Lula defende neutralidade do Canal do Panamá em meio a pressão de Trump
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva defende nesta quarta-feira (28) a neutralidade do Canal do Panamá, em discurso no Fórum Econômico Internacional América Latina e Caribe, na Cidade do Panamá. O apelo ocorre em meio à escalada de tensões com os Estados Unidos, após críticas do presidente Donald Trump às tarifas cobradas pela rota que liga o Atlântico ao Pacífico.
Canal no centro da disputa geopolítica
Lula escolhe a primeira viagem oficial ao Panamá neste mandato para se posicionar sobre um dos principais pontos de atrito entre Washington e a região. Diante de autoridades e empresários da América Latina e do Caribe, ele afirma que o canal vem sendo “administrado de forma eficiente, segura e não discriminatória há quase três décadas” e precisa permanecer acessível a todos os países.
O Canal do Panamá concentra cerca de 5% do comércio marítimo mundial e movimenta anualmente centenas de bilhões de dólares em cargas. A cada dia, dezenas de navios cruzam os 82 quilômetros que separam o Atlântico do Pacífico, encurtando em até 13 mil quilômetros algumas rotas entre Ásia, América e Europa. A pressão de Trump sobre tarifas e controle da via preocupa governos e empresas que dependem do trânsito contínuo de mercadorias.
Desde o ano passado, o presidente norte-americano acusa o Panamá de cobrar taxas “excessivas” e ameaça rever o arranjo que garante a soberania panamenha sobre o canal desde 1999, quando os Estados Unidos encerram formalmente sua administração. Ele também afirma, sem apresentar provas, que o país teria cedido influência estratégica à China. Após sucessivas críticas, o governo panamenho decide permitir que navios de guerra dos EUA usem a passagem de graça e com prioridade, numa tentativa de esfriar a tensão.
Em público, o presidente José Raúl Mulino afirma, no início deste ano, que a crise com Washington está superada. Nos bastidores, porém, diplomatas de diferentes países admitem preocupação com a possibilidade de o canal voltar ao centro de uma disputa de poder entre grandes potências, reacendendo memórias do século 20, quando bases militares e intervenções externas marcam a história panamenha.
Soberania regional e integração em foco
No palco do fórum, Lula amplia o foco do discurso e vincula a neutralidade do canal à ideia de soberania regional. Ele afirma que a América Latina não pode aceitar “a divisão do mundo em zonas de influência e investidas neocoloniais com recursos estratégicos”, posição que ecoa em plateias sensíveis à história de intervenções militares e golpes apoiados por potências estrangeiras.
Ao mesmo tempo, o presidente faz questão de reconhecer momentos de cooperação com os EUA. “Também houve momentos em que os Estados Unidos souberam ser um parceiro em prol dos nossos interesses de desenvolvimento”, diz, numa tentativa de afastar a leitura de confronto direto com Washington e de preservar espaço para o diálogo.
O brasileiro usa o canal como símbolo de um projeto mais amplo de integração econômica. “Para uma integração regional duradoura e estratégica, é essencial envolver atores subnacionais, a sociedade civil e a iniciativa privada”, afirma. O recado se conecta a iniciativas concretas, como o programa Rotas de Integração Sul-Americana, que prevê dois corredores bioceânicos ligando o Brasil ao Pacífico por meio de portos chilenos, cruzando Bolívia, Paraguai e Argentina.
A agenda de Lula em Panamá inclui ainda encontros bilaterais para destravar projetos de infraestrutura, energia renovável, turismo e comércio. A conversa com o presidente eleito do Chile, José Antonio Kast, dura quase duas horas e é descrita como positiva por integrantes das duas equipes, apesar das diferenças ideológicas. A aposta é de que corredores logísticos mais eficientes reduzam custos de frete, encurtem prazos de exportação e diminuam a dependência de gargalos como o próprio Canal do Panamá.
Na prática, a defesa de neutralidade da via panamenha atende a interesses diretos de exportadores brasileiros de soja, carnes, minério e produtos industrializados. Parte relevante dessas cargas passa pelo canal rumo a mercados asiáticos e norte-americanos. Um aumento unilateral de tarifas, ou a adoção de critérios políticos para o uso da rota, teria impacto imediato nos preços finais e na competitividade da região.
Pressão de Trump e próximos movimentos
Donald Trump questiona as taxas do canal desde que assume a Casa Branca e volta a ameaçar “retomar o controle” da passagem estratégica, numa referência ao período anterior a 1999. A retórica agrava o clima entre Washington, Panamá e países latinos, que veem na fala um alerta sobre possíveis tentativas de reverter conquistas de soberania das últimas décadas.
Em 2022, o republicano acusa abertamente o Panamá de “explorar” os Estados Unidos com tarifas e, em discursos à sua base, sugere que o canal opera sob influência chinesa. A narrativa encontra eco em setores mais nacionalistas da política americana, mas provoca inquietação na comunidade internacional, que teme um efeito dominó sobre outros estreitos e passagens vitais para o comércio, como Ormuz e Malaca.
Ao se alinhar com a defesa da neutralidade, Lula busca reforçar uma frente regional em favor de regras claras, previsíveis e não discriminatórias no uso do canal. A sinalização interessa também a armadores europeus e asiáticos, que pressionam por estabilidade para planejar fretes e investimentos de longo prazo. Em cadeias produtivas que operam com margens apertadas e prazos rígidos, dias de atraso ou aumentos bruscos de custo podem paralisar fábricas inteiras.
Diplomatas envolvidos nas discussões avaliam que o tema deve ganhar espaço em fóruns multilaterais neste e no próximo ano, com possíveis resoluções de organismos regionais em defesa da neutralidade do canal. Países latino-americanos estudam coordenar posições em negociações comerciais com os Estados Unidos para reduzir a margem de manobra de pressões unilaterais sobre tarifas ou acesso prioritário.
O Brasil aposta em diálogo e em reforço da cooperação com o Panamá, evitando alimentar uma escalada verbal com Washington. Nos próximos meses, o Itamaraty pretende detalhar, com governos vizinhos, propostas de financiamento para novas rotas terrestres e portos alternativos no Pacífico. A disputa em torno do Canal do Panamá, mais do que um confronto imediato, expõe um dilema de longo prazo: até que ponto a região conseguirá defender sua autonomia estratégica sem romper com a principal potência econômica do planeta?
