Lula critica Trump e alerta para risco de governar pelo Twitter
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva volta a atacar o uso político das redes sociais e mira Donald Trump em discurso nesta terça-feira (20/1), em Rio Grande (RS). Ao participar da entrega de unidades do Minha Casa, Minha Vida, ele acusa o republicano de tentar “governar o mundo pelo Twitter” e alerta para o impacto da comunicação digital nas relações internacionais.
Lula ironiza Trump e mira diplomacia digital
Lula fala para um público de beneficiários do programa habitacional, autoridades locais e aliados políticos, mas o alvo principal está a milhares de quilômetros dali. Ao comentar o comportamento do ex-presidente dos Estados Unidos, ele transforma a cerimônia em palco para uma crítica direta ao estilo de comunicação que redefiniu a política global na última década.
“Vocês já perceberam que o presidente Trump quer governar o mundo pelo Twitter? É fantástico. Todo dia ele fala alguma coisa e todo dia fala da coisa que ele falou”, afirma Lula, em tom irônico. O petista não cita números, mas aponta para o efeito em cadeia de cada postagem: decisões, recados diplomáticos e ataques pessoais que circulam em segundos entre chefes de Estado, chancelerias e mercados.
A referência ao Twitter mira mais do que uma plataforma específica. Desde que foi banido das principais redes em 2021, após a invasão do Capitólio, Trump cria seu próprio megafone digital, o Truth Social, e segue usando o ambiente on-line como principal canal de pressão política. Lula recupera esse histórico e o conecta ao presente, num momento em que o debate sobre regulação das big techs volta à pauta em Brasília e em capitais europeias.
Trump ainda exibe esse estilo nos embates recentes com aliados ocidentais. Nas últimas semanas, o republicano volta a atacar o presidente francês, Emmanuel Macron, e critica a Dinamarca ao falar de disputas geopolíticas envolvendo a Groenlândia. As mensagens circulam rapidamente, são repercutidas por veículos de comunicação e ampliam tensões diplomáticas que, em outra época, ficariam restritas a notas oficiais e reuniões reservadas.
Lula tenta se colocar no lado oposto desse modelo. No discurso, ele sustenta que política externa exige previsibilidade, cuidado com as palavras e canais institucionais claros. A crítica não é apenas a Trump, mas a um modo de governar em tempo real, a partir de impulsos, sem mediação técnica ou diplomática. Para o Planalto, esse comportamento fragiliza acordos, alimenta crises e abre espaço para campanhas de desinformação.
Uso de celulares no Planalto também entra na mira
O presidente aproveita o gancho das redes para mirar um hábito que o incomoda dentro de casa: o celular nas reuniões oficiais. Ele desvia o foco do palco montado em Rio Grande para o cotidiano do gabinete, em Brasília, e relata episódios que, segundo ele, se repetem ao longo de 2025 e deste início de ano. “Todo deputado é viciado nisso (celular). Estava esperando se ia ter alguém com o celular, porque eu ia comer o fígado aqui”, dispara.
Lula afirma que proíbe a entrada de celulares na sua sala e no gabinete presidencial. A regra vale para ministros, assessores e visitantes que participam de encontros estratégicos. “Às vezes você está falando e fica olhando e as pessoas estão (olhando para o celular), não estão na reunião”, reclama. O recado é direto: quem ocupa cargo público precisa estar presente e concentrado, não fracionar a atenção entre uma negociação e a timeline.
A crítica se soma a um incômodo antigo do presidente com vazamentos em tempo real de conversas internas. Em mais de uma ocasião, aliados reclamam que trechos de reuniões fechadas aparecem nas redes poucos minutos depois do fim dos encontros. A restrição ao celular é, ao mesmo tempo, tentativa de preservar sigilo institucional e gesto simbólico num governo que tenta marcar distância do improviso permanente que marcou a gestão Trump em Washington.
O discurso em Rio Grande ocorre em meio à entrega de novas moradias do Minha Casa, Minha Vida, uma vitrine social do governo. Ao misturar a pauta habitacional com a crítica à hiperconectividade, Lula tenta costurar duas narrativas: a de um Estado que oferece políticas concretas, com valores definidos em contrato e prazos de entrega, e a de um ambiente político que, na visão dele, não pode depender de posts para funcionar.
Para especialistas em comunicação política e relações internacionais, a fala tende a reforçar a divisão entre estilos de liderança. De um lado, governantes que apostam em redes como instrumento quase exclusivo de contato com a população. De outro, líderes que defendem freios e contrapesos, com maior peso para a diplomacia tradicional, as entrevistas coletivas e as negociações reservadas em fóruns multilaterais.
Debate sobre regulação das redes ganha novo fôlego
A investida verbal contra Trump ocorre num momento em que o Congresso brasileiro volta a discutir regras para plataformas digitais, após meses de impasse em torno do chamado PL das Fake News. A crítica de Lula funciona como combustível político para retomada das negociações, ao reforçar a ideia de que o comportamento de líderes em redes sociais tem impacto direto sobre a segurança internacional, a economia e a qualidade da democracia.
Ao citar o caso de Trump, banido de grandes plataformas e hoje dependente de sua própria rede, Lula busca um exemplo extremo de como a comunicação digital pode escapar ao controle institucional. Governos europeus já pressionam empresas de tecnologia com novas regulações, como o Digital Services Act, em vigor na União Europeia desde 2024, que prevê multas bilionárias para redes que não combatem conteúdos ilegais. O Brasil ainda tateia um modelo próprio, entre pressões de big techs, partidos e sociedade civil.
No plano diplomático, a fala reforça a estratégia do governo brasileiro de se apresentar como ator previsível, disposto ao diálogo multilateral. Ao criticar a “diplomacia de tweet”, Lula tenta fortalecer a imagem de um Brasil que aposta em negociações lentas, mas estáveis, para tratar de temas como clima, comércio e segurança. O contraste com a retórica de Trump é útil para demarcar esse espaço, inclusive junto a aliados europeus desconfortáveis com oscilações na política externa norte-americana.
Dentro do país, o discurso sobre celulares e redes sociais ecoa em repartições públicas e gabinetes parlamentares. A exigência de atenção integral em reuniões pode alterar rotinas de trabalho, forçar adaptações em equipes que se acostumaram a responder mensagens em tempo real e aumentar o controle sobre vazamentos. Também abre uma discussão mais ampla sobre limites de privacidade e sobre o direito de servidores e parlamentares de registrar, por conta própria, o dia a dia das instituições.
Lula deixa o palanque em Rio Grande sem anunciar medidas concretas, mas com recados que vão além das obras inauguradas. Ao colocar Trump como exemplo de risco e ao apertar o cerco aos celulares no Planalto, o presidente prepara terreno para uma ofensiva política em duas frentes: a pressão por regras mais rígidas para as plataformas e a tentativa de recuperar o peso da conversa presencial na tomada de decisões.
Próximos passos e disputas em aberto
Os desdobramentos imediatos passam pelo Congresso, onde o governo tenta costurar uma nova versão de projeto para regular redes em ano de tensão eleitoral nos Estados Unidos e na Europa. A lembrança de Trump e de suas mensagens sobre Macron e a Dinamarca serve como alerta sobre o potencial de crises diplomáticas produzidas em poucos caracteres, sem consulta a diplomatas ou conselheiros técnicos.
No âmbito interno, a promessa de manter celulares longe das mesas de negociação no Planalto deve ser testada a cada nova reunião de emergência, a cada crise política, a cada disputa por espaço entre aliados. Se a regra vingar, o governo sinaliza que está disposto a desacelerar o ritmo imposto pelas notificações e a recuperar o valor da escuta atenta. Se fracassar, a imagem de um poder público capturado pela lógica da timeline continuará a assombrar a política brasileira nos próximos anos.
