Lancha bate em píer no Rio Grande e mata 6 entre SP e MG
Uma lancha com 15 pessoas a bordo colide contra um píer no Rio Grande e mata seis ocupantes na noite de sábado (21), entre Rifaina (SP) e Sacramento (MG). Entre as vítimas estão uma criança, quatro mulheres e o piloto, que não tinha habilitação para conduzir a embarcação.
Tragédia em área de lazer e grupo de familiares
O passeio de barco começa como um programa de fim de semana para um grupo que sai de Franca, no interior de São Paulo, em direção ao Rio Grande. A região, na divisa entre Rifaina (SP) e Sacramento (MG), atrai turistas por causa das represas e marinas que se espalham pela margem mineira do rio.
O clima de lazer termina em choque quando a lancha atinge um píer na margem de Minas Gerais. A batida provoca destruição imediata na parte dianteira da embarcação e arremessa passageiros na água escura da noite. Nove pessoas sobrevivem e são resgatadas com a ajuda de moradores, mergulhadores e agentes da Guarda Civil Municipal de Rifaina.
As vítimas fatais são uma criança, quatro mulheres de 22 a 46 anos e o piloto, que conduzia a lancha sem qualquer habilitação. Parte do grupo é ligada à família do prefeito de Patrocínio Paulista, na região de Franca, o que amplia o impacto da tragédia na cidade de pouco mais de 14 mil habitantes.
O Corpo de Bombeiros de Minas Gerais é acionado ainda à noite e mantém as buscas até por volta de 4h30 da madrugada de domingo. Os mergulhadores localizam corpos próximos ao píer e em pontos rasos, onde destroços da lancha e partes da estrutura atingida se misturam.
Piloto sem habilitação e comoção política
Os primeiros relatos colhidos por equipes de resgate e pela Polícia Civil apontam que o grupo contrata o passeio mesmo sabendo que o condutor não tem habilitação. A lancha navega em condições consideradas adversas, com pouca visibilidade e vento forte, até a colisão no píer. A investigação ainda vai determinar a velocidade da embarcação e se havia consumo de bebida alcoólica.
A Prefeitura de Patrocínio Paulista confirma, em nota oficial, que duas das vítimas são parentes diretos do prefeito Mário Marcelo Carraro Bertelli (PSD). A criança, Bento Aredes, nascido em 20 de dezembro de 2021, e a mãe dele, Viviane Aredes, nascida em 22 de fevereiro de 1990, são sobrinho e cunhada do prefeito e da primeira-dama, Isabela Aredes.
No comunicado, o município decreta luto oficial e fala em “profundo pesar” pelo acidente. “Neste momento de imensa dor, nos solidarizamos com todos os familiares e amigos, pedindo a Deus que conceda força, serenidade e conforto aos corações enlutados. Que a fé seja amparo e que a memória de Viviane e Bento permaneça viva no amor de todos que tiveram o privilégio de conhecê-los”, afirma a nota.
Moradores de Rifaina e de cidades vizinhas acompanham, durante a madrugada, o trabalho dos bombeiros na margem mineira. Muitos conhecem as vítimas pelo vínculo com Patrocínio Paulista e pela frequência da região como ponto de lazer aos fins de semana. A notícia das mortes se espalha pelas redes sociais antes mesmo da confirmação oficial dos nomes.
A Polícia Civil de Minas Gerais informa que a perícia técnica vai ao local ainda na madrugada para analisar a lancha, o píer e as condições de navegação. O laudo deve apontar o ponto exato de impacto, a trajetória da embarcação e possíveis falhas mecânicas. O inquérito deve responsabilizar o proprietário da lancha e apurar quem autorizou o uso do barco por um piloto não habilitado.
Fiscalização de embarcações em debate
O acidente reacende um debate antigo na região do Rio Grande sobre fiscalização de lanchas e barcos de passeio. Em áreas de represa e hidroelétricas, a navegação de lazer cresce nas últimas décadas, mas o controle sobre licenças e habilitações não acompanha o mesmo ritmo, segundo moradores e operadores de turismo ouvidos após o acidente.
Regras da Marinha exigem habilitação específica para conduzir embarcações motorizadas, semelhante à carteira de motorista para carros. Na prática, muitos passeios são negociados de forma informal, sem contrato e sem conferência de documentos. A ausência de checagem permite que condutores sem habilitação circulem com grupos grandes, como o de 15 pessoas que embarca no sábado.
Corpos de Bombeiros de estados como São Paulo e Minas reforçam, em campanhas sazonais, a necessidade do uso de coletes salva-vidas e da contratação de pilotos credenciados. A cada temporada de calor, porém, acidentes em rios e represas voltam a expor falhas na fiscalização e na cultura de segurança das famílias que procuram esses destinos.
A morte de uma criança de 4 anos, completados dois meses antes do acidente, e de quatro mulheres em idade adulta, num único episódio, concentra esse debate numa comunidade pequena. Patrocínio Paulista, Franca, Rifaina e Sacramento organizam missas, velórios e correntes de apoio às famílias ao longo do domingo e dos próximos dias. Escolas e órgãos públicos locais discutem homenagens e ações de acolhimento.
O efeito político também é imediato. A presença de parentes do prefeito entre as vítimas coloca a tragédia no centro da agenda municipal. Vereadores e lideranças regionais cobram mais rigor no controle do turismo náutico na região do Rio Grande, incluindo cadastro obrigatório de embarcações e checagem sistemática de condutores.
Próximos passos da investigação e possíveis mudanças
Os investigadores da Polícia Civil de Minas Gerais devem ouvir, nos próximos dias, os nove sobreviventes, proprietários da embarcação, moradores que ajudaram no resgate e agentes da Guarda Civil. O objetivo é reconstruir minuto a minuto o que acontece entre a saída do grupo de Franca e a colisão no píer, na noite de 21 de fevereiro de 2026.
O laudo da perícia, que costuma levar semanas, deve detalhar se houve excesso de velocidade, erro de manobra, falta de sinalização no píer ou combinação desses fatores. A conclusão técnica vai embasar eventuais denúncias por homicídio culposo, quando não há intenção de matar, e por permitir a condução de embarcação por pessoa não habilitada.
Governos locais avaliam reforçar campanhas educativas antes dos feriados de 2026, quando a procura por passeios no Rio Grande deve voltar a crescer. Prefeituras e câmaras municipais já discutem protocolos de parceria com a Marinha e com os Corpos de Bombeiros para mapear pontos críticos, orientar turistas e coibir serviços irregulares.
A região tenta, ao mesmo tempo, retomar a rotina e lidar com o luto coletivo. As imagens da lancha destruída e do píer danificado se tornam símbolo da fragilidade de um lazer que, em teoria, deveria ser seguro. A investigação e eventuais mudanças nas regras de fiscalização vão mostrar se a tragédia deste sábado permanece como episódio isolado ou se se torna um ponto de virada na forma como o turismo aquático é tratado no interior de São Paulo e de Minas Gerais.
