Lula desiste de ir à posse de Kast após confirmação de Flávio
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva desiste, de última hora, de ir à posse do chileno José Antonio Kast, marcada para 11 de março, em Valparaíso. A decisão vem poucos dias após o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) confirmar presença na cerimônia, onde pretende se apresentar como pré-candidato à Presidência em 2026.
Decisão de última hora expõe disputa de palanque
Lula tem viagem prevista para a terça-feira, 10 de março, mas recua na véspera. O Palácio do Planalto evita explicações formais e limita-se a informar que a agenda do presidente é “reavaliada continuamente”, sem detalhar os motivos da mudança. A ausência ocorre em um dos principais rituais diplomáticos da região, a transmissão de faixa presidencial no Chile, país que mantém relação estratégica com o Brasil em comércio, energia e integração regional.
Nos bastidores, auxiliares admitem desconforto com a presença de Flávio Bolsonaro, que confirma no domingo, 8 de março, ter recebido convite da equipe de Kast. O senador, filiado ao PL do Rio de Janeiro e herdeiro político do ex-presidente Jair Bolsonaro, diz à reportagem que vai ao Chile “a convite do novo governo, para fortalecer laços com quem defende liberdade econômica e combate ao socialismo”. A viagem, a pouco mais de oito meses do início formal da campanha de 2026, é tratada em seu entorno como primeiro ato de projeção internacional.
Palácio evita confronto direto com Flávio Bolsonaro
Assessores presidenciais avaliam que a imagem de Lula dividindo holofotes com Flávio em um mesmo evento, no exterior, alimentaria a narrativa de um duelo antecipado pela cadeira do Planalto. Em público, ninguém admite esse cálculo. Em privado, a leitura é que o senador exploraria cada fotografia, cada enquadramento, para se colocar como alternativa ao governo petista diante de chefes de Estado e da opinião pública brasileira.
A presença de Flávio na posse também tensiona uma relação já delicada entre o PT e Kast. O presidente eleito chileno, identificado com a direita dura e admirador declarado de Jair Bolsonaro, constrói sua carreira em oposição a líderes progressistas da região. Em 2021, na campanha anterior, ele chama Lula de “símbolo da corrupção latino-americana”. A vitória de Kast em 2026, após uma campanha marcada por críticas a governos de esquerda, reabre feridas ideológicas no Cone Sul.
Diplomacia mede custo político da ausência
A recusa em comparecer à posse rompe uma tradição recente. Em 2022, Lula visita o Chile em campanha e, em 2024, recebe o então presidente Gabriel Boric em Brasília com agenda cheia, que inclui discussões sobre integração energética e comércio. Em 2025, o intercâmbio comercial entre os dois países passa de US$ 13 bilhões, segundo dados oficiais, com superávit brasileiro de cerca de US$ 3 bilhões. A troca de governo em Santiago, agora, acontece sem a presença física do chefe de Estado brasileiro.
Diplomatas ouvidos sob reserva avaliam que o gesto não chega a configurar rompimento ou hostilidade aberta, mas é lido como sinal de cautela. Um embaixador da ativa resume: “Quando um presidente opta por não ir à posse de um vizinho importante, manda um recado. O conteúdo exato desse recado fica para ser decifrado pelos próximos movimentos”. A expectativa é que, para conter ruídos, o Itamaraty envie representante de alto escalão, possivelmente o chanceler, com mensagem escrita de Lula ao novo governo chileno.
Flávio busca protagonismo e se projeta para 2026
O protagonismo no palanque chileno tende a favorecer Flávio Bolsonaro no curto prazo. Ao ocupar lugar de honra em Valparaíso, ao lado de líderes conservadores da região, o senador explora um espaço que, nas últimas décadas, costuma ser dominado por presidentes em exercício. Em 2018, Jair Bolsonaro usa encontros com Donald Trump e Benjamin Netanyahu para consolidar sua imagem junto ao eleitorado de direita. Agora, Flávio tenta repetir a fórmula, em escala menor, com Kast.
No Brasil, a ausência de Lula alimenta a leitura de recuo estratégico. Parte da base governista defende que o presidente evite qualquer cena que fortaleça um adversário direto. Outra ala, mais ligada ao PT histórico, considera que não comparecer à posse de um vizinho, por cálculo eleitoral, enfraquece a construção de uma liderança regional consistente. A oposição, por sua vez, já se prepara para usar a decisão como argumento de que o governo “abandona” a diplomacia tradicional em nome da polarização interna.
Relação Brasil-Chile entra em fase de teste
A posse de José Antonio Kast ocorre em meio a rearranjos políticos na América do Sul. Governos de direita avançam em países-chave, enquanto coalizões de esquerda tentam preservar espaços de poder. O gesto de Lula, ao se ausentar, pode reposicionar o Brasil em um tabuleiro que inclui temas como acordos comerciais, integração em blocos regionais e coordenação em fóruns como Unasul e Celac. Um eventual esfriamento com o Chile, ainda que pontual, tem reflexo direto em negociações com o setor privado, de exportadores de carne a empresas de energia.
A diplomacia brasileira trabalha para evitar que a decisão se transforme em crise aberta. O Itamaraty avalia convite para uma visita oficial de Kast a Brasília ainda em 2026, como forma de normalizar a relação e afastar a leitura de boicote político. Até lá, permanece em aberto a pergunta que circula em gabinetes em Santiago e Brasília: a ausência de Lula é apenas um gesto de ocasião, calculado para não dividir holofotes com Flávio Bolsonaro, ou o primeiro sinal de uma mudança mais profunda na forma como o Brasil se posiciona diante de governos de direita na região?
