Lucas Braathen lidera Brasil na abertura dos Jogos de Inverno
Lucas Pinheiro Braathen, 25, carrega a bandeira do Brasil na abertura dos Jogos Olímpicos de Inverno, nesta sexta-feira (6), em Oslo. O esquiador nascido na capital norueguesa se torna o principal rosto da delegação brasileira em 2026.
Um brasileiro entre a neve e a arquibancada global
A imagem surge na transmissão da TV Globo, no fim da tarde, quando o Brasil entra no estádio gelado da capital norueguesa. Envolto em casaco verde e amarelo, luvas grossas e um sorriso contido, Lucas ergue a bandeira brasileira diante de dezenas de milhares de torcedores e de uma audiência de milhões ao redor do mundo.
O gesto condensa uma trajetória que ignora fronteiras geográficas e esportivas. Nascido em Oslo em 2000, filho de mãe brasileira e pai norueguês, ele cresce entre dois países, dois idiomas e duas culturas esportivas. No Brasil, como tantas crianças, tenta o futebol, treinando com o olhar voltado para seu grande ídolo, Ronaldinho Gaúcho. Na Noruega, encontra a neve e o esqui, que acabam definindo sua carreira.
Lucas é alfabetizado em português e norueguês, viaja com frequência entre os dois países na infância e nunca rompe o vínculo com o Brasil. A decisão de competir com a bandeira verde e amarela, confirmada anos depois, nasce desse laço afetivo e de uma leitura pragmática: no Brasil, pode ser pioneiro em um campo quase virgem, os esportes de inverno.
Ao ser anunciado como porta-bandeira, o esquiador assume também um papel simbólico. Representa um país que historicamente ocupa a arquibancada, e não a pista, quando se fala em neve e gelo. Representa ainda uma geração de brasileiros que cresce fora do país, mas mantém a identidade, o idioma e os vínculos culturais.
Esquiador bilíngue vira esperança de medalha
O caminho até a noite fria de 6 de fevereiro é longo. Lucas inicia a carreira nas categorias de base do esqui alpino europeu, ainda adolescente, e passa a disputar circuitos internacionais. Com o tempo, deixa de ser promessa e entra no restrito grupo de atletas capazes de brigar por pódios em etapas importantes da temporada. Em 2026, chega a Oslo como uma das principais esperanças brasileiras de medalha em provas técnicas, como o slalom.
A escolha do Comitê Olímpico do Brasil por seu nome não é casual. Ele reúne desempenho esportivo consistente, projeção internacional e uma história que dialoga com o discurso de diversidade. Filho de imigrante, bilíngue, dividido entre dois mundos, Lucas simboliza uma ideia de Brasil que não cabe só nos trópicos. Ao entrar no estádio com a bandeira, oferece ao país uma rara cena de protagonismo em um evento dominado por potências tradicionais como Noruega, Canadá e Alemanha.
Fora das pistas, o esquiador já se torna figura familiar ao público brasileiro. Desde junho de 2025, ele namora a atriz Isadora Cruz, a Agrado da novela das nove “Coração Acelerado”. Os dois se conhecem em Nova York, e a relação rapidamente ganha espaço em redes sociais e programas de entretenimento. Na quarta-feira (4), dois dias antes da cerimônia, Lucas publica uma homenagem pelos 28 anos da atriz em seu perfil no Instagram, reforçando a conexão com o público que o conhece mais pela novela do que pelo esqui.
A vida pessoal, nesses termos, não é mero detalhe. Em um país em que os esportes de inverno ainda são quase desconhecidos, a projeção na mídia e nas redes funciona como atalho para conquistar novos torcedores. A presença constante em posts, entrevistas e matérias de bastidores amplia a base de fãs e cria um elo emocional com um público que talvez nunca tenha pisado na neve.
Mais que um porta-bandeira, um teste para o esporte de inverno
A cena da bandeira abre uma oportunidade rara para o Brasil no cenário dos esportes gelados. O país soma menos de uma dezena de participações em Jogos Olímpicos de Inverno ao longo da história e não tem tradição em subir ao pódio. Cada desempenho relevante vira argumento em disputa por recursos, patrocínios e tempo de TV. Lucas chega a esses Jogos como vitrine de um projeto ainda embrionário. Se confirmar a condição de favorito e brigar por uma medalha, ele pode mudar a curva de atenção do público e dos investidores.
Entidades esportivas brasileiras veem nessa visibilidade um ativo estratégico. Uma medalha, ou mesmo um resultado expressivo, tende a atrair patrocínios privados para modalidades como esqui alpino, snowboard e patinação. Em um mercado dominado por futebol, vôlei e esportes de combate, qualquer fração de audiência conta. A aposta é que a combinação de talento, narrativa pessoal forte e exposição global transforme o esquiador em catalisador de novos projetos, centros de treinamento e intercâmbios com países de neve.
A história de Lucas também alimenta um debate mais amplo sobre representatividade. A presença de um atleta nascido em Oslo, com sobrenome norueguês, liderando a delegação brasileira amplia a discussão sobre o que significa ser brasileiro em 2026. Filhos de migrantes, atletas formados no exterior e jovens que se dividem entre países tornam-se cada vez mais comuns. No esporte, esse movimento ganha contornos políticos: quem representa qual país, sob quais critérios e com que benefícios para a formação de base.
O relacionamento com Isadora, por sua vez, aproxima o universo das novelas, que alcança dezenas de milhões de espectadores por noite, do esporte de inverno, que ainda luta para aparecer. A curiosidade do público sobre o casal empurra o algoritmo a favor do esquiador. Patrocinadores percebem o potencial de exposição cruzada entre esporte, entretenimento e moda, e já se fala em novas campanhas e contratos após os Jogos.
O que vem depois da cerimônia em Oslo
A abertura em 6 de fevereiro marca o início de uma sequência intensa para Lucas. Nos dias seguintes, ele encara treinos oficiais, reconhece pistas e ajusta equipamentos para as provas decisivas. O desempenho nas primeiras descidas deve indicar se a pressão de liderar a delegação pesa ou impulsiona. Uma eventual medalha coloca seu nome ao lado de raros brasileiros que já brilharam em esportes fora do radar tradicional.
Independentemente do resultado, o impacto da noite em que ergue a bandeira tende a ir além destes Jogos. Se o público adere e passa a acompanhar as provas, as federações ganham argumento para cobrar investimento contínuo, e não apenas pontual, em neve artificial, intercâmbios e programas de base. Se o interesse esfria após a cerimônia, o país corre o risco de perder mais uma chance de diversificar sua presença esportiva no mundo. O teste que se abre em Oslo não é só para Lucas, mas para a capacidade do Brasil de se imaginar competitivo também longe do calor dos estádios de futebol.
