Lula avança em negociação de palanque em Minas e sonda Josué Gomes
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva intensifica neste início de 2026 as negociações para montar um palanque competitivo em Minas Gerais. Ele sonda o empresário Josué Gomes da Silva para disputar o governo mineiro e tenta fechar uma aliança ampla para enfrentar a direita no segundo maior colégio eleitoral do país.
Minas volta ao centro do tabuleiro eleitoral
O movimento de Lula recoloca Minas Gerais no centro da estratégia nacional do governo para as eleições de 2026. O estado, com mais de 16 milhões de eleitores em 2022 e peso histórico em disputas presidenciais apertadas, volta a ser tratado pelo Planalto como território decisivo para a reeleição. A eleição está marcada para janeiro de 2026, e o relógio eleitoral já corre em Brasília e em Belo Horizonte.
Depois de meses à espera de um posicionamento do presidente do Senado, Rodrigo Pacheco (PSD-MG), que nunca confirma se topa entrar na disputa estadual, Lula decide abrir outra frente. O petista retoma o diálogo com um velho aliado de confiança: a família de seu ex-vice José Alencar, morto em 2011, que o acompanhou em toda a primeira passagem pelo Planalto. Nesse contexto, emerge o nome de Josué Gomes da Silva, herdeiro político e empresarial de Alencar.
Josué, ex-presidente da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), é visto no Planalto como uma ponte com o empresariado e como um rosto capaz de suavizar resistências ao PT em Minas. Integrantes da articulação política avaliam que sua imagem de gestor e a memória positiva do pai, que foi vice-presidente entre 2003 e 2010, ajudam a ampliar o alcance do palanque lulista para além do campo tradicional da esquerda.
Sondagem de Josué e disputa interna por espaço
As conversas em torno de Josué avançam com a hipótese de filiação dele ao MDB. A sigla, que ocupa posição estratégica no Congresso e mantém presença capilar nas cidades mineiras, é vista como parceira-chave para qualquer composição majoritária. O desenho em estudo passa por uma candidatura de centro, ancorada no apoio direto de Lula e em alianças com partidos hoje na base governista.
Josué não assume publicamente o projeto, mas interlocutores do governo relatam que ele escuta as sondagens e pede tempo para avaliar o cenário econômico e político. A eventual entrada do empresário na disputa mexe com nomes já colocados. O ex-prefeito de Belo Horizonte Alexandre Kalil, atualmente no PDT, continua no radar como opção competitiva, especialmente na capital e na Região Metropolitana. Já o presidente da Assembleia Legislativa de Minas, Tadeu Leite (MDB), tenta se firmar como solução interna do partido e se movimenta em agendas pelo interior para aumentar sua exposição.
No entorno de Lula, a avaliação é que uma definição até o segundo semestre de 2025 evita dispersão de forças e reduz o risco de racha na base. O presidente busca um acordo que acomode Kalil, Tadeu e outras lideranças locais em uma mesma aliança, seja com Josué na cabeça de chapa ou com outro arranjo. Uma das preocupações é não repetir impasses de eleições passadas, quando a demora na escolha do candidato fragiliza o palanque estadual e limita o desempenho presidencial.
A memória de disputas recentes pesa nas conversas. Em 2018 e 2022, Minas se consolida como fiel da balança em cenários polarizados. Em 2022, a diferença entre Lula e Jair Bolsonaro no estado, de poucos pontos percentuais, ajuda a definir o resultado final. O diagnóstico agora é que um palanque pouco estruturado em Belo Horizonte e nas grandes cidades abre espaço para o avanço da direita e reduz a margem de manobra do governo federal.
Impacto nacional e disputa com a direita em Minas
O cálculo político leva em conta não apenas a eleição para o governo, mas o efeito direto na campanha presidencial. Um candidato alinhado a Lula, com trânsito entre empresários, prefeitos e lideranças locais, pode aumentar a presença do presidente em palanques regionais, atrair recursos e organizar a militância. A aposta em Josué mira justamente esse tripé: memória de José Alencar, credibilidade no setor produtivo e discurso moderado.
Minas representa hoje um contraponto importante à força da direita em estados como São Paulo, Rio de Janeiro e Paraná. Uma vitória lulista no maior estado da região Sudeste reforça a narrativa de equilíbrio regional e dificulta a construção de uma onda conservadora nacional. No Planalto, auxiliares descrevem a disputa mineira como uma “batalha-ponte”: quem vence em Minas tende a chegar mais competitivo ao restante do país.
A movimentação em torno de Josué também provoca reação da oposição e de grupos que orbitam o governador Romeu Zema, hoje um dos principais nomes do campo liberal de direita. Aliados do governador observam com atenção qualquer aproximação do empresariado mineiro com o Planalto. A presença de um candidato associado a Lula com bom diálogo no setor privado pode reduzir a margem de manobra de lideranças locais identificadas com a agenda liberal.
Dentro da base aliada, prefeitos de médio porte veem na definição rápida do palanque uma forma de organizar alianças municipais e garantir repasses de emendas e programas federais. A montagem das chapas proporcionais para a Assembleia Legislativa e para a Câmara dos Deputados também depende do desenho final da candidatura ao governo, o que torna a decisão ainda mais sensível para partidos como MDB e PDT.
Corrida contra o tempo e cenário em aberto
Nos bastidores, a ordem é manter as negociações sem vazamentos excessivos, para evitar desgaste prematuro de nomes em avaliação. Lula, no entanto, já indica a aliados que não pretende chegar a 2026 sem um comando claro em Minas. A janela de filiação partidária do próximo ano funciona como limite prático para que Josué, Kalil ou Tadeu definam caminhos.
O cenário segue em construção e depende também de variáveis externas, como o desempenho da economia, o humor do eleitorado com o governo federal e o grau de unidade da direita mineira. A escolha de quem vai encarnar o palanque de Lula no estado deve balizar não só os arranjos regionais, mas a própria narrativa nacional da campanha. A pergunta que circula hoje em Brasília e Belo Horizonte é simples e ainda sem resposta: quem será o rosto de Minas Gerais na reeleição de Lula em 2026?
