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Laudo de exumação reforça dúvidas sobre morte de PM em SP

A morte da policial militar Gisele Alves Santana, 32, encontrada com um tiro na cabeça em 18 de fevereiro de 2026, em São Paulo, deixa de ser tratada apenas como um possível suicídio. Laudos de exumação, imagens de câmeras e relatos de socorristas contrariam a versão inicial apresentada pelo marido, o tenente-coronel da PM Geraldo Leite Rosa Neto, 53, e pressionam por uma investigação mais ampla.

Lesões no corpo e cena questionada pela família

Gisele é encontrada já sem vida no apartamento onde mora, no bairro do Brás, região central da capital paulista. Naquele 18 de fevereiro, o caso entra no sistema oficial como suicídio, com base na informação de que a policial teria atirado contra a própria cabeça com sua arma. A família não se conforma com a conclusão rápida e, nas semanas seguintes, força a reabertura da discussão sobre o que acontece naquele imóvel.

A exumação do corpo, autorizada após a contestação formal da família, muda o rumo da apuração. O novo laudo necroscópico, produzido pelo Instituto Médico-Legal de São Paulo, registra lesões no rosto e no pescoço da policial. Os peritos descrevem marcas “contundentes”, associadas a pressão e escoriações compatíveis com sinais de unhas. Em linguagem simples, o documento sugere que alguém pode ter segurado a vítima com força antes do disparo.

O parecer vai além ao indicar que Gisele possivelmente desmaia antes de ser atingida na cabeça. O laudo também aponta ausência de sinais de defesa, fator que costuma pesar na diferenciação entre uma agressão inesperada e uma briga em que a vítima tenta reagir. A combinação de ferimentos no pescoço, indícios de desmaio e falta de reação física reforça a tese de que a dinâmica da morte pode não ser compatível com um suicídio típico.

O advogado da família, José Miguel da Silva Junior, cobra explicações sobre cada um desses pontos técnicos e afirma que o material desmonta a narrativa inicial. “A família nunca aceitou a hipótese de suicídio e agora conta com elementos objetivos que apontam para outra direção”, diz. O pedido é por uma investigação sem filtros corporativos e com perícias independentes, diante da relevância institucional do caso.

Limpeza do apartamento e conduta do marido ampliam suspeitas

Enquanto os laudos avançam, a reconstrução da cena da morte ganha novos contornos. Imagens de câmeras de segurança do prédio mostram que, cerca de dez horas após o disparo, três policiais mulheres entram no condomínio acompanhadas por uma funcionária. Elas sobem até o apartamento onde a PM é encontrada morta e permanecem ali por aproximadamente 50 minutos.

Uma testemunha ouvida pela investigação relata que as agentes vão ao local para limpar o imóvel. As gravações não mostram a saída de objetos, mas o simples fato de uma equipe entrar em uma cena de morte antes da conclusão da perícia formal, e com a suspeita de ter feito faxina, acende um alerta entre especialistas em criminalística. As três policiais, identificadas como uma soldado e duas cabos, são chamadas a depor no inquérito para explicar a presença no apartamento naquela manhã.

No outro eixo da investigação, a conduta do marido gera novos questionamentos. Em depoimento, o tenente-coronel Geraldo Neto afirma que está no banho quando ouve o disparo que atinge a esposa. Socorristas que chegam ao local, porém, relatam uma cena diferente. Segundo bombeiros que prestam atendimento, o oficial está seco, de bermuda e sem camisa, sem qualquer sinal de água no chão do banheiro que indique uma saída apressada do chuveiro.

Um sargento do Corpo de Bombeiros destaca em depoimento que o tenente-coronel se mostra calmo, fala ao telefone, questiona o tempo todo o procedimento dos socorristas e insiste para que a policial seja levada com rapidez ao hospital. Outro bombeiro observa que ele não tem marcas de sangue no corpo nem nas roupas, o que, na prática, sugere que não tenta fazer manobras de primeiros socorros na mulher caída no chão.

A posição da arma na mão de Gisele também intriga quem atende a ocorrência. Um dos socorristas descreve que o revólver está “bem encaixado” entre os dedos, de uma forma incomum em casos de suicídio. Ele decide fotografar a cena, por considerá-la atípica. Segundo os relatos, o sangue no local já se encontra coagulado quando as equipes chegam ao apartamento, e o cartucho da bala não é encontrado.

A linha do tempo reconstruída pela polícia reforça a sensação de quebra de lógica. Uma vizinha diz ouvir um tiro forte por volta das 7h28. O primeiro contato do tenente-coronel com o serviço de emergência ocorre apenas às 7h57, quase meia hora depois. As equipes de resgate entram no prédio às 8h13. Nesse intervalo, o oficial também liga para o desembargador Marco Antônio Pinheiro Machado Cogan, do Tribunal de Justiça de São Paulo, que chega ao edifício e sobe ao apartamento pouco depois das 9h07.

O advogado da família estranha a presença do magistrado no local. “Ele vai ter que explicar por que estava lá. Pelo relato que temos, o desembargador foi a primeira pessoa acionada após o disparo”, afirma. A defesa de Cogan sustenta que ele é chamado apenas como amigo do tenente-coronel e reforça que eventuais esclarecimentos serão prestados à polícia judiciária.

Pressão por transparência e efeitos sobre a Polícia Militar

Os desdobramentos da morte de Gisele transbordam o drama familiar e entram no campo institucional. O episódio expõe a dificuldade histórica do Estado em investigar, com isenção, casos sensíveis dentro das próprias forças de segurança. Crime de homicídio ou suicídio mal esclarecido de policiais costuma acionar redes de proteção corporativa, alimentando suspeitas de conivência e omissão.

Em nota, a Secretaria da Segurança Pública de São Paulo afirma que “todas as circunstâncias relacionadas à morte da Sd. PM Gisele Alves Santana são apuradas por meio de inquéritos instaurados pela Polícia Civil e pela Corregedoria da Polícia Militar”. O órgão acrescenta que “a instituição não compactua com irregularidades ou desvios de conduta e ressalta que, caso seja constatada qualquer ilegalidade, as medidas cabíveis serão adotadas”.

A defesa do tenente-coronel Geraldo Neto, em manifestação divulgada antes do laudo da exumação, diz que ele não é investigado, suspeito ou indiciado no processo até o momento e que colabora com as autoridades desde o início. Os advogados afirmam que o oficial permanece à disposição para ajudar na elucidação dos fatos e reafirmam a tese de suicídio.

O caso, porém, já provoca efeitos concretos. Movimentos de combate à violência contra a mulher, entidades de direitos humanos e grupos de policiais que discutem saúde mental na corporação começam a usar a morte de Gisele como símbolo da necessidade de maior controle externo sobre investigações internas. Organizações pressionam o Ministério Público a atuar com mais firmeza e pedem a revisão de protocolos de preservação de cenas de crime, sobretudo quando há agentes fardados entre vítimas e suspeitos.

Especialistas em segurança pública lembram que episódios como esse corroem a confiança da população em instituições que dependem de legitimidade para funcionar. Em São Paulo, onde a Polícia Militar tem mais de 80 mil integrantes, casos de violência doméstica envolvendo agentes e suspeitas de encobrimento de colegas ainda enfrentam resistência para vir à tona. A discussão sobre transparência, controle e proteção de policiais mulheres ganha novo impulso a partir da morte da soldado.

Investigação em curso e perguntas sem resposta

Os inquéritos em andamento na Polícia Civil e na Corregedoria da PM tentam agora juntar as pontas soltas. A tarefa inclui confrontar o laudo de exumação com as primeiras perícias, esclarecer a atuação das três policiais que entram no apartamento, detalhar a linha do tempo entre o disparo e os chamados por ajuda e definir o papel de cada pessoa que circula pela cena antes da chegada formal dos investigadores.

Os próximos meses tendem a ser decisivos para o rumo do caso. Uma eventual conclusão por homicídio qualificado obrigaria a reabertura completa do processo e poderia levar à responsabilização criminal de integrantes da corporação. Mesmo a manutenção da hipótese de suicídio, diante da quantidade de inconsistências, colocaria em xeque os procedimentos usados em 18 de fevereiro e exigiria revisão de protocolos.

A família de Gisele, movimentos sociais e entidades de segurança cobram que o desfecho venha acompanhado de transparência integral, com divulgação de perícias, depoimentos e decisões. O caso, que começa como mais um registro de morte em ambiente doméstico, já se transforma em teste público para a capacidade do Estado de investigar a si mesmo. As respostas que sairão dessas apurações dirão não apenas o que aconteceu no apartamento do Brás, mas até onde vai a disposição das instituições de enfrentar seus próprios fantasmas.

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