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Khamenei admite milhares de mortos em protestos e culpa EUA

O líder supremo do Irã, aiatolá Ali Khamenei, admite neste sábado (17) que “vários milhares” de pessoas morrem nos protestos recentes no país. Ele responsabiliza diretamente os Estados Unidos pela violência e isenta as forças de segurança iranianas.

Khamenei rompe silêncio e redefine narrativa oficial

Em um discurso em Teerã durante a celebração do aniversário da escolha de Maomé como profeta do islã, Khamenei afirma que “elementos ignorantes e desinformados, sob a liderança de agentes mal-intencionados e treinados”, cometem crimes que “provocam a morte de vários milhares de pessoas”. É a primeira vez que a mais alta autoridade política e religiosa do país reconhece a magnitude do massacre que se espalha pelo Irã desde 28 de dezembro de 2025.

Até agora, o regime evita divulgar números oficiais. Organizações de oposição sediadas no exílio falam em ao menos 3.428 mortos e cerca de 19 mil detidos. As manifestações começam como protesto contra a crise econômica e o colapso do rial, a moeda iraniana, e rapidamente ganham tom político, com gritos de “Morte à República Islâmica” e “Morte a Khamenei” em dezenas de cidades.

Khamenei tenta conter a pressão interna e externa ao enquadrar a revolta como parte de um complô estrangeiro. “Os protestos que abalam o país são um complô americano e o objetivo americano é devorar o Irã”, declara, em mensagem divulgada por seu site oficial e pela agência Tasnim. O aiatolá coloca o presidente americano Donald Trump no centro da acusação e o chama de “criminoso”.

Segundo o líder iraniano, Trump “intervém pessoalmente” na crise. “Falou, ameaçou e, encorajando os conspiradores, enviou-lhes a mensagem para que avançassem, que não tivessem medo e que contavam com nosso apoio militar”, afirma. Em seguida, completa: “Consideramos o presidente dos Estados Unidos culpado pelas vítimas, pelos danos e pelas acusações que dirigiu à nação iraniana”.

Protestos se radicalizam em meio à crise econômica

As mobilizações começam em 28 de dezembro, em Teerã, quando comerciantes fecham as portas em reação à forte desvalorização do rial e à disparada de preços básicos. As queixas econômicas se transformam em contestação aberta ao regime teocrático. Em poucos dias, os atos se espalham pelo país, atingem grandes centros urbanos e cidades de porte médio e pequeno, e chegam ao auge entre 8 e 9 de janeiro, com registros de manifestações em praticamente todo o território iraniano.

O governo fala em vandalismo generalizado. A versão oficial aponta a destruição de 250 mesquitas, mais de 250 centros educacionais e científicos e danos a instalações elétricas, bancos, complexos de saúde e lojas de produtos básicos. Khamenei descreve “atos extremamente desumanos, como prender e queimar jovens vivos em mesquitas, e assassinar meninas e homens e mulheres indefesos, com armas fornecidas do exterior”. Não apresenta, porém, provas públicas que sustentem o relato nem explica o papel das forças de segurança nas mortes.

Organizações de direitos humanos e grupos de oposição acusam o aparato repressivo de responder com munição real, detenções em massa e cortes de comunicação em regiões mais sensíveis. As estimativas de mais de 3.400 mortos e 19 mil presos contrastam com o silêncio oficial mantido até o discurso deste sábado. Em várias cidades, vídeos divulgados em redes sociais mostram colunas de fumaça, sirenes e disparos à noite, além de postos policiais incendiados e bancos destruídos.

A tensão aumenta após declarações de Trump durante a escalada da crise. Quando o número de mortos ainda é estimado em sete, o presidente americano ameaça “atacar o país se morressem mais pessoas” e, dias depois, afirma que “há ajuda a caminho”, frase interpretada em Teerã como aceno a uma possível intervenção. O governo iraniano insiste que agentes ligados aos serviços de inteligência dos Estados Unidos e de Israel se infiltram nas manifestações para justificar uma ação militar de Washington, que até agora não se concretiza.

Escalada diplomática e incerteza para o Oriente Médio

A fala de Khamenei abre um novo capítulo na disputa narrativa com os Estados Unidos e aprofunda o desgaste da imagem iraniana no cenário internacional. Ao reconhecer “vários milhares” de mortos, o líder supremo valida parte das denúncias sobre a dimensão da repressão, mas transfere toda a responsabilidade a forças externas. “Não levaremos o país à guerra, mas também não deixaremos impunes os criminosos internos e internacionais do complô americano”, promete. Em seguida, avisa que “os Estados Unidos devem prestar contas”.

Diplomatas e analistas veem na mudança de tom um movimento calculado. Ao admitir a escala da tragédia, Khamenei tenta preservar a coesão interna do regime, apresentando o país como vítima de agressão estrangeira em meio a uma crise econômica profunda. Ao mesmo tempo, alimenta a confrontação com Washington e reforça o discurso de cerco externo que sustenta o establishment iraniano desde a Revolução de 1979. As acusações devem acirrar debates em fóruns multilaterais sobre direitos humanos e reabrir a discussão sobre sanções, enquanto governos da região avaliam o impacto da instabilidade iraniana em suas próprias agendas de segurança.

Para a população, o reconhecimento ainda parcial das mortes não traz respostas sobre responsabilidades individuais nem sobre o destino dos cerca de 19 mil detidos. Famílias seguem em busca de notícias de parentes desaparecidos e enfrentam um cenário de incerteza política, inflação alta e moeda enfraquecida. A promessa de punir “criminosos internos” indica um endurecimento sobre opositores e críticos, inclusive dentro do próprio aparato estatal.

As próximas semanas devem testar a capacidade de o regime controlar a narrativa, evitar novas ondas de protestos e administrar a pressão externa. A dúvida central permanece sem resposta em Teerã e nas capitais ocidentais: o reconhecimento tardio de Khamenei é o início de algum ajuste interno ou apenas mais um capítulo de uma confrontação que empurra o Irã, e o Oriente Médio, para uma fase ainda mais imprevisível?

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