Lucas Braathen chega a Brasília com ouro inédito e mira apoio de Lula
O campeão olímpico Lucas Pinheiro Braathen desembarca em Brasília nesta quinta-feira (26/2) para a primeira visita oficial à capital. Nesta sexta (27/2), ele se encontra com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, no Palácio do Planalto, para apresentar a medalha de ouro inédita do Brasil em Jogos de Inverno e discutir o futuro dos esportes de neve no país.
Do saguão ao Planalto, o ouro que muda a geografia do esporte
No saguão doméstico do Aeroporto Internacional Juscelino Kubitschek, o cenário é de rotina de fim de tarde até que um viajante de boné, óculos escuros e roupas pretas quebra o anonimato. Aos 25 anos, 1,83m de altura e recém-chegado do Rio de Janeiro em voo comercial, Lucas Braathen pisa pela primeira vez em Brasília como o primeiro medalhista olímpico do Brasil e da América Latina em Jogos de Inverno. Doze dias após o ouro no slalom gigante em Milão-Cortina, ele traz ao centro do poder político um tema que sempre pareceu distante do país tropical: esportes de neve.
O esquiador chega acompanhado da namorada, a atriz Isadora Cruz, do presidente do Comitê Olímpico do Brasil (COB), Marco Antonio La Porta, e de dirigentes da Confederação Brasileira de Desportos na Neve (CBDN). Reconhecido por passageiros tanto no Santos Dumont quanto em Brasília, Lucas cruza o saguão entre fotos, abraços e pedidos de autógrafos. “Sim, tirei fotos, claro”, conta, rindo. O sorriso abre espaço para o espanto com a própria trajetória: “É bem louco pensar que a minha primeira vez em Brasília é para fazer isso, encontrar o presidente da República”.
O encontro com Lula está marcado para esta sexta-feira (27/2), por volta das 10h, no Palácio do Planalto. Na bagagem de mão, o símbolo de uma ruptura histórica: a medalha de ouro conquistada em 14 de fevereiro, na prova de slalom gigante do esqui alpino, nos Jogos Olímpicos de Inverno de Milão-Cortina 2026. A mesma peça de metal que o colocou no Olimpo esportivo passa a funcionar agora como credencial política em defesa de um novo capítulo para o esporte brasileiro.
Arquitetura, identidade e um novo mapa para o Brasil nos Jogos
Lucas caminha pelo aeroporto atento aos detalhes do espaço. A curiosidade não é por acaso. Filho de brasileiro e nascido na Noruega, ele transforma referências visuais em projetos criativos, desenhos e planos para o futuro. “Sou muito orgulhoso, pois são muitas as referências e inspirações que levo para os meus projetos criativos, desenhos. Estudei a arquitetura de Oscar Niemeyer e de Brasília, estou muito animado para conhecer pessoalmente”, afirma, em conversa com o Correio.
A agenda, porém, é curta. Entre compromissos institucionais e entrevistas, ele mal terá tempo para conhecer os cartões-postais que estuda à distância. “Acho que não vai dar para turistar, não tenho muito tempo esses dias, estou entre vários compromissos. Está corrido. Vamos voltar para a Copa do Mundo em breve, vamos aproveitar e voltar a competir”, admite. O bate-volta brasileiro termina antes do começo de março. Nos dias 7 e 8, ele disputa etapa da Copa do Mundo de esqui alpino na Eslovênia. Em 24 e 25, volta às pistas na Noruega.
A medalha que agora entra no Planalto já rende efeitos concretos. Pelo ouro em Milão-Cortina, Lucas recebe R$ 350 mil em premiação do COB, valor que simboliza não apenas a consagração individual, mas a aposta em uma modalidade que até aqui vivia na margem do calendário esportivo nacional. Ao mesmo tempo em que se torna rosto de campanha publicitária e estrela nas redes sociais — o perfil no Instagram ultrapassa 1 milhão de seguidores —, o esquiador assume o papel de porta-voz de um esporte que o Brasil quase não conhece fora das transmissões de TV.
Natural da Noruega, Lucas cresce cercado de neve, mas escolhe mergulhar na identidade brasileira quando decide defender o país. Começa a esquiar aos 9 anos, incentivado pelo pai, Bjorn, e constrói carreira pela seleção norueguesa até 2023. Anuncia aposentadoria precoce, ainda jovem, e surpreende ao voltar ao alto rendimento com o verde e amarelo no peito. Desde então, soma 10 pódios em etapas da Copa do Mundo, incluindo o ouro no slalom em Levi, na Finlândia, em novembro de 2025, e carrega a bandeira do Brasil na abertura dos Jogos de 2026, no estádio San Siro.
Do gabinete à pista: o que muda com o ouro na neve
A reunião com Lula encaixa orgulho e cálculo no mesmo horário. A cena da medalha sobre a mesa do gabinete presidencial tem potencial de virar política pública. Nos bastidores, COB e CBDN enxergam a visita como chance rara de incluir esportes de inverno em programas de incentivo, de base à alta performance. O Brasil nunca teve estrutura robusta para modalidades de neve, depende de centros de treinamento no exterior e enfrenta barreiras simples, mas decisivas: custo alto, falta de equipamentos, pouca oferta para crianças e jovens.
Lucas entende que o momento é de abrir portas. “Sinto que começo um movimento de dar atenção e levar interesse de um novo esporte. Isso é muito bom, abrem portas. Sinto muito orgulho de termos conseguido trazer isso”, diz, ao pisar no Distrito Federal. O discurso embute uma estratégia: usar a visibilidade pessoal para arrastar junto uma cadeia de treinadores, dirigentes, profissionais de apoio e futuros atletas.
A presença no Planalto repete um ritual recente. Depois de Paris-2024, Lula recebe medalhistas olímpicos e paralímpicos em Brasília, gesto que mistura capital simbólico e tentativa de aproximar o governo de uma geração de atletas mais conectada com redes sociais do que com solenidades formais. No caso de Lucas, o gesto tem peso extra. O Brasil passa a fazer parte do mapa das nações com ouro em Jogos de Inverno, e a foto oficial pode acelerar decisões sobre bolsas, centros de treinamento e parcerias internacionais em regiões de neve.
O impacto vai além da pista. O esquiador leva a cultura brasileira para dentro de um circuito tradicionalmente europeu. A trilha sonora que o acompanha tem Jorge Ben Jor, João Gilberto e sambas que misturam com o frio das montanhas. Quando pode, troca o macacão de prova pela camisa do São Paulo e tenta encaixar uma ida ao Morumbi para ver o time de perto. A imagem de um campeão olímpico que ouve bossa nova no teleférico e fala de churrasco nas entrevistas reforça a estratégia de aproximar o público de um esporte que parecia distante.
Janela política aberta e corrida contra o tempo
A visita relâmpago a Brasília expõe um contraste. No Brasil, Lucas é tratado como símbolo de um futuro possível para os esportes de inverno. Na Europa, já volta a ser um competidor sob pressão, com calendário apertado e metas altas em etapas da Copa do Mundo. Entre um compromisso e outro, tenta encaixar reuniões técnicas com COB e CBDN para discutir projetos de base, intercâmbio de treinadores e ações em escolas públicas.
O encontro com Lula tende a ser o ponto de partida de uma negociação mais longa. Dirigentes esperam transformar a repercussão da medalha em programas estruturados de apoio, desde centros de simulação de neve até estágios em países com tradição na modalidade. A dúvida é se o brilho do ouro resiste ao noticiário acelerado e se o país consegue, desta vez, manter o investimento depois que as luzes da cerimônia se apagam.
A resposta começa a ser construída nesta sexta-feira, no Planalto. Entre a arquitetura de Niemeyer que tanto estudou e a correria de um calendário global, Lucas Braathen tenta encaixar o Brasil de vez no mapa da neve. A medalha de Milão-Cortina já é história. O próximo capítulo depende de quanto dessa história o poder público está disposto a escrever.
