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Lula aposta em encontro direto com Trump e prega saída interna para crise na Venezuela

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva defende um encontro direto, “olho no olho”, com Donald Trump no início de março para reforçar laços econômicos e institucionais entre Brasil e Estados Unidos. Ao mesmo tempo, adota tom cauteloso sobre a crise na Venezuela e insiste que a solução deve partir do próprio povo venezuelano, sem intervenção externa.

Diálogo direto com Trump em meio a rearranjo global

Lula volta a colocar a relação com Washington no centro de sua agenda externa. Ele afirma que Brasil e Estados Unidos são “as duas principais democracias do Ocidente” e que a conversa com Trump precisa ser franca, sem intermediários. O encontro é esperado para o começo de março, em um momento em que os dois países tentam reposicionar suas economias diante de juros altos, disputa tecnológica com a China e instabilidade política na região.

O presidente descreve a ideia de uma conversa pessoal, “olhando um no olho do outro”, como forma de destravar agendas represadas desde a pandemia. A avaliação no Planalto é que a interlocução direta pode abrir espaço para novos acordos em comércio, energia, transição verde e reindustrialização, áreas em que o Brasil busca atrair investimentos bilionários até 2030. Lula ressalta que o foco está em fortalecer o diálogo institucional, mais amplo que a mera afinidade entre governos de turno.

Soberania da Venezuela no centro da discórdia

A aproximação com Trump ocorre enquanto a crise venezuelana volta a pressionar a diplomacia regional. A presença militar dos Estados Unidos em território venezuelano e o enrijecimento de sanções reacendem o temor de escalada. Lula tenta se equilibrar nesse cenário. Ele afirma que pretende conversar com a liderança venezuelana nos próximos dias, mas rejeita abertamente o papel de tutor internacional.

“Quem vai encontrar uma solução para o povo da Venezuela é o próprio povo venezuelano. Não será o Brasil, não serão os Estados Unidos”, afirma. A frase resume a linha escolhida pelo Palácio do Planalto: reconhecer o impasse político em Caracas, mas barrar qualquer sinal de intervenção externa. Para Lula, cabe à comunidade internacional respeitar a autodeterminação e “agir com paciência”, criando condições para que os venezuelanos definam seu destino por meio de negociações internas.

O posicionamento difere da postura adotada por parte dos governos da região entre 2017 e 2019, quando mais de 50 países passaram a reconhecer um governo paralelo em Caracas. A estratégia não produz resultados concretos, mas deixa um rastro de desgaste diplomático. Ao insistir na soberania venezuelana, o Brasil tenta se recolocar como mediador e não como lado em uma disputa que envolve petróleo, fronteira sensível na Amazônia e o destino de mais de 7 milhões de refugiados espalhados pela América do Sul e pelos Estados Unidos.

Honraria no Panamá e busca por protagonismo regional

O discurso sobre diálogo e autonomia dos vizinhos se projeta também na agenda de Lula no Panamá. O presidente chega ao país centro-americano para participar de um fórum de líderes da América Latina e do Caribe e será condecorado na quarta-feira (28) com a Ordem Manuel Amador Guerrero, a maior honraria panamenha. A comenda, criada em 1903 em homenagem ao primeiro presidente do Panamá, é reservada a chefes de Estado e autoridades estrangeiras que fortalecem a relação com o país.

A entrega da ordem ocorre em meio a discussões sobre integração regional, infraestrutura e o papel do Canal do Panamá em cadeias globais de comércio. Ao receber a honraria em um dos principais corredores marítimos do planeta, Lula reforça a mensagem de que a América Latina não quer apenas reagir às grandes potências, mas influenciar decisões sobre logística, clima e financiamento internacional. A presença brasileira busca converter simbolismo diplomático em espaço concreto de negociação.

Impacto econômico e disputa por influência

A aproximação com Trump tem peso direto na economia. Os Estados Unidos são o segundo maior parceiro comercial do Brasil, movimentando mais de US$ 100 bilhões por ano em exportações e importações. O Planalto enxerga margem para ampliar esse fluxo em setores como agronegócio, combustíveis, semicondutores e energias renováveis, além de destravar investimentos produtivos de longo prazo. Um aceno político bem-sucedido pode acelerar projetos hoje parados em burocracias dos dois lados.

Um alinhamento mínimo em temas sensíveis, como transição energética e segurança de dados, também influencia a capacidade de o Brasil obter recursos em bancos de desenvolvimento e fundos climáticos. Em paralelo, a insistência de Lula na soberania venezuelana envia recado à Casa Branca e a aliados europeus: qualquer saída duradoura na Venezuela precisa incluir diálogo interno, anistias negociadas e garantias eleitorais, em vez de ações militares ou bloqueios econômicos mais duros.

Essa postura pode gerar atritos com setores nos Estados Unidos que defendem pressão máxima sobre Caracas, mas reforça a imagem do Brasil como mediador disposto a falar com todos os lados. Países vizinhos, como Colômbia e México, observam o movimento. Se o Brasil conseguir manter conversas abertas com Washington e com a Venezuela, pode recuperar parte da influência perdida na década passada, quando crises internas reduziram o peso de Brasília nas mesas multilaterais.

Próximos passos e incertezas

As próximas semanas são decisivas para transformar discurso em resultado concreto. O encontro de março com Trump tende a ser o primeiro teste dessa estratégia “olho no olho”. Assessorias dos dois governos trabalham em uma pauta que inclui comércio, clima, segurança regional e o futuro da Venezuela. A diplomacia brasileira tenta evitar temas que possam empurrar a conversa para o confronto, como disputas tarifárias pontuais ou debates internos sobre democracia.

O calendário também pesa. A condecoração no Panamá, as conversas com a liderança venezuelana e a preparação para o encontro com Trump se cruzam com debates internos no Congresso brasileiro sobre investimentos, reforma tributária e política externa. Lula tenta usar o capital simbólico de viagens e honrarias para reforçar a narrativa de que o Brasil volta a ter voz em negociações globais. Resta saber se a combinação de diálogo direto com Washington e defesa firme da soberania venezuelana será suficiente para reduzir tensões regionais ou se abrirá novas frentes de conflito diplomático.

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