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Lula diz que Ozempic não substitui caminhada e cobra mudança de hábito

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirma nesta sexta-feira (13/3/2026), no Hospital Andaraí, no Rio de Janeiro, que o remédio Ozempic não pode substituir caminhadas. Em discurso, ele defende que a perda de peso dependa de mudança de hábitos, alimentação saudável e acompanhamento médico.

Lula confronta entusiasmo com “canetinha” emagrecedora

O aviso de Lula vem minutos depois de o prefeito Eduardo Paes (PSD) exaltar a inclusão do Ozempic na rede municipal de saúde do Rio. Diante do presidente, Paes pede que o governo federal leve a chamada “canetinha emagrecedora” para o Sistema Único de Saúde em todo o país e pressiona o ministro da Saúde: “O povo quer Ozempic, presidente. Bota pilha no Padilha”.

Lula responde com um freio de arrumação. Ele diz que pessoas saudáveis que querem emagrecer devem priorizar a caminhada antes de recorrer a remédios. E resume a ideia em tom direto, típico de seus discursos: “As pessoas têm que aprender a tirar a bunda da cadeira e andar um pouco”. Na plateia, formada por profissionais de saúde, gestores e pacientes, o comentário arranca risos, mas o recado é sério.

O presidente descreve cenas corriqueiras para ilustrar o problema do sedentarismo: “O cara vai comprar pão, e aí vai de carro, vai na farmácia, pega o carro. Por que não anda um pouco? Tem que aprender que andar faz bem”. A fala ecoa dados do próprio Ministério da Saúde, segundo os quais mais de 47% dos brasileiros se declaram insuficientemente ativos, e doenças ligadas à obesidade pressionam o SUS ano após ano.

No palco do Hospital Andaraí, onde o governo inaugura o novo Setor de Traumas, Lula tenta equilibrar a expectativa criada em torno dos medicamentos de última geração com um discurso de responsabilidade. Ele não descarta o uso de Ozempic, mas enfatiza que o remédio não é solução mágica nem brinde de programa eleitoral.

Remédio em alta, SUS pressionado e risco de atalho fácil

A discussão se dá num momento em que o Ozempic, originalmente indicado para diabetes tipo 2, ganha fama como medicação para emagrecimento rápido. No Brasil, o produto entra em falta em algumas capitais nos últimos anos, à medida que cresce o número de prescrições fora da indicação original. Clínicas de estética e planos de saúde passam a oferecer o medicamento como símbolo de modernidade, e o debate sobre coberturas, custo e segurança se acirra.

Nesse cenário, o gesto de Paes de colocar o remédio na rede municipal, anunciado poucas semanas antes do evento, vira vitrine política. O frasco que custa centenas de reais na farmácia passa a ser tratado como um atalho para enfrentar a obesidade em grandes centros urbanos. A fala de Lula, porém, coloca um freio na ideia de que basta ampliar o acesso ao fármaco para resolver um problema que envolve alimentação, renda, urbanismo e cultura.

Ao responder ao prefeito, o presidente insiste que médicos precisam comandar o processo terapêutico, e não o marketing dos laboratórios ou o desejo imediato dos pacientes. “A gente não pode tirar do médico a obrigação de orientar as pessoas. Somos obrigados a orientar pessoas que têm de comer comida saudável”, afirma. Em seguida, Lula reforça que remédio sem mudança de rotina vira ilusão cara: “Você não pode dar de presente uma injeção para pessoas emagrecerem, se as pessoas querem comer quatro rabadas por dia e três feijoadas”.

A crítica não é ao uso do Ozempic em si, mas ao descolamento entre farmacologia e estilo de vida. Cardiologistas e endocrinologistas ouvidos nas últimas pesquisas da área repetem a mesma fórmula: o medicamento pode ser aliado importante, sobretudo em obesidade grave e em pacientes com outras doenças, mas sempre como parte de um plano que inclui dieta, atividade física e acompanhamento contínuo. Sem isso, o risco é trocar um problema crônico por outro, como o efeito sanfona e a frustração com a balança.

Na rede pública, a equação é ainda mais delicada. Cada paciente que usa Ozempic de forma continuada representa um gasto anual que pode ultrapassar alguns milhares de reais, a depender da dose. A expansão do uso sem critérios claros ameaça o orçamento de programas já pressionados, como o Farmácia Popular e o custeio de hospitais de alta complexidade. A fala do presidente sinaliza que, se o medicamento entrar no SUS nacional, deverá vir cercado de protocolos rígidos e campanhas de educação em saúde.

Pressão por acesso, protocolos em debate e o que vem pela frente

O embate simbólico no Andaraí antecipa uma discussão que tende a chegar à mesa da Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS (Conitec) e ao próprio Ministério da Saúde. Pressionado por prefeitos e governadores, o governo federal terá de decidir se incorpora ou não a classe de medicamentos do tipo semaglutida em larga escala e, em caso positivo, para quais perfis de pacientes, com quais metas e por quanto tempo.

Lula indica que não pretende ignorar a demanda, mas quer condicionar a oferta a um pacote mais amplo, que inclua orientação nutricional e incentivo real à atividade física. Caminhadas diárias, alterações na rotina alimentar e acompanhamento periódico em unidades básicas custam menos ao sistema e produzem ganhos de saúde que vão além da balança, reduzindo risco de infarto, AVC e diabetes. A dúvida é se esse discurso vai se traduzir em orçamento, programas e metas concretas já em 2026.

No curto prazo, a fala presidencial alimenta o debate público. Nas redes sociais, a tendência é que a frase “tirar a bunda da cadeira” circule tanto entre opositores, que veem grosseria, quanto entre defensores, que a enxergam como sinceridade necessária diante da onda de soluções milagrosas. Na comunidade médica, a declaração tende a ser lida como respaldo político à defesa de protocolos mais rígidos.

O próximo movimento virá de Brasília. Caberá ao Ministério da Saúde, a Padilha e sua equipe, transformar o recado em diretrizes para estados e municípios, seja para incorporar o Ozempic ao SUS, seja para restringir e orientar seu uso. Entre a caminhada prescrita por Lula e a canetinha celebrada por prefeitos, a política de saúde terá de responder à pergunta que fica pendurada no ar no auditório do Hospital Andaraí: até que ponto o país está disposto a pagar por atalhos quando ainda não garante o básico?

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