Khamenei ameaça tratar ataque pessoal como guerra total contra o Irã
O aiatolá Ali Khamenei afirma, nesta segunda-feira (18), que qualquer agressão contra ele será tratada como “declaração de guerra total” contra o Irã. O alerta ocorre em meio à maior onda de protestos em anos e a uma escalada verbal com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.
Escalada em meio à pior crise interna em anos
O pronunciamento do líder supremo ocorre em Teerã, sob o ruído constante de manifestações que se espalham pelo país desde o fim de dezembro. As ruas ainda sentem o impacto das primeiras marchas iniciadas nos bazares da capital, quando comerciantes decidiram fechar as portas em protesto contra a inflação descontrolada e a disparada de preços de itens básicos como óleo de cozinha e frango.
A insatisfação rapidamente ultrapassa os corredores comerciais e se torna um movimento nacional contra o regime. Organizações de direitos humanos estimam que centenas de pessoas morrem desde o início da repressão. Um grande jornal regional, citando fontes médicas e de segurança, fala em mais de 16,5 mil mortos e desaparecidos, número que o governo não comenta publicamente, mas que pressiona ainda mais o regime.
Khamenei reage endurecendo o discurso. Ele responsabiliza diretamente os Estados Unidos pela agitação nas ruas e acusa Washington de incitar os protestos. Ao mesmo tempo, reforça o próprio papel como pilar da República Islâmica, ao dizer que qualquer tentativa de atingi-lo “equivale a uma guerra total contra a nação”.
O tom reflete um momento em que a contestação interna e a pressão externa se cruzam. Na véspera, Trump pede “uma nova liderança para Teerã” depois de ser chamado de “criminoso” por Khamenei por apoiar publicamente os manifestantes. A troca de acusações transforma uma crise doméstica iraniana em mais um foco de tensão aberta entre Teerã e Washington.
Da crise econômica ao risco de conflito regional
A atual onda de protestos nasce da economia real. Na semana anterior ao discurso, o preço de produtos básicos sobe de forma abrupta, da noite para o dia, esvaziando prateleiras em mercados de bairros e grandes redes. Lojistas relatam que itens essenciais simplesmente desaparecem, enquanto famílias passam a fazer filas antes da abertura das lojas para tentar garantir o mínimo.
A decisão do banco central de encerrar um programa que oferecia dólares mais baratos a determinados importadores funciona como gatilho. Sem o acesso à moeda americana a taxas reduzidas, comerciantes ajustam preços ou suspendem as vendas. Os bazaaris, tradicionalmente aliados da República Islâmica e parte da base econômica do regime desde 1979, cruzam os braços. O gesto carrega peso político e simbólico.
O governo, liderado por reformistas, tenta conter o desgaste com transferências diretas de cerca de US$ 7 por mês às famílias mais pobres. O valor não compensa a escalada dos preços. A moeda local perde valor, o poder de compra desaba e a insatisfação transborda para bairros de classe média e cidades industriais. A crise se alimenta de anos de sanções internacionais que restringem exportações de petróleo, acesso a crédito e investimentos externos.
O presidente iraniano, Masoud Pezeshkian, tenta enquadrar a narrativa. Em publicação no Facebook, escreve que “as dificuldades enfrentadas pelo povo iraniano hoje são, em grande parte, resultado da hostilidade de longa data e das sanções desumanas impostas pelos EUA e seus aliados”. Na mesma linha, reforça que qualquer ataque ao líder supremo é ataque ao país, ecoando o aviso de Khamenei.
Em paralelo, Trump eleva o tom. Ele afirma que considera atacar o Irã caso as forças de segurança continuem a responder com violência às manifestações. O aviso vem depois de relatos de uso de munição real contra multidões e de prisões em massa em cidades como Mashhad, Shiraz e Isfahan. O líder supremo responde dizendo que o presidente americano deveria “focar em seu próprio país” e acusa Washington de explorar o sofrimento dos iranianos.
As autoridades iranianas cortam a internet e linhas telefônicas na quinta-feira (8), a noite mais intensa de protestos até agora. O país se desconecta do mundo, dificultando a checagem independente do número de mortos e feridos. Vídeos gravados antes do blecaute mostram confrontos em ruas estreitas, queimadas de cartazes oficiais e imagens do próprio Khamenei sendo rasgadas em público, gesto raro numa sociedade marcada pelo medo da repressão.
Mercados, diplomacia e o novo estágio da crise
A ameaça de tratar um ataque pessoal como guerra total muda o cálculo de risco em toda a região. O Irã controla ou influencia rotas estratégicas de petróleo no Golfo Pérsico, por onde circulam milhões de barris por dia. O simples aumento da tensão já provoca alta imediata nos contratos futuros de petróleo, com operadores precificando a chance de interrupções temporárias em terminais e estreitos marítimos.
Aliados do Irã, de grupos armados no Líbano a milícias no Iraque e no Iêmen, acompanham o discurso com atenção. Analistas no Oriente Médio veem espaço para respostas indiretas, por meio de ataques contra interesses americanos ou aliados na região, em caso de escalada militar. Cada movimento aumenta o risco de choques localizados que, somados, podem redesenhar o mapa de segurança regional.
Nos bastidores diplomáticos, cresce a pressão por uma solução negociada. Países europeus, ainda dependentes do petróleo do Golfo e preocupados com novos fluxos de refugiados, buscam mediar algum tipo de canal entre Washington e Teerã. Uma nova rodada de sanções, caso aprovada por Estados Unidos e aliados, tende a aprofundar a crise econômica iraniana e a empurrar ainda mais a população para a rua.
Dentro do Irã, o regime enfrenta um dilema. Ceder às demandas por reformas políticas e aliviar a repressão pode ser visto como sinal de fraqueza, num sistema construído em torno da figura do líder supremo. Endurecer ainda mais, por outro lado, aumenta o risco de rupturas imprevistas dentro do próprio aparato de segurança, que precisa lidar com protestos quase diários e com o desgaste de ver milhares de mortos e feridos desde o fim de dezembro.
A cada nova noite de confronto, o país se afasta um pouco mais da normalidade econômica e social. Famílias reorganizam rotinas para escapar de barreiras policiais, estudantes deixam de frequentar universidades, pequenos negócios contabilizam prejuízos após dias de portas fechadas. A crise, que surge da inflação e do câmbio, se transforma em impasse político e humanitário.
O que pode acontecer a partir de agora
O alerta de Khamenei funciona como linha vermelha explícita para Washington e seus aliados. Qualquer operação que possa ser interpretada como ataque direto ao líder supremo passa a carregar o risco de desencadear uma resposta ampla, possivelmente envolvendo mísseis, bloqueios marítimos e ações de grupos alinhados ao Irã fora de seu território.
Trump, em ano eleitoral e sob pressão doméstica, precisa equilibrar a retórica dura com o custo político e econômico de um conflito aberto no Oriente Médio. Um ataque americano que provoque resposta iraniana imediata pode elevar o preço do barril, pressionar a inflação global e afetar diretamente consumidores nos Estados Unidos e na Europa.
No curto prazo, diplomatas apostam na combinação de sanções adicionais, ameaças públicas e canais discretos de comunicação para evitar um ponto sem retorno. Dentro do Irã, o governo tenta recuperar algum controle por meio de repressão seletiva, concessões econômicas pontuais e apelos ao patriotismo diante da pressão externa.
As próximas semanas serão decisivas para medir se o aviso de Khamenei é sobretudo retórico ou se antecipa uma postura de confronto mais direto. O futuro político do Irã, a estabilidade do Golfo e o preço da energia no mundo hoje passam pela resposta a uma pergunta simples e ainda sem resposta: até onde Washington e Teerã estão dispostos a ir.
