Lula aposta em acordo com Trump após novo imposto dos EUA
Em visita à Índia neste domingo (22), o presidente Luiz Inácio Lula da Silva demonstra confiança em um acordo com os Estados Unidos após a nova taxação anunciada por Donald Trump. O brasileiro fala em “negociação firme” para proteger o comércio bilateral e, ao mesmo tempo, ampliar a cooperação no combate ao crime organizado. A declaração ocorre às vésperas de viagem a Washington, prevista para a próxima semana.
Lula tenta conter impacto de tarifa e acalmar mercado
O posicionamento público de Lula vem em resposta direta ao anúncio de Trump, que eleva tarifas sobre produtos brasileiros em setores considerados sensíveis pelos dois governos. O novo imposto atinge principalmente exportações industriais e agropecuárias, pilares de um fluxo comercial que supera US$ 100 bilhões por ano. Empresários brasileiros pressionam por previsibilidade desde que a Casa Branca sinaliza, há semanas, uma guinada mais protecionista.
Em conversa com jornalistas em Nova Déli, após reunião com autoridades indianas, Lula evita confronto direto com Trump e reforça a aposta na diplomacia. “Não interessa ao Brasil nem aos Estados Unidos uma guerra comercial. Vamos à mesa, negociar e encontrar uma solução que preserve empregos e investimentos”, afirma. A fala busca reduzir o clima de incerteza que atinge exportadores de aço, alumínio, carnes e produtos industrializados, preocupados com perda de mercado nos Estados Unidos.
Negociação mira tarifas e cooperação contra o crime
O governo brasileiro trabalha com a expectativa de arrancar de Washington um acordo que atenue o alcance das novas tarifas e, em paralelo, consolide um pacote de cooperação em segurança. Assessores de Lula falam em criar uma espécie de trilha dupla: de um lado, a revisão da taxação sobre produtos brasileiros; de outro, mecanismos mais robustos de troca de informações sobre tráfico de drogas, lavagem de dinheiro e contrabando de armas.
Lula insiste que o combate ao crime organizado entra no centro da agenda com os Estados Unidos. “As quadrilhas que atuam no Brasil movimentam bilhões e não respeitam fronteiras. Precisamos de cooperação policial, de inteligência, de controle financeiro”, diz o presidente, ao comentar que redes de tráfico utilizam rotas que passam por portos norte-americanos e europeus. Segundo dados do próprio governo brasileiro, apreensões de cocaína em portos do país cresceram mais de 30% em cinco anos, pressionando as autoridades a buscar acordos internacionais mais abrangentes.
A estratégia é apresentar, em Washington, um pacote que ligue a estabilidade econômica à segurança regional. Integrantes da equipe de Lula avaliam que o endurecimento tarifário de Trump abre uma janela arriscada, mas também cria espaço para barganhas. Ao oferecer cooperação intensa em inteligência e repressão a redes transnacionais, o Brasil tenta mostrar que a parceria vai além de soja, minério e carne bovina. A leitura no Planalto é que segurança de fronteiras e contenção de fluxos ilícitos podem convencer setores da administração norte-americana a aliviar parte das taxações.
Setores em alerta e apostas para o pós-encontro
Exportadores brasileiros calculam que uma tarifa adicional de apenas 5% sobre alguns produtos-chave pode reduzir em bilhões de dólares a receita anual das vendas para os Estados Unidos. Entidades do agronegócio e da indústria falam em revisão de contratos já assinados e em postergação de investimentos previstos para os próximos 12 a 18 meses. O temor é que o protecionismo de Trump estimule outros parceiros a revisar acordos, ampliando o clima de incerteza.
No Brasil, o Ministério da Fazenda acompanha de perto a reação dos mercados. Analistas avaliam que um fracasso nas negociações em Washington pode pressionar o câmbio e elevar o custo de financiamento para empresas mais expostas às exportações para os Estados Unidos. Lula tenta antecipar esse movimento ao sinalizar que busca um entendimento “em poucas semanas”, expressão usada por auxiliares envolvidos na preparação da viagem.
Caso o acordo avance, o Planalto projeta ganhos políticos e econômicos. Uma solução que limite o alcance do novo imposto, mesmo que parcial, seria apresentada como prova de que a diplomacia pode conter danos e abrir oportunidades em áreas estratégicas. No campo da segurança, um programa de cooperação com prazos, metas e operações conjuntas teria impacto direto em fronteiras brasileiras, pressionadas por facções que se espalham por ao menos 10 estados.
Viagem a Washington deve definir rumo da relação
A agenda de Lula em Washington, prevista para os próximos dias, tende a se tornar o principal termômetro da relação entre os dois países em 2026. O governo brasileiro prepara uma comitiva enxuta, com foco em economia e segurança, evitando temas que possam inflamar ainda mais o ambiente em ano de forte polarização política nos Estados Unidos. Interlocutores de Lula admitem, em privado, que parte do endurecimento de Trump mira a própria base eleitoral, sensível a discursos de proteção do emprego interno.
O presidente brasileiro aposta que, apesar do ruído, há espaço para um entendimento pragmático. Na Índia, ele reforça o discurso de diálogo e lembra que crises anteriores, como disputas em torno de subsídios agrícolas nos anos 2000, terminam em acomodações graduais. A diferença, agora, é o peso do crime organizado na equação. Ao vincular tarifas, investimentos e segurança regional, Lula tenta transformar uma ameaça econômica em plataforma de negociação mais ampla. As próximas reuniões em Washington vão mostrar se essa aposta é suficiente para conter o avanço do protecionismo e inaugurar um capítulo mais previsível na relação entre Brasil e Estados Unidos.
