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Lula aceita ir a Washington após ligar para Trump e exigir assento à Palestina

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva decide viajar a Washington em 26 de janeiro de 2026, após uma ligação direta com Donald Trump, e condiciona sua participação em um novo conselho internacional à inclusão de um assento permanente para a Palestina. A resposta positiva da Casa Branca consolida a ida de Lula aos Estados Unidos e recoloca o Brasil no centro das discussões sobre Oriente Médio.

Ligação direta e cálculo político

Lula recebe o telefonema de Trump no início da semana, em um momento de tensão crescente no Oriente Médio e de rearranjo de forças na diplomacia global. O presidente brasileiro escuta a proposta de criação de um conselho internacional articulado pela Casa Branca e, segundo assessores, reage com cautela.

O convite prevê a presença de cerca de 20 países em Washington, em reuniões previstas para o primeiro trimestre de 2026, com foco em segurança regional e reconstrução de Gaza. Lula aceita discutir o formato, mas impõe desde o início uma condição central: a Palestina precisa ter um assento próprio e estável no grupo. Sem isso, diz a interlocutores, o Brasil não embarcaria.

Trump quer mostrar resultados rápidos no cenário externo, após prometer, ainda na campanha, um reposicionamento dos Estados Unidos na mediação de conflitos. Lula enxerga na iniciativa uma oportunidade de reforçar o papel do Brasil como voz do Sul Global, repetindo a aposta que faz desde seu terceiro mandato: negociar com potências, sem abrir mão de pautas sensíveis para países em desenvolvimento.

Diplomatas brasileiros descrevem a conversa entre os dois presidentes como “franca” e “direta”. Segundo um assessor ouvido reservadamente, Lula deixa claro que não pretende atuar como coadjuvante em uma coalizão desenhada apenas por Washington. “Se for para sentar à mesa, o Brasil quer discutir a forma da mesa”, resume esse interlocutor.

Brasil busca protagonismo e cobra lugar para palestinos

A exigência de um assento para a Palestina não surge do nada. Desde o início de 2024, o governo brasileiro defende, em discursos na ONU e no G20, o reconhecimento pleno do Estado palestino e o fortalecimento de fóruns multilaterais. Em 2025, o Itamaraty apoia formalmente a entrada da Palestina em ao menos três iniciativas regionais e reforça o envio de ajuda humanitária, com mais de R$ 50 milhões destinados a agências da ONU em Gaza.

No telefonema com Trump, Lula insiste que qualquer novo conselho que trate do futuro do Oriente Médio precisa ouvir diretamente os palestinos. “Não há paz sustentável se quem sofre a guerra não estiver à mesa”, afirma a um auxiliar próximo, que relata a frase à reportagem. A Casa Branca, diante da pressão brasileira e de sinais semelhantes vindos de capitais europeias, cede e concorda em reservar um assento formal para a Palestina.

A decisão abre espaço para que o Brasil atue como articulador entre países árabes, europeus e os Estados Unidos. Ex-chanceleres ouvidos pela reportagem avaliam que o movimento recoloca Brasília em uma posição semelhante à que ocupou em 2010, quando tentou mediar o impasse nuclear com o Irã ao lado da Turquia. A diferença, agora, é a centralidade da causa palestina e a presença direta de Trump no tabuleiro.

Especialistas em relações internacionais veem ganhos e riscos. A professora de política externa Ana Ribeiro afirma que Lula “aposta alto” ao condicionar sua presença a concessões americanas. “Se der certo, o Brasil consolida uma imagem de mediador comprometido com direitos humanos e equilíbrio regional. Se der errado, pode ser visto como um ator que esticou demais a corda”, avalia.

A iniciativa também dialoga com a base política interna de Lula, que acompanha de perto a situação em Gaza desde os bombardeios mais intensos de 2023 e 2024. Movimentos sociais, centrais sindicais e entidades de direitos humanos pressionam o governo a adotar posições mais firmes em fóruns multilaterais, cobrando ações concretas além de discursos. A exigência do assento palestino, nessa leitura, funciona como uma resposta direta a essa cobrança.

Impacto diplomático e disputa de narrativas

A viagem a Washington, confirmada para o fim de janeiro, tende a redefinir a agenda bilateral entre Brasil e Estados Unidos. Além da pauta do Oriente Médio, as equipes preparam discussões sobre comércio, clima e tecnologia, com metas de ampliar o fluxo de investimentos em até 15% nos próximos dois anos, segundo projeções iniciais de Brasília. Na área de energia, o governo brasileiro espera fechar acordos para financiar projetos de transição energética na América Latina, com participação do BNDES e de bancos americanos.

A presença de Lula em um conselho que inclui potências ocidentais e países-chave do Oriente Médio deve servir como vitrine para a política externa brasileira. Ao defender a Palestina, o Brasil tenta equilibrar a relação com Israel, que permanece importante parceiro em áreas como agronegócio e tecnologia militar, mas vive uma crise de imagem global após sucessivas ofensivas em Gaza. O desafio é não romper pontes com nenhum dos lados, ao mesmo tempo em que sustenta o discurso de defesa de civis e do direito internacional.

Nos bastidores, diplomatas americanos reconhecem o peso da posição brasileira. Um integrante da equipe de Trump descreve Lula como “interlocutor incômodo, mas necessário”. Segundo ele, a Casa Branca calcula que excluir o Brasil da mesa daria munição a rivais geopolíticos, como China e Rússia, interessados em ocupar espaços de mediação. “É melhor ter o Brasil dentro da sala, mesmo discordando em alguns pontos, do que do lado de fora criticando”, resume.

A aposta de Lula também mira organismos multilaterais. A inclusão da Palestina no conselho apoiado pelos Estados Unidos pode ser usada como argumento em futuras negociações na ONU e no Banco Mundial, onde países em desenvolvimento pedem reformas e mais representação. Se a cadeira palestina se consolidar, o Brasil pretende defender que ela sirva de precedente para outras iniciativas internacionais que ainda ignoram atores diretamente afetados por guerras e crises humanitárias.

Próximos passos e desafios em Washington

A agenda de Lula em Washington deve incluir reuniões bilaterais com Trump, encontros com parlamentares e conversas reservadas com representantes de países árabes e europeus. O governo brasileiro trabalha para que, em até 90 dias após a visita, o novo conselho internacional tenha seu formato formalizado em documento assinado pelos membros, com cronograma de reuniões anuais e metas claras para a reconstrução de Gaza.

O Itamaraty prepara uma proposta de resolução que vincula o trabalho do conselho a parâmetros da ONU sobre proteção de civis, reconstrução de infraestrutura e garantia de corredores humanitários permanentes. Auxiliares de Lula falam em um pacote de compromissos financeiros e políticos que possa chegar a alguns bilhões de dólares, somando contribuições voluntárias dos países participantes e de instituições multilaterais.

O sucesso da iniciativa, porém, depende de fatores que escapam ao controle direto de Brasília. Uma escalada militar na região ou mudanças bruscas na política interna americana podem diminuir o espaço para concessões. A própria relação pessoal entre Lula e Trump, marcada por diferenças ideológicas explícitas, tende a ser testada à medida que o processo avance.

Ao aceitar ir a Washington apenas depois de garantir um assento para a Palestina, Lula transforma uma viagem protocolar em gesto político calculado. O Brasil tenta ocupar um espaço de mediador em um mundo cada vez mais polarizado, mas ainda precisa provar que consegue converter discurso em resultados concretos. A resposta virá das mesas de negociação em Washington e, sobretudo, das ruas de Gaza.

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