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Lula confirma viagem aos EUA para encontro pessoal com Donald Trump

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva confirma, para o início de março de 2026, uma viagem aos Estados Unidos para um encontro pessoal com Donald Trump. A reunião, fruto de uma conversa telefônica recente, mira o fortalecimento do diálogo político e das relações bilaterais entre os dois países.

Ligação telefônica abre caminho para encontro inédito

A confirmação da viagem ocorre poucas horas após uma ligação direta entre Lula e o ex-presidente norte-americano. Assessores do Planalto descrevem a conversa como “cordial” e “objetiva”, com foco na retomada de canais de diálogo que ficaram estremecidos nos últimos anos. O encontro presencial é previsto para a primeira quinzena de março, em cidade ainda em definição, com Washington e Nova York entre as opções consideradas.

Lula decide tornar pública a viagem logo após o telefonema, em movimento calculado para sinalizar transparência e testar a reação interna e externa. A equipe de comunicação do governo trabalha com a leitura de que uma aproximação direta com Trump, mesmo fora do poder, pode funcionar como ponte com setores conservadores dos Estados Unidos e com parte do empresariado que se mantém próximo ao republicano. Nos bastidores, auxiliares veem o gesto como tentativa de reposicionar o Brasil como interlocutor relevante em um cenário global fragmentado.

Diplomacia em terreno sensível e de alto risco político

O encontro representa um marco delicado para a política externa brasileira. Trump, que deixa a Casa Branca em janeiro de 2025 após um ciclo de forte polarização política, segue como figura central na direita norte-americana. A decisão de Lula de sentar à mesa com ele, em 2026, contrasta com a postura de distância adotada em relação a lideranças populistas em outros países. A aproximação, porém, é vista por diplomatas como uma aposta pragmática diante de um cenário eleitoral ainda incerto nos Estados Unidos.

Interlocutores afirmam que a pauta da reunião inclui comércio, transição energética e eventuais parcerias em infraestrutura. O fluxo comercial entre Brasil e Estados Unidos soma cerca de US$ 100 bilhões por ano, com saldo variável entre superávit e déficit conforme o câmbio e o preço das commodities. A avaliação no Itamaraty é que uma reconfiguração do diálogo com figuras-chave do establishment republicano pode destravar projetos em áreas como tecnologia, defesa e agronegócio. Em conversas reservadas, um diplomata resume o cálculo político: “O Brasil não pode ignorar Trump, mesmo fora da Presidência. Ele segue falando com metade da América”.

Impactos econômicos e recalibragem estratégica

A leitura de economistas e analistas de comércio exterior é que a movimentação de Lula pode influenciar diretamente negociações bilaterais em curso. O agronegócio acompanha de perto qualquer sinal de abertura adicional do mercado norte-americano para carne bovina, etanol e produtos industrializados ligados à cadeia de alimentos. Exportações brasileiras para os EUA, que giram em torno de 12% do total, podem ganhar espaço caso se consolidem acordos específicos em setores como aço, alumínio e manufaturados de alto valor agregado. Um consultor que assessora empresas brasileiras com presença nos EUA avalia que “um gesto político bem calculado pode economizar anos de lobby”.

Há, ao mesmo tempo, risco de desgaste com outros parceiros estratégicos. A União Europeia acompanha a movimentação com cautela, em meio às suas próprias disputas comerciais com Washington. A China, principal parceiro comercial do Brasil, observa qualquer sinal de realinhamento político com os Estados Unidos, ainda que a viagem seja apresentada como gesto pontual e pragmático. Integrantes do governo reforçam que a prioridade continua sendo uma política externa “multivetorial”, com equilíbrio entre Washington, Bruxelas e Pequim. Mas admitem, em privado, que uma foto de Lula ao lado de Trump pode redesenhar percepções sobre o lugar do Brasil em disputas geopolíticas.

Repercussão política interna e próximos passos

No Brasil, a notícia da viagem chega a um ambiente político ainda marcado pela polarização. Aliados de Lula na esquerda já demonstram desconforto diante da aproximação com o ex-presidente republicano, crítico de agendas ambientais e de direitos humanos. O Planalto aposta em uma narrativa de responsabilidade institucional. “O presidente fala com quem for necessário para defender o interesse do Brasil”, argumenta um auxiliar direto, sob reserva. A oposição, por sua vez, tende a explorar o encontro como sinal de contradição, lembrando as críticas que o PT fez a Trump ao longo da década anterior.

A viagem, prevista com duração de três a quatro dias, deve incluir reuniões com empresários, encontros com membros do Congresso norte-americano e, possivelmente, participação em um evento público ao lado de Trump. A agenda final só deve ser divulgada nas próximas semanas, após definição do local exato e dos formatos de segurança. Em gabinetes diplomáticos, a expectativa é que, mais do que fotos e discursos, o resultado seja medido nos meses seguintes, em decisões concretas sobre investimentos, tarifas e cooperação política. A pergunta que se impõe, dentro e fora do Brasil, é se um encontro de algumas horas entre Lula e Trump será capaz de alterar, de forma duradoura, o eixo da relação entre os dois países.

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