em símbolo de dignidade do trabalhador, falando diretamente ao eleitor de renda média e baixa.
O próprio deboche, no entanto, foi visto como erro estratégico de Flávio, inclusive por avaliadores que lhe deram notas mais altas em outros quesitos. Um analista classificou o comentário como sinal de arrogância e capacitismo, com potencial para afastar mulheres e eleitores moderados.
Na análise de uma comentarista de rádio e TV, o episódio tende a dominar a conversa digital nos próximos dias. “O episódio do ‘nove dedos’ foi um momento que certamente vai dar às redes sociais cortes até o momento da eleição”, afirmou.
Linguagem da TV, tempo de fala e propostas econômicas
Apesar dos tropeços, Flávio Bolsonaro foi elogiado por parte dos especialistas pelo domínio do formato televisivo, controle de tempo e esforço em apresentar propostas, sobretudo na área econômica, como medidas para aliviar o endividamento das famílias e o custo de vida.
“Os candidatos apresentaram desempenhos consistentes, mas Flávio pode ter levado uma pequena vantagem, especialmente pelo esforço em apresentar propostas e pelo melhor controle do tempo ao longo do debate”, avaliou Denilde Holzhacker, professora da ESPM.
Murilo Aragão, cientista político da Arko Advice, destacou a estratégia de explorar o desgaste do governo. “Flávio adotou como estratégia explorar o desgaste do governo Lula e conseguiu apresentar mais propostas para o futuro do que o adversário”, disse.
Nesse aspecto, comentaristas de perfil mais alinhado à direita chegaram a apontar nova vitória do senador no confronto. “Flávio Bolsonaro vence o debate mais uma vez. Flávio foi menos Pablo Marçal e mais Tarcísio. Calmo, moderado, propositivo”, avaliou um analista, ao comparar o desempenho com o de debates anteriores.
Lula, em contraste, teve desempenho considerado oscilante em relação às regras do programa e ao manejo do tempo, mas foi visto como mais sólido quando levou o confronto para temas sociais, salário mínimo, Nordeste e defesa de políticas públicas.
Quem venceu o debate na Globo?
Não há consenso entre analistas sobre um vencedor claro, mas a maioria das avaliações vê uma ligeira vantagem para Lula, sobretudo na disputa pelos indecisos. Colunistas que atribuíram notas ao desempenho dos candidatos deram média 2,7 ao petista e 2,4 a Flávio Bolsonaro, em escala de 1 a 5.
Para Eduardo José Grin, professor da FGV, o presidente conseguiu falar melhor com o eleitor em dúvida. “Lula ganhou os indecisos. Vi algumas pesquisas qualitativas sobre o debate e elas indicam que Lula fez o dever de casa”, afirmou.
Parte dos especialistas, porém, enxerga um equilíbrio maior ou mesmo pequena vantagem para Flávio, em razão do tom moderado e da ênfase em propostas. Outros analistas consideram que o debate não produziu um vencedor nítido, reforçando imagens já cristalizadas de ambos.
Comentadores ligados ao campo bolsonarista foram mais categóricos ao declarar vitória de Flávio, apontando que Lula teria exagerado no tom agressivo e se atrapalhado com o formato. “Lula se embananou demais com as regras do programa, teve dificuldade em acompanhar a dinâmica do tempo e usou um tom acima, sempre de forma mais agressiva nas suas respostas”, disse um deles.
Entenda o contexto
O debate da Globo é tradicionalmente visto como o momento de maior exposição dos candidatos na reta final do segundo turno. Com a disputa deste ano aberta e margem apertada entre os presidenciáveis, a performance diante das câmeras ganha peso extra para quem precisa crescer entre indecisos e eleitores pouco engajados.
Enquanto Lula tenta defender seu governo e manter programas sociais no centro da discussão, Flávio aposta em críticas à gestão petista, no discurso de combate à corrupção e no apelo à segurança pública, tentando herdar o capital político construído pela família Bolsonaro nos últimos anos.
Qual o impacto do debate no segundo turno?
Especialistas ouvidos por diferentes institutos e veículos veem impacto direto, mas limitado, sobre o resultado de domingo. A avaliação majoritária é que o confronto tende a consolidar percepções já existentes e influenciar principalmente quem acompanha os desdobramentos pelas redes sociais, mais do que quem assistiu ao programa ao vivo.
Rafael Cortez, da Tendências Consultoria, avalia que o debate não teve “vencedor claro”, o que, em cenários apertados, costuma favorecer quem chegou à reta final na frente. Ainda assim, os cortes de maior repercussão — em especial o caso Ana Clara e o ataque dos “nove dedos” — são apontados como momentos que podem trabalhar a favor de Lula no universo digital, por combinarem emoção, biografia e contraste de perfis.
Dados de monitoramentos de redes sociais divulgados por empresas de análise indicam um ambiente dividido: um levantamento aponta ligeira vantagem para Lula na chamada “conversa digital”, enquanto outro registra empate técnico na percepção sobre quem venceu o confronto.
Analistas lembram que o público decisivo para o segundo turno nem sempre acompanha o debate completo na TV, mas consome trechos recortados em vídeos curtos, muitas vezes fora de contexto. É nesse campo que as campanhas já se movimentam desde a madrugada, impulsionando os momentos que consideram mais favoráveis.
Com o último confronto direto encerrado, as duas candidaturas concentram agora seus esforços em agendas de rua, entrevistas rápidas e, sobretudo, na guerra de narrativas online até o início da votação no domingo.


