Lula apoia conselho de Trump para Gaza, mas cobra voz palestina
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirma apoiar o conselho proposto por Donald Trump para pacificar a Faixa de Gaza, mas critica a ausência de palestinos no grupo. Em entrevista à TV Aratu, exibida nesta sexta-feira (6), ele diz que qualquer reconstrução sem participação direta da população local perde legitimidade.
Lula avalia plano de Trump e exige inclusão palestina
Lula descreve ao vivo, na TV baiana, a conversa que mantém com o presidente dos Estados Unidos sobre o chamado “Conselho da Paz” para Gaza. Ele relata ter elogiado a iniciativa de criar um órgão internacional para coordenar a pacificação e a reconstrução da faixa, devastada por meses de bombardeios, mas conta que impõe uma condição política clara. “Eu sou favorável ao conselho da Faixa de Gaza e eu disse ao Trump: por que que não tem um palestino?”, afirma.
O questionamento expõe o ponto de tensão no plano que a Casa Branca tenta vender como solução rápida para a crise humanitária. O conselho se forma com representantes de países aliados de Washington e de potências regionais, mas, até agora, não reserva assento formal para lideranças palestinas civis ou políticas. Na avaliação de Lula, esse desenho fere o princípio básico de qualquer negociação de paz: ouvir quem sofre diretamente a guerra.
Ao comentar imagens oficiais do plano de reconstrução, o presidente brasileiro ironiza o material divulgado. “Aquela fotografia que eles mostraram, da reconstrução com aqueles prédios. Aquilo é um resort. Eu quero saber quem vai construir casa para o povo”, diz. A crítica mira o contraste entre maquetes modernas, com torres envidraçadas e áreas de lazer, e a necessidade imediata de moradia simples para centenas de milhares de deslocados internos.
Gaza concentra hoje uma de suas maiores crises humanitárias desde o início do conflito com Israel. Agências internacionais mencionam destruição em larga escala de bairros inteiros, colapso de infraestrutura básica e milhões de pessoas dependentes de ajuda externa. Nesse cenário, Lula tenta posicionar o Brasil como voz em defesa da reconstrução com foco em direitos sociais, não em projetos imobiliários de alto padrão voltados a investidores estrangeiros.
Conflito, acusação de genocídio e disputa por narrativa
Israel responde na Corte Internacional de Justiça (CIJ) a um processo por genocídio em razão da guerra na Faixa de Gaza. O julgamento corre em Haia e se apoia em evidências de ataques em áreas densamente povoadas, bloqueios prolongados e mortes de civis em grande escala, incluindo mulheres e crianças. As autoridades israelenses negam a acusação, afirmam agir em autodefesa e dizem mirar alvos militares de grupos armados palestinos.
O processo em Haia amplia a pressão sobre países que aspiram a alguma liderança moral no tabuleiro internacional. No Itamaraty, auxiliares de Lula defendem que o Brasil mantenha uma linha clara: condenar violações de direitos humanos, defender investigações independentes e, ao mesmo tempo, dialogar com os dois lados em busca de cessar-fogo duradouro. A fala do presidente sobre o conselho de Trump ecoa esse equilíbrio, ao apoiar a arquitetura multilateral, mas rejeitar a exclusão da parte diretamente atingida.
A crítica ao “resort” também atinge um modelo recorrente de pós-guerra, baseado em grandes contratos de reconstrução entregues a conglomerados internacionais. Nesse formato, empresas de construção civil e fundos de investimento costumam assumir protagonismo, enquanto comunidades deslocadas recebem moradias padronizadas em áreas periféricas, com pouca infraestrutura. Lula sinaliza que, em Gaza, esse roteiro não pode se repetir sem reação da comunidade internacional.
No discurso, o presidente brasileiro reivindica uma abordagem que combine participação popular, inclusão de lideranças locais e transparência nos recursos. Ele defende que qualquer conselho que se proponha a pacificar Gaza precisa garantir voz a autoridades palestinas, prefeitos, organizações comunitárias e entidades humanitárias. Sem isso, alerta, o projeto corre o risco de ser percebido como imposição externa, distante das necessidades de quem perdeu casa, família e renda.
Impacto diplomático e próximos movimentos do Brasil
A posição de Lula, divulgada em rede regional de televisão, mira um público interno, mas tem potencial de reverberar em capitais estrangeiras e organismos multilaterais. Países árabes, principalmente aqueles com forte opinião pública pró-Palestina, tendem a cobrar mais representação de Ramallah e de outros grupos palestinos nas negociações. Ao apoiar o conselho, mas questionar sua formação, o Brasil tenta se credenciar como interlocutor confiável tanto para Washington quanto para governos do Oriente Médio.
Na prática, a fala pode pressionar os articuladores do plano de Trump a rever a composição do grupo, abrindo espaço para técnicos palestinos em áreas como habitação, saneamento e saúde. A inclusão direta dessas vozes eleva o custo político de decisões que priorizem torres de luxo em detrimento de casas populares, escolas e hospitais. Também amplia as chances de que o processo de reconstrução leve em conta mapas de danos, tradições urbanas locais e necessidades específicas de comunidades hoje amontoadas em abrigos improvisados.
No cenário doméstico, Lula reforça o discurso de política externa baseado em direitos humanos e na defesa de soluções negociadas para conflitos armados. A posição agrada setores progressistas, movimentos de solidariedade à causa palestina e parte da academia, ao mesmo tempo em que mantém canais abertos com Washington. A aposta do Planalto é que esse equilíbrio ajude o Brasil a recuperar protagonismo em debates na ONU e em foros regionais sobre o futuro de Gaza.
O que vem a seguir para Gaza e para a diplomacia brasileira
Os próximos meses tendem a ser decisivos para o formato final do conselho internacional para Gaza. A depender da evolução do processo na CIJ e da pressão da opinião pública global, cresce a chance de ajustes na proposta americana, inclusive com a criação de cadeiras permanentes ou rotativas para representantes palestinos. Cada gesto de inclusão ou exclusão pesará na forma como o plano será recebido nas ruas de Rafah, Khan Younis e na comunidade internacional.
O governo brasileiro busca espaço para propor resoluções em organismos multilaterais e mediar conversas entre aliados árabes e a Casa Branca. A declaração de Lula na TV Aratu funciona como recado antecipado: qualquer pacto de paz que transforme Gaza em vitrine imobiliária, sem dar voz a quem sobrevive sob escombros, dificilmente se sustentará. A pergunta que permanece aberta é se as potências dispostas a financiar a reconstrução aceitarão dividir poder de decisão com um povo que, até aqui, quase sempre é convidado apenas a assistir de fora.
