Lesão cobra preço e João Fonseca cai na estreia do Australian Open
O brasileiro João Fonseca é eliminado na primeira rodada do Australian Open 2026, em Melbourne, após derrota em quatro sets para o americano Eliot Spizzirri nesta terça-feira (20). O número 1 do país sente o peso da falta de ritmo e do desgaste físico depois de voltar de lesão lombar.
Favorito chega sem ritmo e sai cedo
Disputar o primeiro Grand Slam da temporada sem jogar um único torneio preparatório cobra um preço alto de Fonseca. Cabeça de chave pela primeira vez em um grande torneio e número 32 do mundo, o carioca de 19 anos entra em quadra como um dos dez mais cotados ao título em Melbourne. Sai dela, 2h38min depois, com a primeira derrota em estreia de Slam da carreira profissional.
Spizzirri, de 24 anos e 85º do ranking, vence por 6/4, 2/6, 6/1 e 6/2. O placar resume a noite irregular do brasileiro. O segundo set reacende a esperança, mas expõe uma fragilidade que se acentua a cada game longo, a cada rali mais físico. A partir do terceiro set, o corpo não acompanha mais a ambição.
O roteiro começa equilibrado. Fonseca confirma o saque com autoridade e arrisca mais do que o rival. Chega ao oitavo game com 13 bolas vencedoras, contra apenas quatro do americano. Mas paga caro por oscilações em momentos-chave. Uma direita na rede e duas duplas faltas abrem brecha para Spizzirri, que pressiona sem se desesperar.
O brasileiro se salva com saque forte e uma defesa brilhante em break point, empata em 4/4 e faz a Rod Laver Arena se mexer com um backhand vencedor. A resposta vem no décimo game. Depois de desperdiçar dois game points, Fonseca erra um slice cruzado e oferece set point. Anula o primeiro com um ace, mas entrega o jogo no detalhe: um voleio simples na rede e uma direita para fora selam o 6/4 para o americano.
O segundo set mostra um outro Fonseca. O americano erra mais logo no início e cede os primeiros break points. Numa sequência agressiva, o carioca quebra o saque de Spizzirri, salva break point com direita na linha e, mais confiante, passa a comandar as trocas. Abre 4/1 com nova quebra e fecha em 6/2 com uma direita indefensável. A atitude, então, sugere reação à altura do favoritismo.
Queda física muda o jogo e expõe limites
O terceiro set marca a virada definitiva da partida. Fonseca ainda cria quatro chances de quebra no primeiro game, mas desperdiça todas. Na sequência, vê Spizzirri também jogar fora três oportunidades. A partir do quarto game, a dinâmica muda. Vêm dois erros não forçados, uma dupla falta e, na sequência, uma esquerda para fora. O serviço do brasileiro cai, o americano quebra e abre 4/1.
Com o relógio se aproximando das duas horas de jogo, o desgaste de Fonseca fica nítido. As pernas pesam, a preparação limitada pelos problemas lombares aparece. Spizzirri sente o momento, aumenta o peso das devoluções e empilha pontos rápidos. Quebra novamente, vence 11 pontos seguidos e fecha a parcial em 6/1, transformando a pressão em controle total do jogo.
O quarto set começa com um Fonseca diferente daquele que ocupa o 32º posto da ATP. A média de velocidade do primeiro saque desaba de 194 km/h, registrada no início da partida, para 178 km/h. Os erros se acumulam, os golpes de definição perdem profundidade. Spizzirri quebra no terceiro game e passa a comandar a quadra, ditando o ritmo dos pontos e explorando a movimentação comprometida do brasileiro.
Perdendo por 4/1, o carioca chama o fisioterapeuta e recebe atendimento na perna esquerda. A pausa alivia momentaneamente, mas não altera o rumo do confronto. A cada tentativa de encurtar o ponto, surge um erro; em cada rali mais longo, o corpo cobra a ausência dos torneios de Brisbane e Adelaide, que ele abandona por causa da lesão lombar em dezembro.
A eliminação contrasta com a trajetória de 2025, quando Fonseca estreia em Grand Slams alcançando pelo menos a segunda rodada em Melbourne e Nova York e chegando à terceira fase em Roland Garros e Wimbledon. Desta vez, deixa o Australian Open sem vitórias, como cabeça de chave e com a responsabilidade ampliada de número 1 do país.
O resultado afeta não só a campanha imediata, mas também o planejamento de ranking para a temporada. Os pontos somados nos Slams são decisivos para se manter entre os 30 primeiros, zona que garante cabeças de chave e caminhos teoricamente mais suaves em chaves futuras. A queda na estreia em Melbourne, somada à ausência nos ATPs preparatórios, tende a pressionar essa margem nas próximas atualizações da ATP.
Pressão por recuperação e próximos desafios
O revés também mexe com expectativas no circuito. Fonseca é apontado como possível adversário do atual campeão Jannik Sinner já na terceira rodada. A derrota abre espaço para que Spizzirri, menos cotado, se projete no torneio. O americano avança para enfrentar o vencedor do duelo entre o italiano Luca Nardi, número 108 do mundo, e o chinês Yibing Wu, 168º do ranking.
Para o tênis brasileiro, a queda precoce do principal jogador na chave de simples recoloca na pauta um tema recorrente: a dificuldade de manter regularidade em alto nível nas grandes quadras. O desempenho no Australian Open influencia convites, patrocínios e até a exposição midiática ao longo do ano. Sem uma campanha longa em Melbourne, a tarefa de permanecer no debate entre os jovens mais promissores do circuito fica mais exigente.
Aos 19 anos, Fonseca ainda vive sua primeira curva de aprendizado dura como protagonista do circuito. O histórico recente mostra que ele já responde bem em grandes palcos, mas agora a equação inclui saúde, calendário e pressão por resultado. A prioridade imediata passa a ser recuperar completamente a lombar, reavaliar o volume de jogos e escolher com precisão os próximos torneios antes de Roland Garros, em maio.
A temporada mal começa, e a derrota em Melbourne não encerra nenhuma possibilidade. Escancara, porém, que talento e status de cabeça de chave não bastam sem um corpo pronto para aguentar maratonas de cinco sets. A resposta de Fonseca nos próximos meses dirá se a queda na Austrália entra na conta como tropeço isolado ou como ponto de virada na maneira como ele conduz a própria carreira.
