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Lula critica bombardeios na Venezuela e desafia hegemonia dos EUA

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva condena, em artigo publicado neste domingo (18.jan.2026) no The New York Times, os bombardeios dos Estados Unidos na Venezuela e a captura do líder do país vizinho. No texto, Lula afirma que a América Latina não aceitará intervenções militares externas e que o Brasil não será “subserviente a projetos hegemônicos”.

Lula leva disputa por soberania às páginas do NYT

O artigo, assinado por Lula e publicado em um dos jornais mais influentes do mundo, transforma a crise venezuelana em palco de uma disputa maior: o lugar da América Latina em um cenário ainda marcado por intervenções militares. Ao condenar os bombardeios e a captura do líder venezuelano por forças ligadas aos Estados Unidos, o presidente brasileiro busca projetar uma posição oficial clara de Brasília e, ao mesmo tempo, falar diretamente ao público e à elite política norte-americana.

No texto, Lula associa a operação militar ao que chama de “projetos hegemônicos” que tentam submeter governos da região a interesses externos. Defende que a solução para a crise política e humanitária na Venezuela passa por negociação, pressão diplomática e mediação regional, não por ataques aéreos nem mudanças de regime impostas. A escolha do The New York Times como veículo sinaliza uma mensagem calculada: o recado é dirigido a Washington, mas em linguagem destinada ao debate internacional.

Lula lembra que a América Latina convive, há mais de um século, com intervenções militares e campanhas de desestabilização apoiadas por potências estrangeiras. Cita episódios que vão de golpes apoiados durante a Guerra Fria a sanções econômicas recentes, e sustenta que esse padrão aprofunda crises em vez de resolvê-las. Ao reforçar a ideia de “autonomia política da região”, ele tenta reposicionar o Brasil como articulador de uma resposta coletiva, em linha com movimentos anteriores de integração e cooperação sul-americana.

Brasil busca protagonismo regional e reage a pressão externa

A publicação do artigo em 18 de janeiro de 2026 ocorre em meio a uma escalada militar que, em poucos dias, provoca dezenas de mortes na Venezuela, destrói infraestrutura estratégica e amplia o risco de conflito prolongado. Em Brasília, assessores veem a movimentação dos Estados Unidos como um teste de limites: até onde governos latino-americanos aceitam ações militares sobre o território de um país vizinho sem reação coordenada.

Lula usa o texto para fixar uma linha pública. Afirma que o Brasil “não aceitará que decisões sobre guerra e paz na região sejam tomadas sem a voz dos latino-americanos” e insiste que qualquer solução precisa respeitar a soberania venezuelana. O posicionamento contrasta com períodos em que o país evitou críticas diretas a Washington, especialmente em momentos de dependência econômica mais aguda. Agora, o Planalto aposta em maior margem de manobra, amparado por reservas internacionais robustas e por uma pauta de exportações mais diversificada do que há 20 anos.

A crítica à captura do líder venezuelano, em operação descrita por fontes militares americanas como “necessária para restaurar a democracia”, tensiona ainda mais a relação. Ao questionar a legitimidade da ação, Lula dialoga com a narrativa de países que veem na intervenção um atalho perigoso, com potencial de abrir precedente para ações semelhantes em outros pontos do continente. Diplomaticamente, o gesto pode custar atritos com setores do Congresso dos EUA, mas também reforça pontes com governos da região que desconfiavam da disposição do Brasil em confrontar o aliado histórico.

Nos bastidores, diplomatas brasileiros trabalham para transformar o artigo em ponto de partida de uma articulação mais ampla. Itamaraty consulta chanceleres de ao menos sete países sul-americanos para a criação de um grupo que proponha cessar-fogo imediato, envio de observadores internacionais e abertura de diálogo político interno na Venezuela em prazo de 90 dias. A estratégia tenta combinar a crítica à intervenção com uma oferta concreta de saída negociada, condição vista como central para evitar que o discurso se limite a gesto simbólico.

Intervenção na Venezuela reacende debate sobre soberania latino-americana

O impacto do artigo se mede além da política externa brasileira. Ao contestar a legitimidade dos bombardeios e da captura do líder venezuelano, Lula reforça argumentos de juristas e organismos multilaterais que alertam para violações do direito internacional. Especialistas lembram que o Conselho de Segurança da ONU não autoriza, até agora, nenhuma operação militar desse porte na Venezuela, o que torna a ação unilateral dos Estados Unidos alvo de questionamentos em cortes internacionais e fóruns diplomáticos.

Governos da região acompanham o movimento com atenção. Países que mantêm relações econômicas diretas com Washington, mas também dependem de acordos energéticos e comerciais com a Venezuela e o Brasil, calculam riscos. Um alinhamento aberto aos EUA pode gerar benefícios imediatos, como acesso preferencial a investimentos e créditos. A adesão à defesa da soberania regional, por outro lado, pode fortalecer a posição coletiva da América Latina em negociações multilaterais, mas tende a tensionar laços com a Casa Branca.

No plano interno, o gesto de Lula alimenta disputas políticas. Críticos acusam o governo de se aproximar novamente de Caracas e de relativizar denúncias de violações de direitos humanos na Venezuela. Aliados respondem que a defesa da soberania não impede a cobrança por eleições livres, liberdades civis e respeito a opositores. O texto no NYT, argumentam, tenta justamente separar a crítica à intervenção militar da conivência com práticas autoritárias, ao insistir em “soluções democráticas construídas pelos próprios venezuelanos”.

Próximos passos: pressão diplomática e disputa de narrativas

Nas próximas semanas, Brasília pretende levar a discussão formalmente a organismos como a Celac, a Unasul e a própria ONU. A ideia é converter a repercussão do artigo em propostas concretas, como resoluções condenando o uso de força sem aval multilateral e mecanismos regionais de prevenção de conflitos. A diplomacia brasileira avalia, inclusive, propor uma conferência extraordinária sobre segurança na América Latina ainda no primeiro semestre de 2026.

O texto de Lula no The New York Times funciona como ponto de virada: marca uma escolha por confronto político aberto com a lógica de intervenções externas e recoloca o Brasil no centro do debate sobre o futuro da região. A resposta de Washington e de outros governos latino-americanos vai definir se essa aposta resulta em nova arquitetura de segurança regional ou em mais um capítulo de uma história recorrente de tensões assimétricas entre o Norte e o Sul. A disputa, agora, se trava tanto no campo diplomático quanto no das narrativas, e o desfecho permanece em aberto.

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