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Lula critica Conselho da Paz de Trump e acusa EUA de quererem dominar a ONU

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva critica nesta sexta-feira (23/1), em Salvador, o Conselho da Paz proposto por Donald Trump e acusa os Estados Unidos de quererem ser “o dono da ONU”. Diante de milhares de militantes do MST, ele afirma que o multilateralismo está sob ataque e que o Brasil não aceitará “voltar a ser colônia”.

Lula leva disputa geopolítica ao palanque do MST

O 14º Encontro Nacional do MST, em Salvador, vira palco para um dos discursos internacionais mais duros de Lula desde o retorno ao Planalto. Em cerca de uma hora de fala, o presidente costura a tensão global, a crise da ONU, a guerra em Gaza, a instabilidade na América Latina e a disputa eleitoral brasileira de 2026.

Ao se dirigir a uma plateia que lota o centro de eventos, Lula afirma que o mundo vive um momento “delicado e perigoso” e acusa Washington de tentar substituir o sistema multilateral por uma instância sob comando norte-americano. “Ao invés de corrigir a ONU, como a gente reivindica desde 2003, o presidente Trump está fazendo uma proposta de criar uma nova ONU em que ele, sozinho, é o dono”, diz, ao criticar o chamado Conselho da Paz.

Na avaliação do presidente, a agenda da Casa Branca ameaça a Carta das Nações Unidas, em vigor desde 1945, e esvazia o papel do Conselho de Segurança, hoje dominado por cinco membros permanentes. “O multilateralismo está sendo jogado fora. Está prevalecendo a lei do mais forte, a Carta da ONU está sendo rasgada”, afirma, em referência a ações unilaterais e alianças restritas que ganham força desde a última década.

Lula vincula esse movimento à instabilidade em diversas regiões e cita, sem meias-palavras, a pressão dos Estados Unidos sobre conflitos recentes. Ao falar da América do Sul, menciona a crise na Venezuela e acusa potências estrangeiras de desrespeitar fronteiras. “Eu fico toda noite indignado com o que aconteceu na Venezuela. Como é possível a falta de respeito à integridade territorial de um país?”, questiona, defendendo a região como “zona de paz”.

Defesa do multilateralismo e recado à política externa

O discurso marca uma tentativa de reposicionar o Brasil na disputa geopolítica e reforçar a imagem de mediador que Lula persegue desde o primeiro mandato, em 2003. O presidente relata que passa a última semana ao telefone com chefes de Estado e de governo para montar uma frente em defesa do multilateralismo. “Eu estou há uma semana telefonando para todos os países tentando ver se é possível a gente arrumar uma forma de nos unir para não permitir que o multilateralismo seja jogado no lixo”, afirma.

Segundo ele, as conversas envolvem líderes de China, Índia, Hungria, México e integrantes do G20, grupo que reúne as 20 maiores economias do mundo e que responde por cerca de 80% do PIB global. A movimentação ocorre num momento em que o Brasil tenta manter influência em fóruns como os Brics, a CELAC e a própria ONU, ao mesmo tempo em que enfrenta pressão interna por resultados econômicos e sociais mais rápidos.

Lula insiste que o país não aceitará alinhamentos automáticos. “O Brasil não tem preferência de relação. O Brasil quer ter relação com os Estados Unidos, com Cuba, com a China, com a Índia, com a Rússia”, diz. Em seguida eleva o tom: “O que a gente não aceita mais é voltar a ser colônia para alguém querer mandar na gente”. A frase ecoa na plateia e funciona como síntese de sua estratégia: dialogar com todos, mas marcar distância de qualquer tutela.

A retórica vem acompanhada de uma defesa enfática da diplomacia e do desarmamento. “Eu não quero guerra. Eu sou um homem da paz”, afirma. Lula ironiza o discurso de força militar de Trump. “Toda vez que o presidente Trump fala na televisão, ele fala que tem o exército mais forte do mundo, as melhores armas. Eu fico olhando e falo: eu não tenho nada. Muitas vezes a gente nem tem dinheiro para comprar bala para treinar”, diz, arrancando risos, antes de emendar que a disputa precisa ocorrer no terreno político. “Eu não quero fazer guerra armada. Eu quero fazer guerra com o poder do convencimento, com argumento, com narrativa. A democracia é imbatível.”

Ao falar de conflitos, o presidente volta a criticar a ofensiva israelense em Gaza. “Mataram mais de 70 mil pessoas para depois dizer que vão recuperar a área e fazer hotel de luxo. E o povo pobre que morreu vai morar onde?”, pergunta, ao comparar a destruição no território palestino com desapropriações para habitação popular no Brasil. “Aqui, mesmo com divergência política, a gente desapropria, paga e coloca o povo para morar decentemente”, diz.

Impacto na política interna e nas alianças do Brasil

A fala em Salvador não se limita à geopolítica. Lula transforma o encontro do MST em ensaio de palanque para 2026 e em recado direto ao Congresso. Ao lembrar que o movimento já elege vereadores, prefeitos e deputados, adverte que a correlação de forças ainda é desfavorável. “Não adianta eleger dois deputados sem-terra e deixar eleger mais de 500 parlamentares que não têm compromisso com o povo”, afirma, numa referência à atual composição da Câmara, com 513 deputados.

O presidente defende a ampliação da presença de candidaturas ligadas ao campo progressista e associa a disputa eleitoral à defesa de uma política externa autônoma. Para ele, a resistência a projetos como o Conselho da Paz de Trump depende também de governos alinhados ao multilateralismo na região. “Nós queremos ser tetra. Vamos disputar as eleições. Não sei com quem, mas venha quem vier, nós vamos mostrar que esse é o ano da verdade”, afirma, ao acenar claramente para a reeleição.

No diagnóstico de assessores do Planalto, a crítica aos Estados Unidos ajuda a consolidar a imagem de Lula junto à base social organizada, ao mesmo tempo em que pode tensionar a relação com Washington em temas como meio ambiente, comércio e defesa. A aproximação com China, Índia, Cuba e Rússia, citadas no discurso, sinaliza um reforço das parcerias Sul-Sul e das articulações em torno dos Brics ampliados, que hoje já reúnem mais de dez países.

Na frente doméstica, o presidente aproveita a atenção nacional ao encontro para atacar a desinformação. “Quem tiver celular para contar mentira e espalhar fake news pode começar a guardar, porque a mentira não vai prevalecer”, afirma, ao indicar que o combate às notícias falsas será central na disputa eleitoral. Ele também dedica parte da fala à violência de gênero. “A luta contra o feminicídio não é uma coisa das mulheres, é uma coisa dos homens”, diz. “O cara que levanta a mão para bater em uma mulher não precisa votar em mim para presidente da República.”

Próximos movimentos no tabuleiro internacional

O Palácio do Planalto aposta que o discurso em Salvador ecoa nas próximas rodadas de negociação em organismos multilaterais. A crítica aberta ao Conselho da Paz proposto por Trump tende a alimentar debates em Nova York, Genebra e Brasília sobre a reforma da ONU e o futuro do Conselho de Segurança, tema que o Brasil levanta há pelo menos 20 anos.

Na prática, a ofensiva de Lula pode redefinir prioridades da política externa, deslocando ainda mais o eixo das conversas para países do chamado Sul Global. A estratégia, porém, cobra um preço: quanto mais tensiona com Washington, maior a necessidade de resultados concretos em comércio, investimentos e cooperação com novos parceiros. Ao encerrar o discurso, o presidente tenta mostrar confiança. “Eu não tenho arma, mas tenho coragem. E se depender de mim, a gente vai fazer muito mais”, diz. A pergunta que fica é se o Brasil conseguirá sustentar esse equilíbrio entre confronto retórico e negociação diplomática num mundo em que a “lei do mais forte” volta a testar os limites da ONU.

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