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Lindsey Vonn passa por cirurgia após queda grave no downhill olímpico

A esquiadora Lindsey Vonn, tricampeã olímpica dos Estados Unidos, passa por cirurgia ortopédica em Treviso neste domingo (8) após fraturar a perna esquerda no downhill de Cortina d’Ampezzo, na Olimpíada de Inverno de 2026. A atleta de 41 anos sofre nova lesão na mesma perna operada dez dias antes, na Suíça, e tem a participação no restante da temporada colocada em dúvida.

Queda assusta torcida e interrompe prova em Cortina

O silêncio toma conta do Centro de Esqui Alpino de Tofane por volta da metade da manhã de sábado (7), quando Vonn cai ainda nos primeiros segundos de sua descida na final do downhill feminino. A norte-americana larga em ritmo agressivo, buscando mais uma medalha olímpica, mas prende o braço direito em um dos portões do traçado, perde o equilíbrio e despenca ladeira abaixo na pista Olimpia delle Tofane.

A imagem da campeã escorregando por dezenas de metros na neve endurecida congela a torcida. Médicos italianos e americanos entram na pista em questão de minutos e iniciam o atendimento ainda no local. O resgate mobiliza macas, equipamentos de imobilização e um helicóptero posicionado ao pé da pista, parte do protocolo de provas de alta velocidade, em que esquiadoras chegam a atingir mais de 120 km/h.

A organização interrompe a prova por longo período. Quando Vonn é retirada de helicóptero, imobilizada, rumo ao Hospital Ca’ Foncello, em Treviso, a cerca de 130 quilômetros de Cortina, o público se levanta para aplaudir. Momentos depois, a equipe americana tenta acalmar a preocupação global ao informar nas redes sociais: “Lindsey Vonn sofreu uma lesão, mas está em condição estável e recebendo bons cuidados de uma equipe de médicos americanos e italianos”.

O hospital confirma que a atleta passa por “cirurgia ortopédica para estabilizar uma fratura em sua perna esquerda” e que é atendida por uma “equipe multidisciplinar”. A Associated Press relata que o procedimento atinge a mesma perna em que ela rompe o ligamento cruzado anterior em 30 de janeiro, em um acidente no circuito da Copa do Mundo, em Crans-Montana, na Suíça.

Repetição de lesões reacende debate sobre limite físico

A sequência de acidentes em apenas dez dias transforma o caso de Vonn em símbolo do desgaste acumulado no esqui alpino de alto nível. Aos 41 anos, ela decide competir em Milão-Cortina mesmo após a grave lesão no ligamento do joelho esquerdo e volta aos treinos para o downhill depois de duas sessões na própria pista italiana. Em mensagem publicada no Instagram na véspera da prova, escreve: “Amanhã competirei na minha última prova de downhill olímpico e, embora não possa garantir um bom resultado, garanto que darei tudo de mim. Mas, aconteça o que acontecer, eu já venci”.

Companheiras e ex-rivais enxergam na decisão uma mistura de coragem e risco extremo. A eslovena Tina Maze, bicampeã olímpica e hoje comentarista da “Eurosport”, resume o sentimento de quem acompanha a queda ao vivo: “Todos sabemos das dificuldades que Lindsey enfrentou nos últimos dias e, ao chegar à prova, acho que ela simplesmente elevou o nível demais e arriscou demais, e é por isso que esse tipo de acidente pode acontecer”. Para Maze, o choque passa do plano esportivo: “É muito difícil para todos aqui ver isso, especialmente para a família dela, suas colegas de equipe e todos que trabalham com ela. É terrível para todos”.

A família reage com a mesma mistura de susto e resignação. A irmã da esquiadora, Karin Kildow, diz à NBC que a cena é “assustadora de se ver”, mas afirma que Vonn não se arrepende da escolha de correr: “Ela sempre se dedica ao máximo, nunca faz nada menos que isso, então sei que ela colocou todo o seu coração nisso e, às vezes, as coisas simplesmente acontecem”. Ela lembra o risco permanente da modalidade: “É um esporte muito perigoso e há muitas variáveis em jogo, então eu realmente não sei exatamente o que aconteceu, mas pareceu uma queda bastante feia, então estamos torcendo para que tudo fique bem”.

Dirigentes americanos usam o episódio para reforçar a mensagem sobre os limites físicos do esporte. Anouk Patty, chefe de esportes da Federação de Esqui e Snowboard dos EUA, afirma à Associated Press: “Ela ficará bem, mas será um processo”. Em nota à CNN, a US Ski and Snowboard sintetiza o alerta: “Este esporte é brutal e as pessoas precisam se lembrar, quando estão assistindo, que esses atletas estão se jogando montanha abaixo e indo muito, muito rápido”.

Impacto esportivo e pressão por mais segurança

O acidente muda o clima da competição em Cortina. Após a longa interrupção, a prova é retomada, mas o foco já se divide entre a disputa por medalhas e o estado de saúde da tricampeã olímpica. A compatriota Breezy Johnson aproveita a retomada, domina a descida e conquista a primeira medalha de ouro dos Estados Unidos nos Jogos de Inverno de 2026. A vitória, que poderia ser apenas uma celebração esportiva, passa a carregar também a sombra da queda de Vonn.

A sucessão de lesões na mesma perna em um intervalo de 10 dias alimenta um debate antigo no esqui alpino: até que ponto é possível conciliar a busca por performance com a preservação da carreira. Lesões de joelho, ligamentos e fraturas de tíbia e fíbula fazem parte do histórico de medalhistas olímpicos. Em temporadas recentes, estudos da federação internacional indicam que boa parte dos atletas de elite convive com cirurgias repetidas, períodos longos de reabilitação e dores crônicas ainda em atividade.

Em Milão-Cortina, a discussão ganha contornos mais amplos. Dirigentes, treinadores e atletas pressionam por reforço nos protocolos de segurança em provas de alta velocidade, com revisão de traçados, ajustes em áreas de escape e critérios mais rigorosos para liberar competidores recém-saídos de cirurgias. A presença de helicópteros, equipes médicas numerosas e hospitais de referência, como o Ca’ Foncello, mostra que a estrutura de resposta é rápida, mas não evita o trauma físico e emocional provocado por quedas como a de Vonn.

O caso também impacta diretamente os planos da delegação americana. A tricampeã olímpica é uma das figuras centrais da equipe e sua recuperação, agora, passa a ser medida em meses, não em dias. Mesmo sem previsão oficial de retorno, a federação admite que a prioridade deixa de ser o calendário competitivo e passa a ser a reabilitação completa da perna esquerda, já submetida a pelo menos duas cirurgias em menos de duas semanas.

Recuperação longa e futuro em aberto

A equipe médica em Treviso evita estimar prazos, mas o histórico de lesões semelhantes indica um caminho longo. A estabilização de fraturas de perna costuma exigir imobilização prolongada, fisioterapia intensiva e recondicionamento muscular cuidadoso. Quando somada ao reparo de ligamento cruzado anterior, a recuperação pode se estender por muitos meses, com risco de limitação de movimento e dor persistente.

Dirigentes americanos reforçam que não vão apressar o próximo passo. Para além do calendário da Copa do Mundo e dos próximos campeonatos, o foco recai sobre a qualidade de vida da atleta depois da carreira. Aos 41 anos, Vonn já constrói uma trajetória como comentarista, empresária e referência global do esqui, e cada nova cirurgia reacende a discussão sobre até onde vale avançar em um esporte que, nas palavras da própria federação, é “brutal”. A resposta definitiva sobre seu futuro nas pistas ainda não aparece, mas a cena da queda em Cortina e a corrida pela recuperação em Treviso colocam, mais uma vez, a segurança e os limites do corpo no centro da conversa sobre o alto rendimento.

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