Kim Jong-un prepara filha adolescente para sucedê-lo na Coreia do Norte
Kim Jong-un intensifica, até fevereiro de 2026, a exposição pública da filha, Kim Ju Ae, e sinaliza que prepara a adolescente para sucedê-lo na Coreia do Norte. A movimentação ocorre em paralelo ao desenvolvimento de um submarino capaz de lançar mísseis balísticos, reforçando a aposta do regime em continuidade dinástica e poder militar.
Dinastia em transição sob vigilância externa
As aparições de Kim Ju Ae deixam de ser raras e passam a fazer parte da rotina de propaganda do regime. A jovem, que analistas sul-coreanos estimam estar no início da adolescência, acompanha o pai em inspeções de projetos de armamento, visitas a bases e eventos oficiais de destaque. A mudança de enquadramento, de figura meramente familiar para presença constante ao lado do líder, alimenta a avaliação de que ela se torna a herdeira preferencial da quarta geração da família Kim.
A Agência Nacional de Inteligência da Coreia do Sul (NIS, na sigla em inglês) acompanha cada gesto. Parlamentares de Seul que recebem relatórios sigilosos dizem que a agência observa agora se Ju Ae aparecerá na próxima reunião do Partido dos Trabalhadores, o coração do poder em Pyongyang, e de que forma será apresentada. A dúvida central é se ela surgirá com um título oficial dentro da estrutura partidária, um passo simbólico e prático na construção de sua autoridade futura.
O olhar externo se volta também para o tom usado pela mídia estatal norte-coreana. Ju Ae, antes citada de forma discreta como “filha amada”, passa a ser descrita com formulações mais solenes, típicas de figuras em ascensão na hierarquia. A imprensa oficial controla cada palavra, o que transforma nuances de linguagem em sinais políticos lidos com atenção por governos rivais e analistas de segurança.
Submarino nuclear e recado militar à região
O processo de construção da imagem de Ju Ae ocorre ao lado de uma aceleração visível dos programas militares norte-coreanos. Parlamentares sul-coreanos relatam que Kim Jong-un supervisiona pessoalmente o desenvolvimento de um grande submarino, com deslocamento estimado em 8.700 toneladas, que provavelmente é capaz de transportar até dez mísseis balísticos lançados por submarino. Esse tipo de armamento, conhecido pela sigla em inglês SLBM, permite ataques a longa distância a partir do mar, o que dificulta qualquer tentativa de neutralização preventiva.
Especialistas consultados por comissões do Parlamento em Seul afirmam que o porte do submarino indica a possibilidade de propulsão nuclear, por meio de um pequeno reator. Um sistema desse tipo ampliaria muito o alcance e o tempo de permanência em operação, sem necessidade de reabastecimento frequente. Para os vizinhos da Coreia do Norte, o recado é direto: o regime busca uma capacidade de segunda resposta, ou seja, a garantia de que pode retaliar mesmo após um primeiro ataque inimigo.
O avanço ocorre em meio a testes sucessivos de mísseis que a mídia estatal descreve como sucesso técnico e prova de determinação política. Em transmissões recentes, Kim aparece supervisionando lançadores de projéteis de longo alcance e elogia engenheiros e militares. “Vamos continuar fortalecendo, sem interrupção, a capacidade de dissuasão da nossa República”, afirma, em discurso reproduzido pela televisão estatal. A presença de Ju Ae em parte dessas imagens reforça a associação entre futuro da liderança e continuidade do programa militar.
Para Washington, Tóquio e Seul, a combinação de sucessão dinástica planejada e modernização bélica reduz a margem de incerteza sobre o rumo do regime, mas aumenta a sensação de longo conflito congelado. A expectativa de um eventual abrandamento com uma futura troca de líder, hipótese que já circulou em outras transições dentro do clã Kim, perde força à medida que a herdeira é apresentada desde cedo ao lado de armamentos estratégicos.
Sucessão controlada e impacto regional
A possível ascensão de Kim Ju Ae preserva a lógica de poder instaurada desde 1948, quando Kim Il-sung consolida o Estado norte-coreano sob controle absoluto da família. Desde então, a Coreia do Norte passa por duas transições de liderança, em 1994 e 2011, sempre dentro do mesmo círculo familiar. O desenho que hoje se desenha em Pyongyang indica uma terceira transferência cuidadosamente roteirizada, apoiada em culto à personalidade, estrutura partidária rígida e aparato militar centralizado.
No plano interno, o movimento reforça a centralização do poder em torno do clã e reduz ainda mais o espaço para eventuais disputas entre elites civis e militares. A exposição precoce de Ju Ae em atos ligados às Forças Armadas sugere um esforço para ancorar sua futura legitimidade não só no sobrenome, mas também no vínculo direto com os projetos de defesa mais sensíveis. Generais que hoje respondem a Kim Jong-un são, na prática, lembrados diariamente de que a continuidade do programa passa pela herdeira ao seu lado.
Na região, governos reagem com ajustes graduais. A Coreia do Sul acelera programas de defesa antimísseis e discute, desde 2023, formas de ampliar a coordenação estratégica com os Estados Unidos e o Japão para lidar com uma Coreia do Norte nuclearizada por décadas. Em Tóquio, parlamentares conservadores usam a perspectiva de uma sucessão tranquila em Pyongyang para defender aumento estável do orçamento de defesa, que já supera 1% do PIB japonês.
As grandes potências acompanham com cautela. A China mantém a posição de principal aliado econômico e canal diplomático de Pyongyang, mas evita se associar publicamente à retórica mais agressiva. Nos bastidores, diplomatas chineses reconhecem que um regime norte-coreano previsível, ainda que hostil ao Ocidente, interessa mais a Pequim do que um vácuo de poder na fronteira. Para Moscou, engajada em disputas com o Ocidente em vários tabuleiros, a continuidade da dinastia Kim oferece um parceiro estável em votos e discursos antiamericanos.
Olhar voltado para o Partido e para o mar
Os próximos sinais virão de duas frentes. No campo político, a atenção se concentra na próxima grande reunião do Partido dos Trabalhadores em Pyongyang. A presença de Kim Ju Ae em posição de destaque, acompanhada de um título formal, selaria a etapa seguinte de sua projeção pública e daria contornos oficiais ao papel de sucessora. Sua ausência, ou uma aparição discreta, não encerraria as especulações, mas adiaria a consolidação da narrativa de herdeira.
No mar, satélites e serviços de inteligência seguem cada avanço no estaleiro onde o submarino de 8.700 toneladas é montado. A entrada da embarcação em testes de mar, com ou sem confirmação de propulsão nuclear, marcará um novo patamar para o programa de mísseis balísticos norte-coreano. O dia em que uma futura líder Kim, criada à sombra desse arsenal, assumir o comando do país dirá até que ponto a mistura de dinastia política e dissuasão militar redefinirá o equilíbrio de poder na Ásia.
