Lula confirma viagem a Washington para encontro bilateral com Trump
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva confirma que viaja a Washington, após a agenda de fevereiro na Índia e na Coreia do Sul, para um encontro bilateral com Donald Trump. A reunião, em data ainda a definir pelas equipes diplomáticas, coloca na mesma mesa o Conselho da Paz para Gaza, comércio, tarifas e cooperação em segurança. O movimento consolida a aproximação recente entre Brasília e a Casa Branca em um cenário de multilateralismo em crise.
Telefonema de 50 minutos redefine o tom da relação
A decisão de Lula amadurece em um telefonema de cerca de 50 minutos com o presidente norte-americano, na manhã de segunda-feira, em Brasília. No diálogo, divulgado pelo Palácio do Planalto, os dois trocam sinais de pragmatismo e deixam em segundo plano as divergências ideológicas dos últimos anos. Trump apresenta o Conselho da Paz, seu novo fórum para tratar da guerra em Gaza, enquanto Lula tenta moldar a iniciativa a parâmetros mais próximos do direito internacional.
O presidente brasileiro defende que a Palestina tenha um assento formal no colegiado proposto pelos Estados Unidos. Argumenta que a presença palestina amplia a legitimidade das discussões e insiste para que o grupo tenha escopo restrito, voltado exclusivamente à Faixa de Gaza e à ajuda humanitária. Ele evita, porém, anunciar se o Brasil aceitará integrar o Conselho, convite já feito pela Casa Branca e ainda em análise pelo Itamaraty.
Nos bastidores, auxiliares de Lula tratam o conselho como uma arena de risco duplo. De um lado, é a chance de o Brasil sentar ao lado das grandes potências em um palco de crise global. De outro, pode reforçar a percepção de que Washington tenta construir uma estrutura paralela à Organização das Nações Unidas, sob controle direto da Casa Branca. Lula volta a repetir, na conversa com Trump, a defesa histórica de uma reforma ampla da ONU e da ampliação dos assentos permanentes no Conselho de Segurança, bandeira brasileira desde os anos 1990.
A cautela atual ecoa declarações feitas por Lula em Salvador, na semana anterior. Em público, ele diz ver com reservas um fórum criado à margem dos ritos multilaterais, ainda que dedicado à paz. A hesitação contrasta com o tom mais direto em temas econômicos, onde o governo enxerga ganhos objetivos no curto prazo. As equipes diplomáticas agora trabalham em uma janela provável de viagem para o início do primeiro semestre de 2026, depois das missões oficiais à Ásia.
Economia, tarifas e segurança pesam na balança
O telefonema também mira o bolso. Os dois presidentes celebram a eliminação de parte significativa das tarifas impostas a produtos brasileiros nos últimos anos, em especial itens ligados ao agronegócio e à indústria de base. A mudança atenua meses de tensão no comércio bilateral e abre espaço para novos contratos em setores como aço, celulose e alimentos processados, que juntos movimentam dezenas de bilhões de dólares por ano entre os dois países.
Trump afirma, segundo relato oficial, que o crescimento das duas maiores economias das Américas beneficia toda a região. Lula responde com números internos positivos e insiste em previsibilidade nas regras comerciais. A avaliação no Planalto é que, em um ambiente internacional cada vez mais protecionista, garantir acesso ao mercado norte-americano vale tanto quanto fechar novos acordos com o Brics. O cientista político Márcio Coimbra, CEO da Casa Política e ex-diretor da Apex-Brasil, resume o tom do dia como “pragmatismo econômico monumental”.
Para ele, Lula aceita jogar segundo as regras do “America First” para blindar exportações e reduzir o risco de novas barreiras. “O levantamento das tarifas sobre produtos brasileiros é a maior prova dessa ‘vitória técnica’ do Planalto”, afirma Coimbra. Na leitura do analista, o Brasil calibra o discurso democrático à realidade das planilhas de comércio exterior e escolhe priorizar a sobrevivência competitiva de sua indústria e de seu agronegócio.
Segurança também entra na pauta com mais peso. Lula menciona a Trump uma proposta já enviada ao Departamento de Estado para ampliar a cooperação contra o crime organizado. O projeto inclui troca de informações sobre lavagem de dinheiro, rastreamento de transações financeiras suspeitas, combate ao tráfico de armas e congelamento de ativos de organizações criminosas com atuação transnacional. A Casa Branca reage positivamente e indica disposição para negociar acordos operacionais entre polícias e agências de inteligência.
A Venezuela aparece como teste imediato desse alinhamento seletivo. Lula enfatiza a necessidade de paz e estabilidade regional e fala no bem-estar do povo venezuelano, mas evita confrontar diretamente a estratégia de força adotada por Washington. Para Coimbra, esse silêncio relativo sinaliza uma “aceitação tácita” de uma nova hierarquia de poder no continente. “A retórica da soberania ferida deu lugar ao cálculo frio”, diz, ao lembrar que o governo brasileiro depende das exportações para sustentar sua agenda de crescimento.
Brasil se move entre Brics, ONU e Casa Branca
A viagem a Washington se encaixa em um tabuleiro mais amplo. Lula ainda aposta no Brics como plataforma de influência do Sul Global e mantém a defesa de um assento permanente para o Brasil no Conselho de Segurança da ONU. Ao mesmo tempo, aceita discutir um Conselho da Paz concebido pela Casa Branca para operar fora dos ritos onusianos. Na avaliação de Coimbra, o país se posiciona como “Estado-pivô” entre blocos em disputa, tentando traduzir demandas do Sul para um governo norte-americano imprevisível.
A participação brasileira no Conselho da Paz segue em aberto e é o ponto mais sensível da agenda bilateral. Se aceitar a cadeira, o Brasil ganha visibilidade imediata na gestão da crise em Gaza, mas corre o risco de reforçar o esvaziamento da ONU, pilar de sua diplomacia desde a redemocratização. Se recusar, pode perder espaço em um fórum que, goste ou não, tende a concentrar decisões práticas sobre cessar-fogo e ajuda humanitária no curto prazo.
O cálculo envolve também a política interna. Uma aproximação explícita com Trump desperta resistência em setores da esquerda e do Itamaraty, que enxergam na iniciativa a tentativa de contornar o sistema multilateral e relativizar valores democráticos. Ao mesmo tempo, empresários pressionam por previsibilidade nas exportações, redução de tarifas e segurança jurídica nas operações bilaterais. A visita a Washington busca equilibrar essas pressões e transformar uma relação historicamente oscilante em parceria de conveniência.
As próximas semanas serão dedicadas a acertar datas, protocolar a agenda e calibrar anúncios. Em público, o governo deve insistir na defesa da ONU e na necessidade de incluir a Palestina em qualquer esforço de paz em Gaza. Nos bastidores, negociadores seguem medindo quanto o Brasil está disposto a ceder em legitimidade multilateral em troca de ganhos concretos em comércio e segurança. A resposta, provavelmente, só fica clara quando Lula desembarcar em Washington e mostrar, na prática, até onde vai esse novo realinhamento.
